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Internacional

Brasil sai à rua indignado com assassínio de vereadora

Antonio Lacerda

Protestos contra o assassínio de vereadora Marielle Franco levam esta quinta-feira os brasileiros às ruas em mais de uma dúzia de capitais estaduais. “Sem hipocrisia, essa polícia militar mata pobre todo o dia”, é uma das palavras de ordem que ressoa depois do grito: “Marielle, presente”

Milhares de pessoas continuam a afluir à praça em frente à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde decorre a homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada esta quarta-feira à noite com quatro tiros na cabeça numa emboscada ao seu automóvel em que também morreu o seu motorista Anderson Gomes.

Dali, uma boa parte da multidão deverá dirigir-se para Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a cerca de 1km de distância, de onde parte a manifestação de protesto contra a execução de Marrielle Franco. Tal como em pelo menos uma dúzia de outras capitais estaduais incluindo a capital federal, a manifestação do Rio está marcada para as 17h locais, 20h em Lisboa.

“Não acabou, tem de acabar, eu quero fim dessa polícia militar” é outra palavra de ordem que, segundo a imprensa brasileira, se está a ouvir desde esta manhã em vários locais do país.

Quatro dias antes de ter sido assassinada, a vereadora eleita pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), denunciou nas redes sociais a atuação da Polícia Militar, referindo especificamente o 41º batalhão da PM e os excessos cometidos no sábado passado em Acari, uma favela na zona norte da cidade do Rio de Janeiro.

“O que está acontecer em Acari é um absurdo! O 41º batalhão da PM é conhecido como o batalhão da morte. Chega de matarem os nossos jovens”, lê-se na mensagem divulgada por Marielle Franco.

RICARDO MORAES/ Reuters

Durante a intervenção em Acari, militares do 41º batalhão abateram dois jovens negros, um dos quais que vinha a sair de sair de uma igreja, de acordo com a imprensa brasileira. E o epíteto de Batalhão da Morte, advém do facto dos dados oficiais do Instituto de Segurança Pública, atribuírem 430 mortos a este batalhão nos últimos cinco anos. Segundo a mesma fonte, no conjunto do Estado do Rio de Janeiro foram mortas 1035 pessoas entre janeiro e novembro de 2017, contra 920 no ano anterior.

Conhecida pela sua militância em defesa das mulheres e da população negra, Marielle Franco foi nomeada há cerca de duas semanas como relatora da comissão camarária que vai acompanhar a intervenção federal no Rio de Janeiro, que coloca sob alçada militar todas as forças de segurança civis e militares estaduais. A medida foi decretada em janeiro pelo presidente Michel Temer e é inédita em democracia no Brasil.

Marielle Franco, de 38 anos, definia-se como “uma filha da Maré”, um conglomerado de grandes favelas na zona norte do Rio de Janeiro. Licenciada em Sociologia, Franco fez o mestrado em Administração Pública com a tese “UPP: a redução da favela a três letras”, sobre a estratégia das Unidades de Polícia Pacificadora adotada em finais de 2008 pelo Estado do Rio de Janeiro. Uma opção política cujos os resultados não impediram que a violência na cidade continuasse a crescer para níveis nunca vistos, salientam os analistas.