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“A morte de Marielle abre um precedente muito grave na política brasileira”

Mario Vasconcellos HANDOUT/ EPA

“O assassinato de Marielle nos aproxima ainda mais de momentos em que os governos perderam o controle, cedendo ao crime a negociação espúria das divergências”. Num artigo para o Expresso, a cientista política brasileira, Débora Thomé, lembra que Marielle “foi morta por ser política, por aquilo que representa”

Débora Thomé, cientista política, escritora e feminista brasileira

“Eu vivi na Maré a outra intervenção por 14 meses. Os favelados e faveladas sabem exatamente o que é o barulho do tanque na sua porta”. Era assim o discurso da vereadora Marielle Franco, negra, lésbica, favelada no dia 20 de fevereiro.

Este discurso é um dos muitos que circulam pelas redes desde a última noite. Marielle Franco foi assassinada esta quarta-feira à noite no centro do Rio de Janeiro; o motorista que conduzia o carro em que seguia também foi morto.

Marielle, era, sem qualquer dúvida, a mais pujante novidade da política do Rio de Janeiro nos últimos anos. Disputando em um partido de esquerda, recebeu 46,5 mil votos nas eleições de 2016, sendo a quinta mais votada para a câmara de vereadores da cidade.

O Rio de Janeiro vive uma intervenção militar, desde o último mês. Com o aumento dos índices de violência – ainda que menores que outrora ou do que se sente –, o governo federal decidiu, no que muitos consideram uma estratégia política, intervir militarmente para tentar reduzir os conflitos.

A vereadora que lutava pelos direitos das mulheres e dos negros

Marielle é oriunda da Maré, conglomerado onde ficam 16 favelas e, em casas simples ou barracos, vivem mais de 100 mil pessoas. Lá também é um dos focos de ação da polícia e dos militares. A vereadora lutava contra este arbítrio diariamente, assim como pelos direitos das mulheres e dos negros. No Carnaval, fez campanha contra o assédio às mulheres.

Sua trajetória pessoal era de uma mulher de luta. De luta quase imparável, todos os dias, todas as noites. Marielle engravidou ainda adolescente e, para cuidar da filha, teve que deixar os estudos. Voltaria uns anos depois à universidade, quando conseguiu cursar Ciências Sociais com ajuda de uma bolsa. Depois, graduou-se mestre em administração pública. Sua carreira política começou como assessora de Marcelo Freixo, colega de partido e conhecido político no Brasil [foi candidato a prefeito e governador do RJ e deputado].

Na Assembleia Legislativa, Marielle, chegou à Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, como coordenadora [cargo não eletivo].

Débora Thomé, cientista política brasileira, feminista e escritora. Investiga ligados à participação das mulheres na política, no Brasil. É autora dos livros “Mulheres e poder, histórias, ideias e indicadores” e do infantil “50 Brasileiras Incríveis para conhecer antes de crescer”

Débora Thomé, cientista política brasileira, feminista e escritora. Investiga ligados à participação das mulheres na política, no Brasil. É autora dos livros “Mulheres e poder, histórias, ideias e indicadores” e do infantil “50 Brasileiras Incríveis para conhecer antes de crescer”

D.R.

Na eleição de 2016, a primeira em que participou, Marielle tinha a cara da esperança de uma nova política que lutava pelas pessoas que mais precisavam, que batalhava por causas difíceis, mas com uma alegria e garra quase difíceis de entender diante de tantos empecilhos.

Ontem,quarta-feira, eram 22h30 no Brasil quando grupos de whatsapp, ligações, mensagens começaram a pipocar nos celulares. O horror, o choque, a indignação tomaram conta daqueles que estão perto da política ou mesmo dos que não estão. Ninguém acreditava que aquela mulher, justo ela, tinha sido brutalmente silenciada. Uma das suspeitas é que isso ocorreu devido a sua luta contra violência policial.

A morte de Marielle abre um precedente muito grave na política brasileira. Para começar, o Brasil é um dos países com piores índices de representação feminina, o 151º no mundo (numa lista de 193 países).

Poucas são as mulheres que se dispõem a embarcar nesta trajetória, num contexto de quase nenhum apoio dos caciques dos partidos, machismo institucional, violência verbal por parte dos colegas nas assembleias. Para além da questão de gênero, e talvez ainda mais ameaçador, é o fato de que uma representante política foi morta por ser política, por aquilo que representa. Quando uma sociedade permite que a bala seja o fim de quem defende um lado diferente do nosso – e, neste caso, o lado dela era o dos diretos humanos –, isso faz com que a negociação que se espera da política vire apenas força bruta. Vira a morte.

O assassinato de Marielle nos aproxima ainda mais de momentos em que os governos perderam o controle, cedendo ao crime a negociação espúria das divergências.

Desde a noite de quarta-feira, muitas de nós estamos entre chorar, ir às ruas, tentar pressionar os governos para que este crime tenha solução. Uma vez que não teremos mais a energia desta vereadora, desta mulher negra, de volta, o mais importante agora é ter claro que, não importa se somos de direita ou de esquerda, esta execução atinge a todos os brasileiros. E, no mundo, golpeia aqueles que ainda acreditam na democracia.