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Stephen Hawking. Morreu o cientista que vendeu mais de 25 milhões de livros

O físico britânico Stephen Hawking, o famoso autor de “Breve História do Tempo”, morreu esta quarta-feira, aos 76 anos. Em 2014 resolveu contar a sua própria história, na qual dizia que tinha realizado quase tudo o que queria na vida, apesar de estar imobilizado numa cadeira de rodas e de só falar através de um sintetizador de voz. Republicamos o artigo que publicámos na altura da publicação do livro, no qual contava as circunstâncias em que descobriu a doença, quando tinha 21 anos. "Um homem feliz" era o título do artigo

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Janeiro de 1963. Poucos dias depois de fazer 21 anos, Stephen Hawking vai ao hospital fazer exames, devido a várias quedas inexplicáveis e por se sentir cada vez mais desajeitado de movimentos. O diagnóstico dos médicos é chocante: o jovem tem uma doença neurológica incurável e degenerativa, a esclerose lateral amiotrófica, e de repente a sua carreira e a sua vida ficam em risco permanente.

Licenciado em Física em Oxford, mudara-se há três meses para a Universidade de Cambridge, onde começara a desenvolver trabalho de investigação nas áreas da cosmologia e da relatividade geral. Agora, tudo parecia estar em causa. "Sentia-me como se fosse uma personagem de tragédia", conta o cientista no seu último livro, "A Minha Breve História" (editado pela Gradiva).

A verdade é que antes de lhe diagnosticarem a grave doença, Stephen andava muito aborrecido com a vida e tinha a sensação de que não havia nada de interessante que valesse a pena fazer. A própria investigação não avançava, porque ele não tinha grandes bases matemáticas. Mas a notícia da esclerose abalou profundamente o seu estado de alma.

"Afinal de contas, se eu iria morrer de qualquer maneira, mais valia fazer alguma coisa boa", pensou ele. A princípio, teve dificuldade em concentrar-se no trabalho, porque achava que podia não viver o tempo suficiente para concluir o seu doutoramento. Depois, o estudo da cosmologia e da gravitação, "atoladas no mesmo ponto em que se encontravam nos anos 30", tornou-se para ele um desafio extremamente estimulante.

Enquanto na física de partículas os avanços científicos eram rápidos e atraíam muitas mentes brilhantes, que se "atropelavam umas às outras para se agarrarem à última ideia", a cosmologia e a gravitação eram domínios negligenciados, embora tivessem uma teoria bem definida: a teoria da relatividade. Ou seja, o caminho era difícil mas as oportunidades de descoberta eram grandes. "Apesar de ter uma nuvem suspensa sobre o meu futuro, percebi, para minha surpresa, que estava a apreciar a vida", recorda o físico teórico britânico no seu livro. E o que o ajudou definitivamente a mudar de atitude foi Jane Wilde, que conheceu na altura do diagnóstico da doença e com quem viria a casar em 1965. Jane deu-lhe, sem dúvida, "uma razão para viver".

É quase impossível de imaginar como um homem pode ser feliz com uma doença tão grave, que acabou por condená-lo a uma cadeira de rodas e a privá-lo de quase todos os movimentos. Mas Hawking é o homem e o cientista do impossível. "Quando tinha 21 anos e contraí a esclerose lateral amiotrófica, pensava que a minha vida estava acabada e que nunca iria realizar o potencial que sentia possuir", confessa. "Agora, 50 anos depois, estou muito satisfeito com a minha vida." Na verdade, os seus argumentos parecem imbatíveis. "Casei duas vezes e tive três filhos lindos e realizados. Obtive sucesso na minha carreira científica. A minha doença tem sido uma vantagem, porque não tive de dar palestras nem aulas nos cursos de licenciatura e também não tive de participar em comissões entediantes e consumidoras de tempo." Ou seja, Stephen pode dedicar-se "completamente à investigação", a sua grande paixão. E tem um grande orgulho no seu trabalho: "Para o público em geral tornei-me provavelmente o cientista mais famoso do mundo." O segredo para esta vida feliz é aparentemente simples. "As pessoas com deficiência devem-se concentrar em coisas que essa deficiência não as impeça de fazer e não devem lamentar aquilo que não podem fazer." Por isso, Hawking afirma que conseguiu realizar "a maioria das coisas que queria", que incluíram sete visitas à antiga União Soviética, seis visitas ao Japão, três à China, uma à Antártida e muitas outras viagens. Palestras no Grande Salão do Povo em Pequim e na Casa Branca. Encontros com presidentes dos maiores países do mundo e com dois Papas (Paulo VI e Bento XVI). Viagens ao fundo do mar, de balão e num voo de avião em gravidade zero. Enfim, tudo o que muitos prémios Nobel nunca conseguiram alcançar. Quando recebeu em 1974, em Roma, a Medalha Pio XI da Academia Pontifícia de Ciências, o Papa Paulo VI desceu do seu trono e ajoelhou-se para falar com ele, porque Hawking já se encontrava confinado a uma cadeira de rodas.

O físico britânico ganhou prémios importantes ao longo da sua carreira, foi durante 30 anos professor Lucasiano de Matemática - a cátedra ocupada por Isaac Newton (1642-1727) - na Universidade de Cambridge, o seu livro "Breve História do Tempo" (1988) vendeu mais de dez milhões de exemplares em todo o mundo. Mas nunca conquistou o Nobel da Física. Hoje, aos 72 anos de idade, explica no seu livro porquê: "Penso que a maioria dos físicos teóricos concordará que a minha previsão sobre a emissão quântica (radiação térmica conhecida por Radiação Hawking) dos buracos negros está correta, apesar de, até agora, não me ter garantido o prémio Nobel, pois é muito difícil verificar experimentalmente este facto." O próprio livro "A Minha Breve História" é também um exemplo da vantagem da sua doença. Incapaz de se mover, impedido de falar desde que fez uma traqueotomia em 1985, quando esteve quase a morrer com uma pneumonia, Hawking usa um programa de computador que lhe permite selecionar palavras de uma série de menus apresentados num ecrã montado na sua cadeira de rodas. O ecrã é controlado através de um pequeno sensor instalado nos seus óculos, que reage aos movimentos da face que ainda consegue fazer.

Depois de compor o que pretende dizer, o cientista envia-o para um sintetizador de voz, que processa até três palavras por minuto.

Utilizando este sistema, Stephen conseguiu escrever sete livros e vários artigos científicos, deu conferências para o público e para a comunidade académica.

Escrever um livro nestas condições obrigou o cientista a ser muito claro nas ideias, objetivo, simples, sintético, profundo. E a usar o seu imenso talento. Só assim se explica como conseguiu, num livro de bolso de pouco mais de 100 páginas, contar ao mesmo tempo, de forma cruzada, as histórias da sua vida, da sua carreira e da evolução da cosmologia nos últimos 50 anos.

Em "Breve História do Tempo", Stephen Hawking explorou os limites do nosso conhecimento da astrofísica, da natureza do tempo e do universo. Em "A Minha Breve História", ele conta como o seu trabalho de investigação inicial mostrou que a teoria da relatividade geral clássica não se aplicava à génese do Big Bang ou à dinâmica dos buracos negros. E como mais tarde provou que a teoria quântica pode prever o que acontece no princípio e no fim do tempo. "Tem sido uma época gloriosa para viver e fazer investigação em física teórica.

Fico feliz se tiver acrescentado alguma coisa ao nosso entendimento do universo."

"A MINHA BREVE HISTÓRIA", Stephen Hawking (Gradiva, 2014, trad. de Pedro Elói Duarte, revisão científica de Carlos Fiolhais), 116 págs., €12