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O despedimento de Tillerson, um “fraquinho” que Trump tem e o “trabalho gigantesco” que aí vem

Pompeo, à direita, tem melhores relações pessoais com Trump do que o exonerado Tillerson Fotos Jonathan Ernst e Aaron P. Bernstein/Reuters

Fotos Jonathan Ernst e Aaron P. Bernstein/Reuters

O secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, foi demitido pelo Presidente Donald Trump após meses de divergências. Para o seu lugar entra o diretor da CIA, Mike Pompeo, que deixa o seu lugar a Gina Haspel, primeira mulher nesse cargo. O especialista em política internacional Miguel Monjardino explica porque é que a demissão de Tillerson era esperada, e não só pela “falta de química” entre Trump e o seu ministro dos Estrangeiros, e antevê uma corrida contra o tempo para a realização da “cimeira do século”

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Se o calendário para organizar em maio uma cimeira entre os Estados Unidos da América e a Coreia do Norte era apertado, o tempo encurtou esta terça-feira com a substituição do chefe da diplomacia norte-americana, Rex Tillerson. Este responsável foi substituído por Mike Pompeo, até agora diretor da CIA, no cargo de secretário de Estado (equivalente a ministro dos Negócios Estrangeiros).

Após meses de desencontros numa relação pessoal que nunca foi boa, o Presidente dos Estados Unidos anunciou esta troca na rede social Twitter. Pompeo irá, assegura Trump, fazer “um trabalho fantástico”.

Para chefiar a agência de informações o chefe de Estado foi buscar uma veterana, Gina Haspel, que está na CIA há mais de 30 anos e será a primeira mulher no cargo. As nomeações terão de ser confirmadas pelo Senado americano.

Divergências incessantes

No pouco mais de um ano em que fez parte do Governo, Tillerson teve divergências públicas com o Presidente. A sua demissão já fora várias vezes antevista e terá sido decidida por Trump na passada sexta-feira, embora já houvesse planos desde novembro, escreve “The Washington Post”, para trocá-lo por Pompeo.

Trump nunca se deu bem com o homem que escolheu para chefiar a diplomacia

Trump nunca se deu bem com o homem que escolheu para chefiar a diplomacia

Foto Chris Keplonis/Getty Images

A mais recente discrepância entre o Presidente e Tillerson ficou patente esta segunda-feira, quando o agora ex-secretário de Estado apoiou as conclusões do Executivo britânico sobre o caso do espião russo Sergei Skripal, envenenado no Reino Unido. Depois de a primeira-ministra Theresa May ter considerado, esta segunda-feira, que a mão de Moscovo era “altamente provável” na tentativa de homicídio (que vitimou também a filha de Skripal, Yulia, hospitalizada com o pai, ambos em estado grave, na cidade inglesa de Salisbury), Tillerson exprimiu “plena confiança” nessa avaliação. No mesmo dia a porta-voz de Trump, Sarah Sanders, recusou-se repetidas vezes a atribuir responsabilidades a Moscovo.

O momento mais grave surgiu quando a NBC News afirmou que Tillerson chamara “idiota do c...” [fucking moron, no original] a Trump. O então secretário de Estado deu uma conferência de imprensa a reafirmar o seu apoio ao Presidente.

Tillerson também se distanciou da tolerância de Trump para com os supremacistas brancos (racistas) de Charlottesville, após incidentes no ano passado em que morreu uma mulher, e esteve contra a saída do país do Acordo de Paris sobre as alterações climáticas, decidido pelo Presidente.

Contrarrelógio coreano

Segundo o professor universitário e especialista em assuntos internacionais Miguel Monjardino, Pompeo terá um “trabalho gigantesco” pela frente para garantir o êxito da cimeira entre Trump e o líder norte-coreano, Kim Jong-un. A concretizar-se, será um feito histórico, pois nunca líderes dos dois países se encontraram.

O anúncio da semana passada indicava o mês de maio para o encontro. “É muito difícil, até pela escassez de especialistas em Coreia do Norte no Departamento de Estado”, afirma Monjardino, também colunista deste jornal. Tencionando agilizar a Administração e reduzir o seu peso, Trump deixou por nomear, desde que tomou posse, em janeiro de 2017, centenas de cargos do Departamento de Estado.

Pompeo está em sintonia com o Presidente nas críticas ao acordo sobre o programa nuclear de Teerão

Pompeo está em sintonia com o Presidente nas críticas ao acordo sobre o programa nuclear de Teerão

LEAH MILLIS/ reuters

Quando, na passada sexta-feira, o Presidente anunciou a sua disponibilidade para se encontrar com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, Tillerson estava em África e foi apanhado de surpresa. O Presidente indicara não ter fé nas negociações com Pyongyang, nomeadamente quando, no verão passado, Tillerson disse a jornalistas estar a tentar encetá-las. Esta terça-feira um porta-voz da Casa Branca explicou que Trump queria uma nova equipa para as conversações iminentes.

Mau agoiro para o acordo iraniano

“Há uma questão de temperamento e relação pessoal”, afirma ao Expresso o professor Miguel Monjardino, da Universidade Católica. “Nunca houve química entre Trump e Tillerson, como sucede, aliás, com o conselheiro de segurança nacional Herbert McMaster”.

Monjardino sublinha que o novo secretário de Estado tem opiniões muito diferentes das do cessante. “Pompeo é muito crítico, por exemplo, do acordo sobre o programa nuclear iraniano, enquanto Tillerson era a favor”, explica, referindo-se ao pacto alcançado em 2015 entre o Irão, de um lado, e, do outro, os Estados Unidos, a França, o Reino Unido, a China, a Rússia (membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas), a Alemanha e a União Europeia.

Para o especialista, o currículo militar de Pompeo terá seduzido Trump, que tem “um fraquinho por oficiais do exército”. O até agora homem forte da CIA terá causado boas impressões nas reuniões semanais com o Presidente, sempre à segunda-feira, na Casa Branca.

Antigo congressista do Partido Republicano e com formação militar em West Point, ex-aluno da Universidade de Harvard, Pompeo foi elogiado “por ambos os partidos [Democrata e Republicano]” enquanto diretor da CIA, lembrou Trump ao escolhê-lo. Um possível aspeto complicado entre os dois homens é o facto de Pompeo ter admitido a ingerência russa nas presidenciais de 2016, que o Presidente desmente. O FBI está a investigar as putativas ligações entre Moscovo e a campanha do milionário nova-iorquino.

Quanto a Tillerson, antigo executivo da petrolífera Exxon Mobil, vai somar-se à lista de baixas da atual Administração, onde figuram nomes como Michael Flynn (ex-conselheiro de segurança nacional), Reince Priebus (ex-chefe de gabinete), Stephen Bannon (ex-estratega-chefe), Sean Spicer (ex-porta-voz) e Tom Price (ex-secretário da Saúde).

Passado questionável de Gina Haspel

A nova diretora da CIA é uma veterana da agência. Louvada pela experiência, que a própria invocou ao aceitar o cargo, foi criticada pelo seu papel no programa de rapto e tortura de suspeitos de terrorismo, por vezes em prisões secretas, que a agência levava a cabo nos tempos de George W. Bush (2000-2008). O currículo não passou despercebido a Edward Snowden. “Incrível”, desabafou no Twitter o informático e ex-funcionário da CIA que está exilado na Rússia depois de ter denunciado, em 2013, os programas de vigilância global de Washington. Snowden também partilhou artigos de imprensa sobre as ações pretéritas da eleita de Trump.

No ano passado, só uma intervenção do Departamento de Justiça impediu que Haspel fosse chamada a depor em tribunal. Entre 2003 e 2005, a nova diretora da CIA chefiava o programa de interrogatórios com “métodos reforçados”. Foi acusada de colaboração na destruição de provas relativas ao inquérito a Abu Zubaydah e Abd al-Rahim al-Nashiri, suspeitos de terrorismo que foram torturados, este último na sua presença. Trump deu sinais, ao longo da campanha que o levou à Casa Branca, de que a tortura o não incomodava.