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May pede contas à Rússia por envenamento de espião em Inglaterra

LEON NEAL/GETTY

A primeira-ministra britânica exigiu informações a Vladimir Putin acerca do ataque com gás nervoso contra Sergei Skripal. Para Theresa May é “altamente provável” que Moscovo tenha responsabilidades, mas o Presidente russo já negou qualquer envolvimento. Um representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo falou em “circo” a propósito das suspeitas de Londres

Luís M. Faria

Jornalista

Novichok. É o nome do produto usado para envenenar o ex-agente russo Sergei Skripal em Salisbury (Reino Unido) há uma semana. A revelação foi feita pela primeira-ministra Theresa May esta segunda-feira à tarde na Câmara dos Comuns do Parlamento brtiânico. Falando após uma reunião especial de segurança sobre o assunto, May disse ser “altamente provável” que a Rússia estivesse por trás do ataque.

A governante conservadora exigiu ao Governo de Vladimir Putin que fornecesse, no prazo de um dia, explicações sobre esse tipo de gás de nervos para utilização militar. Segundo parece, a Rússia tem vindo a desenvolver a substância letal ao longo dos últimos anos.

A primeira-ministra teve o cuidado de admitir a hipótese de o Estado russo ter “perdido o controlo” do seu stock de gás letal, em vez de praticar “uma ação direta” num país alheio. Mas mesmo com esse mínimo de diplomacia, o seu pedido não deverá ter uma resposta favorável, a avaliar pela reação imediata do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, que, através de um porta-voz, considerou toda a questão um “circo”.

Também hoje o porta-voz de Putin já tinha rejeitado responsabilidades pessoais do chefe de Estado russo no assunto, e este último, horas antes, tinha dito a um jornalista que queria ver as provas antes de comentar. May deu até amanhã ao fim do dia para Moscovo se pronunciar, avisando que ausência de resposta convincente será vista como confirmação da suspeita.

Reedição do caso Litvinenko

Skripal, que foi agente duplo e tinha sido condenado por espionagem a favor do Ocidente na Rússia, saiu da prisão como parte de um grupo que foi trocado por espiões pró-russos (entre os quais a famosa Anna Chapman). Vivia desde 2010 no Reino Unido, sob proteção do Estado. No passado dia 4, foi encontrado num banco público em Salisbury, juntamente com a sua filha Yulia. Ambos se encontravam em estado crítico e o polícia Nick Bailey, que teve contacto com eles, também ficou gravemente doente, embora neste momento já fale com a sua família. Os Skripal estão em estado crítico no Hospital Distrital de Salisbury.

As suspeitas recaíram imediatamente sobre a Rússia, desde logo devido ao precedente do ex-agente secreto Alexander Litivinenko, falecido em 2006 após um agonia de semanas em Londres. Litvinenko, que há anos denunciava criminalidade e corrupção na Rússia de Putin, tinha sido envenenado com uma chávena de chá que continha polónio, produto extremamente raro que só certos estados têm condições de produzir. Antes de morrer, culpou abertamente Putin. Esta tarde, May citou este episódio no seu discurso ante os deputados.

“A profissão de traidor é das mais perigosas”

Ao longo dos anos seguintes, vários outros russos exilados no Reino Unido tiveram mortes misteriosas. Como para alimentar as suspeitas, há dias um apresentador da televisão russa, referindo-se a cidadãos do seu país que alegadamente se tornaram agentes duplos, avisou: “Não desejo a morte a ninguém, mas para fins puramente educacionais, tenho um aviso para quem sonha com tal carreira. A profissão de traidor é das mais perigosas do mundo". Acrescentou que stresse, depressão e vícios diversos (álcool, drogas) eram "as doenças profissionais de um traidor”.

“Talvez seja o clima. Não escolham a Grã-Bretanha como local para viver”, resumiu. O aviso não podia ser mais claro. E agora May respondeu revelando que o seu país já analisou o produto aplicado a Skripal e determinou que proveio mesmo da Rússia. “Caso não haja uma resposta credível”, disse, “concluiremos que esta ação representa um uso ilegal da força por parte do Estado russo contra o Reino Unido”. Nesse caso, promete voltar ao Parlamento para anunciar medidas de retaliação, que não especificou. O certo é que não haverá "business as usual" (relações normais) nessas circunstâncias.

“A Rússia tem currículo de assassínios patrocinados pelo Estado”, disse a primeira-ministra, recordando que o país de Putin “encara alguns dissidentes como alvos legítimos de assassínio”. O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, exigiu que o Governo russo explicasse à Organização para a Proibição das Armas Químicas o seu programa de produtos Novichok.

May recordou a “anexação ilegal da Crimeia”, em 2014, como “a primeira vez desde a II Guerra Mundial que uma nação soberana tomou território à força a outro país na Europa”. Acusou ainda o regime de Vladimir Putin de ter “fomentado conflitos no Donbass [leste da Ucrânia], violado repetidas vezes o espaço aéreo de vários países europeus e montado uma campanha continuada de ciberespionagem e perturbação, incluindo ingerência em eleições e pirataria digital contra o Ministério da Defesa dinamarquês e o Parlamento alemão”. E recordou as recentes exibições de mísseis em tom ameaçador pelo inquilino do Kremlin.

Entretanto, centenas de pessoas na zona de Salisbury foram aconselhadas a colocar num saco duplo a roupa que usavam por alturas do envenenamento de Skripal e a lavá-la. Só como precaução. O risco, garantem as autoridades, é pequeno para a generalidade dos residentes. Quanto a Skripal e Yulia, ambos continuam a lutar pela vida.