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Inventor da web diz que é preciso regular empresas tecnológicas para que a internet não se torne numa arma

Peter Macdiarmid / Getty Images

Para Tim Berners-Lee, a cada vez maior concentração de poder por um punhado de grandes multinacionais é perigosa porque faz com que sejam estas a “controlar que ideias são partilhadas” a nível global. “Quero que a internet reflita as nossas esperanças e preencha os nossos sonhos, em vez de ampliar os nossos medos e aprofundar as nossas divisões”, diz numa carta aberta que marca o 29.º aniversário da internet

O homem que inventou a World Wide Web (www) defende que as grandes empresas tecnológicas, como o Facebook e o Twitter, têm de ser sujeitas a uma maior regulação para impedir uma internet “armadilhada”, sob o argumento de que o crescente poderio destas empresas ameaça o livre pensamento e a variedade de ideias.

O pedido é apresentado numa carta aberta publicada por Tim Berners-Lee, esta semana, para marcar o 29.º aniversário da internet como a conhecemos. “Em anos recentes”, escreve Lee, “vimos teorias da conspiração ganharem força em plataformas de redes sociais, vimos contas falsas de Twitter e de Facebook serem criadas para alimentar tensões sociais, vimos atores externos a interferirem em eleições e criminosos a roubarem dados pessoais” de utilizadores — problemas que, na sua opinião, se devem à concentração de poder nas mãos de um punhado de plataformas que “controlam as ideias e as opiniões que são vistas e partilhadas” na internet.

“O que em tempos foi uma seleção rica de blogues e de sites foi comprimida pelo poderoso peso de umas quantas plataformas dominantes”, refere o cientista de computação britânico. Na mesma carta, Lee aponta ainda que as multinacionais têm dificultado a competição saudável no sector através da aquisição de empresas rivais mais pequenas, da compra de patentes sobre ideias inovadoras e da contratação das pessoas mais talentosas da indústria.

Os números comprovam-no: neste momento, 87% de todas as pesquisas online são feitas na Google e o Facebook tem mais de 2200 milhões de utilizadores ativos por mês, o que corresponde a mais de 20 vezes o total de pessoas que estavam a utilizar, por exemplo, o MySpace no seu pico de atividade. Juntos, a Google e o Facebook, incluindo as suas subsidiárias Instagram e YouTube, são responsáveis por mais de 60% das receitas publicitárias digitais a nível mundial.

Para Tim Berners-Lee, apesar de estas empresas terem noção dos problemas existentes e de estarem, em parte, a tentar resolvê-los — entre outras coisas, através da criação de sistemas automáticos de combate a notícias falsas e a exércitos de bots — elas também foram montadas com vista a “maximizar os lucros mais do que para maximizar o bem-estar social”, razão pela qual são necessárias mais regulações que balizem as suas operações.

“Um enquadramento legal ou regulatório que tenha em conta estes objetivos sociais pode ajudar a acabar com estas tensões”, defende o cientista de 62 anos, fazendo referência a “dois mitos” que “limitam a nossa imaginação coletiva” na busca de soluções para os problemas nascidos com a internet e que devem ser combatidos — “o mito de que a publicidade é o único modelo de negócio possível para as empresas online e o mito de que é demasiado tarde para mudar a forma como as plataformas operam”.

É preciso “mais criatividade” nestes dois pontos em particular, aponta o especialista. “Quero que a web reflita as nossas esperanças e preencha os nossos sonhos, em vez de ampliar os nossos medos e aprofundar as nossas divisões.”

A sua missiva coincide não só com o 29.º aniversário da internet mas também com um outro marco histórico, com 2018 a marcar a primeira vez que mais de metade da população mundial vai estar online. Isto torna ainda mais urgente que se acabe com a “divisão digital” que só tem servido para exacerbar desigualdades — note-se, por exemplo, que é mais provável mulheres pobres que vivem em zonas rurais ou em países em desenvolvimento estarem offline do que outras pessoas.

“Estar fora da rede, hoje, é ser excluído de oportunidades para aprender e para ganhar melhor, para aceder a serviços valiosos e para participar no debate democrático”, lembra Berners-Lee. “Se não investirmos seriamente no combate a esta lacuna, os últimos mil milhões de cidadãos do mundo só estarão na internet depois de 2042. Isso corresponde a uma geração inteira que será deixada para trás.”