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Homicídio de jornalista de investigação gera protestos em massa na Eslováquia

JOE KLAMAR / AFP / Getty Images

Dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas de Bratislava, este fim-de-semana, exigindo que o primeiro-ministro, Robert Fico, se demita após Ján Kuciak e a sua noiva terem sido assassinados no seguimento de uma investigação que expunha as ligações da classe política eslovaca à máfia italiana

Dezenas de milhares de eslovacos passaram os últimos dias a manifestar-se nas ruas da capital, Bratislava, exigindo a demissão do governo de Robert Fico, após o homicídio de um jornalista de investigação. O caso chocou o país da Europa central e galvanizou a população há muito descontente com o nível de corrupção que envolve as instituições estatais.

Ján Kuciak e a sua noiva, Martina Kušnírová, ambos com 27 anos, foram abatidos a tiro na sua casa perto da capital eslovaca, a 25 de fevereiro, com a polícia a assumir dias depois que o homicídio está “muito provavelmente” relacionado com uma investigação de Kuciak sobre as alegadas ligações de políticos de topo do seu país à máfia italiana, investigação essa que resultaria num artigo publicado já depois da sua morte.

O grande protesto contra o governo de Fico, que teve lugar em Bratislava, na sexta-feira, foi o maior a ter lugar no país desde a Revolução de Veludo que, em 1989, pôs fim ao comunismo na antiga Checoslováquia. Milhares de pessoas também marcharam noutras cidades do país, nessa noite, com grupos de algumas centenas de pessoas a mobilizarem-se em solidariedade com os eslovacos numa série de outras cidades europeias.

Em declarações ao correspondente do britânico “The Guardian” e a outros jornais, os organizadores do protesto disseram que a grande exigência é que a morte de Kuciak seja devidamente investigada por um “novo governo de confiança”. “Os políticos no poder pederam a nossa confiança”, disse Maria Kuliovska, uma manifestante de 30 anos, em licença de maternidade. “Nós não confiamos neles para que garantam uma investigação independente. Eles já falharam em investigações a escândalos anteriores.”

Homenagem ao jornalista e à sua noiva frente ao consolado eslovaco em Cracóvia, na Polónia

Homenagem ao jornalista e à sua noiva frente ao consolado eslovaco em Cracóvia, na Polónia

Beata Zawrzel / Getty Images

Apesar do crescimento económico registado na pequena nação de 5,4 milhões de habitantes desde a sua adesão à UE há 14 anos, o governo de Fico, que está no poder há dez, tem sido repetidamente acusado de nada fazer para acabar com a corrupção e o amiguismo que permeia quase toda a classe política e empresarial.

Na sexta-feira, cerca de 50 mil manifestantes reunidos no centro de Bratislava gritaram “Chega de Fico” e repetiram o protesto simbólico de abanar molhos de chaves no ar como aconteceu nos protestos anti-comunistas de 1989. O Presidente Andrej Kiska, rival político do primeiro-ministro, declarou que o país está a sofrer uma profunda crise de confiança e exigiu que a coligação no poder, composta por três partidos, seja reestruturada ou que, em vez disso, sejam convocadas eleições antecipadas.

Os protestos tiveram lugar depois de Fico, Kiska e o porta-voz do Parlamento, Andrej Danko — os três cargos de topo da hierarquia política eslovaca — não terem conseguido chegar a acordo para ajudar a dirimir as tensões. Depois de terem estado reunidos, Danko leu um pequeno comunicado ao lado do Presidente e do primeiro-ministro no qual dizia: “Queremos que a sociedade permaneça calma e em paz. Estamos a fazer o nosso melhor para que os eventos dos últimos dias não sejam explorados politicamente”.

Fico tem acusado “potências externas” de estarem a tentar destabilizar a Eslováquia, questionando publicamente encontros entre o Presidente e o milionário George Soros, que tiveram lugar em Nova Iorque, no ano passado, sem a presença de qualquer representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

O ataque a Soros ecoa os ataques que têm sido lançados pelo primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, contra o milionário de origem húngara, acusando-o de interferência na vida política do país, e também pelo governo de Israel.