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Internacional

Banco alimentar alemão volta a atender emigrantes

ROLAND WEIHRAUCH / AFP / Getty Images

A decisão de os excluir fora tomada há uns meses, devido à escassez dos recursos disponíveis, mas muitas foram as vozes a falar de racismo

Luís M. Faria

Jornalista

Um banco alimentar alemão que gerou polémica ao anunciar que ia deixar de atender estrangeiros resolveu inverter a decisão. O Essener Tafel, situado em Essen, tinha dito em janeiro que 75% das pessoas que o procuravam eram não-alemães. Explicando achar excessiva essa percentagem, os administradores do banco, que opera em vários locais da cidade, disseram que queriam restaurar um “equilíbrio” correto – até porque a presença dos estrangeiros impedia muitos idosos e outros alemães de terem acesso ao banco. Mas as críticas não se fizeram tardar.

“A exclusão de migrantes da Essener Tafel é inaceitável e racista”, disse uma deputada do partido Die Linke. “Não podemos aceitar que os pobres sejam lançados uns contra os outros. Há comida suficiente para toda a gente”. Outros políticos de esquerda exprimiram sentimentos semelhantes, e a própria chanceler Angela Merkel criticou o tipo de distinções entre pessoas que estava em jogo. Mas Jens Spahn, o já designado ministro da Saúde do próximo governo, defendeu a decisão do banco, explicando que muitos dos estrangeiros que lá iam eram “tão ousados e tão robustos que os idosos e os pais solteiros já não tinham oportunidade de receber comida”.

O sistema usado no Essener Tafel, como noutros bancos similares, assenta num cartão que é atribuído a uma família. Para o utilizarem, os eventuais beneficiários têm de estar registados na Segurança Social. Ao todo, umas seis mil pessoas recorrem ao banco, que distribui sobras de comida recolhida em supermercados. Um porta-voz do banco disse que às vezes era difícil vislumbrar um cidadão alemão entre os utilizadores. Mas o efeito imediato da exclusão dos estrangeiros, além das críticas públicas, foi a vandalização de seis carrinhas de distribuição de comida e o aparecimento de graffitis a chamar nazis aos responsáveis do banco.

O Essener Tafel diz que voltou a atender estrangeiros, porque o balanço entre eles e os alemães entretanto já está mais equilibrado. Mas continua a negar que a sua decisão original tivesse algo a ver com racismo – foi uma simples questão de gerir bem recursos limitados. É o mesmo argumento usado por outros bancos do mesmo tipo no país. Por exemplo, um que existe em Marl e que há duas semanas anunciou que a partir de agora só vai atender famílias e pensionistas, não homens solteiros – sejam estrangeiros ou alemães.

Entretanto, quem tenta conseguir dividendos políticos com o caso é a Alternativ für Deutschland (AfD), um partido de extrema-direita. Descrevendo os bancos alimentares como “o centro de uma guerra civil entre alemães, migrantes e invasores, que lutam miseravelmente por recursos”, o AfD criticou a alegada agressividade dos estrangeiros. “Quem teria imaginado que uns extra 75% de parasitas do asilo haviam de usar os cotovelos contra os mais fracos?”, escreveu o partido no Facebook.