Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Kim Jong-un convidou, Trump aceitou. Vem aí um encontro “milagroso”

JUNG YEON-JE

Presidente da Coreia do Sul anunciou esta sexta-feira que Donald Trump aceitou o convite do líder norte-coreano para discutirem pessoalmente a desnuclearização da Península Coreana. “Maior jogada política de risco do século XXI”, como está a ser classificada pelos analistas, pode ter lugar já em maio

Depois de um ano a trocarem ameaças de guerra e insultos, está marcado um encontro entre Kim Jong-un e Donald Trump, possivelmente já para maio, quando os dois líderes estarão reunidos ao vivo para debater os programas nuclear e de mísseis que Pyongyang tem estado a desenvolver.

Num anúncio extraordinário que apanhou o mundo de surpresa, o Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, declarou esta manhã que a "notícia chegou como um milagre" após uma delegação por si enviada a Pyongyang ter estado igualmente reunida com o Presidente norte-americano na Casa Branca.

"Se o Presidente Trump e o Presidente Kim se encontrarem após a cimeira intercoreana", declarou Moon esta sexta-feira de manhã, "será posta em marcha, o mais rápido possível, a desnuclearização da Península Coreana".

O avanço sem precedentes nas negociações com os norte-coreanos surgiu depois de uma delegação sul-coreana se ter encontrado com Kim na capital do Norte, no seguimento da reaproximação entre as duas Coreias iniciada antes dos Jogos Olímpicos de Inverno.

À saída da Casa Branca na quinta-feira, o conselheiro de segurança nacional do governo de Moon, Chung Eui-yong, explicou que transmitiu a Trump as garantias de que Kim está "comprometido com a desnuclearização" e que o seu regime não pretende "executar quaisquer testes nucleares nem de mísseis".

Isso terá bastado para que o Presidente norte-americano aceitasse o convite que lhe foi endereçado pelo homólogo norte-coreano, um encontro que Trump classificou como um "grande progresso", embora tenha sublinhado aos jornalistas que as sanções impostas à Coreia do Norte continuarão em vigor até que seja alcançado um acordo.

Num email enviado ao "Washington Post", o embaixador da Coreia do Norte na ONU, Pak Song Il, aplaudiu a "decisão corajosa" do seu líder, uma que vai garantir "a paz e a estabilidade na Península Coreana e em toda a região do Leste Asiático".

Chung Eui-yong e a restante delegação sul-coreana falam aos jornalistas nos jardins da Casa Branca

Chung Eui-yong e a restante delegação sul-coreana falam aos jornalistas nos jardins da Casa Branca

Chip Somodevilla

A Coreia do Norte está isolada há décadas no plano internacional por causa de abusos de Direitos Humanos extensamente documentados e das suas constantes tentativas em desenvolver um arsenal nuclear.

Nos últimos 12 anos, e desafiando as sanções que lhe foram sendo impostas, o país executou seis testes nucleares; o último deles, em 2017, veio acompanhado da garantia de que já desenvolveu mísseis balísticos intercontinentais com alcance suficiente para atingir qualquer parte da América continental.

Uma janela de oportunidade praticamente sem precedentes foi aberta no início deste ano, a começar pelo discurso de Ano Novo que Kim proferiu a 1 de janeiro, altura em que estendeu a mão ao Sul e sugeriu enviar uma delegação de atletas e representantes de alto nível à cidade sul-coreana de PyeongChang para que participassem nesta edição dos Olímpicos de Inverno.

Desde então, houve vários encontros de alto nível entre delegações dos dois países, que continuam tecnicamente em guerra após terem assinado um armistício mas não um acordo de paz no final da Guerra da Coreia, em 1953.

Esta semana, num dos momentos mais marcantes deste enredo, uma delegação sul-coreana foi recebida por Kim Jong-un em Pyongyang, com os representantes de Moon a trazerem de lá a garantia de que o regime está disposto a abandonar as suas aspirações nucleares caso sinta que não há motivos para manter ou desenvolver ainda mais esse arsenal.

Segundo Chung, Kim assegurou-lhe que está disposto a sentar-se à mesma mesa com Donald Trump, que está "comprometido com a desnuclearização", que vai manter todos os testes nucleares e de mísseis suspensos e que entende que os exercícios militares conjuntos entre os EUA e a Coreia do Sul na região "devem continuar".

Para já, ainda não se sabe o que é que Pyongyang pediu ou planeia pedir em troca destas cedências. O último ponto, relativo aos exercícios militares na região, é de particular importância, em parte porque os EUA têm dezenas de milhares de tropas estacionadas na Coreia do Sul desde o fim da Guerra da Coreia e também porque tem sido isso a servir de argumento a Pyongyang para aprimorar armas e mísseis. Para o país, os destacamentos de tropas e os exercícios dos EUA com Seul (os últimos dos quais adiados para depois dos Paralímpicos de Inverno) nada mais são que preparações para uma invasão do seu território.