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Alumínio/Aço. UE vai à luta para não pagar tarifas

ERIC VIDAL/REUTERS

Comissão Europeia começa a negociar já amanhã, mas mantém a ameaça de retaliação em cima da mesa. A Alemanha, o país europeu mais afetado pela medida, fala de "uma afronta"

Cecilia Malmstrom, Comissária Europeia para o Comércio, garantiu que a UE vai exigir uma exceção às novas tarifas dos Estados Unidos sobre as importações de aço (25%) e alumínio. A primeira reunião com o representante norte-americano para o Comércio, Robert Lighthizer será já amanhã, em Bruxelas, mas as negociações começam com a ameaça de retaliação em cima da mesa.

A tensão foi-se acumulando desde 1 de março, quando o presidente norte-americano anunciou novas tarifas sobre o aço e alumínio. Ontem, Donald Trump assinou os documentos que oficializam a entrada em vigor da medida protecionista dentro de 15 dias.

Estava rodeado de trabalhadores da indústria do aço americana e prometeu defender os seus postos de trabalho. Afirmou que o Canadá e o México ficavam "por agora" isentos, mas no futuro tudo depende da posição dos dois países no âmbito das negociações para um novo Acordo do Comércio Livre da América do Norte (NAFTA). Adiantou que os outros parceiros do EUA podem negociar isenções, um a um.

Malmstrom responde no Tweeter

Numa reação no Twitter, à semelhança do que Trump costuma fazer, Cecilia Malmstrom reafirmou que a UE continua a ser "um aliado próximo dos EUA" e continua a considerar que "deve ser excluída destas medidas". "Vou procurar clarificar o assunto nos próximos dias. Aguardo a reunião com o USTR Lighthizer em Bruxelas no sábado para discutir (o assunto)".

Num encontro em Bruxelas disse, também, que a Europa estava pronta a agir. "Temos de proteger a nossa indústria com medidas compensatórias", afirmou. Refutou mais uma vez a hipótese de a Europa ser uma ameaça à segurança nacional norte-americana, o principal argumento usado por de Donald Trump para impor estas tarifas.

Defendeu a hipótese de levar o caso à Organização Mundial do Comércio, com outros parceiros, por violação das normas. Deixou claro que a ameaça de retaliação é para ser levada a sério e, neste campo, a UE já tem uma lista de artigos importados dos EUA, avaliados em 2,8 mil milhões de euros, para taxar num possível contra-ataque.

"Temos tido conversações com os nossos amigos americanos para lhes explicar que também estamos preocupados com o excesso de capacidade de produção no sector do aço, mas esta (impor tarifas à importação) não é a forma correcta de lidar com o problema", acrescenta Malmstrom.

“Decisão de aplicar taxas tem de ser clarificada”

"Está claro que precisamos de um diálogo com os Estados Unidos", disse hoje o Vice-Presidente da Comissão Europeia para o Investimento e Competitividade. Jyrki Katainen considera que a decisão de Donald Trump de aplicar tarifas aduaneiras de 25% às importações de aço e de 10% às de alumínio tem ainda de ser "clarificada". E espera que a União Europeia (UE) venha a ter o mesmo tratamento que o Canadá e o México, ficando isenta da aplicação das tarifas.

"É também muito claro que estamos a olhar para a opção de sermos excluídos da aplicação de tarifas", afirmou Katainen aos jornalista. "Vamos continuar o nosso trabalho preparatório sobre potenciais medidas de resposta, na expectativa de que não seja necessário usá-las", disse ainda Jyrki Katainen, sublinhando que a UE "estará preparada" caso seja necessário.

Em cima da mesa está uma lista de produtos norte-americanos que a UE importa, e que poderão ser alvo de um agravamento de tarifas. A lista não está fechada e terá de ser aprovada pelos estados-membros, mas deverá abranger sectores como o do aço e do ferro, o vestuário ou produtos agrícolas. Mas essa não será a única resposta.

"Se o pior acontecer, estamos prontos para levar os Estados Unidos à Organização Mundial de Comércio", acrescentou Katainen. "E já estamos a discutir isto com outros aliados e parceiros para o fazermos em conjunto".

Numa conferência de imprensa em Bruxelas, o vice-presidente da Comissão avisou ainda que os Vinte e Oito terão de ser tratados como um bloco. "Não podemos aceitar que a UE seja dividida em várias categorias", disse, rebatendo ainda vários dos argumentos usados pelo presidente norte-americano para avançar com a aplicação da medida.

"As nossas empresas de aço e alumínio não têm feito dumping no mercado norte-americano e, por isso, isto não pode ser usado como desculpa para aumentar as tarifas", disse Katainen, lembrando que as regras em matéria de ajuda de estado na UE são muito rígidas e que "devem também ser uma garantia" ao olhos dos Estados Unidos. "Não há subsídios no setor do aço e do alumínio", garantiu ainda.

Quanto ao argumento relacionado com "a segurança nacional" usado por Trump, o finlandês responde que "deveria ser claro para todos que a Europa é o mais óbvio aliado dos Estados Unidos em termos de segurança e vice versa".

Alemanha une-se contra os EUA

Outra frente de oposição às novas taxas de Trump veio da Alemanha. É um dos maiores fornecedores de aço do país, integrando uma lista liderada pelo Canadá onde também aparecem o Brasil, o México, a Coreia do Sul, o Japão, a Rússia e a China. Tem 26% da produção europeia de aço e mais de 80 mil trabalhadores neste sector. Verá a sua economia afetada se as taxas avançarem.

Por isso, a ministra alemã da Economia, Brigitte Zypries, já denunciou "o protecionismo" de Trump. "É uma afronta aos parceiros próximos da União Europeia e da Alemanha e ao comércio livre", disse. "Trump está a barricar o seu país contra as opiniões do seu partido, de muitas empresas e de economistas", acrescenta a ministra num comunicado em que promete uma resposta "clara, equilibrada e coordenada com a Comissão Europeia".

As organizações de topo da indústria, comércio e trabalho da Alemanha também estão a unir-se contra "a espiral protecionista". Num comunicado conjunto, a DIHK , que representa as Câmaras de Comércio e Indústria, a BDA, que reúne as Associações de Empregadores (BDA), a BDI - Federação das Indústrias (BDI) e a ZDH, onde estão reunidas as associações das profissões especializadas, já manifestaram "preocupação com a decisão dos EUA imporem tarifas punitivas de longo alcance".

"Para evitar a espiral de protecionismo, a Alemanha e a União Europeia tem de continuar a defender o comércio livre", diz o grupo das 4 confederações num comunicado citado pela Agência Reuters.

No centro de um futuro conflito internacional à volta do aço, a China, com uma quota de 50% na produção mundial, mas com uma fatia de apenas 2% nas importações de aço dos EUA, também já ameaçou retaliar com tarifas sobre importações americanas, designadamente no sector agrícola, em alimentos como os rebentos de soja, de que os EUA são o grande produtor mundial.