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Quando o silêncio fala mais alto. Jornalistas espanholas em greve no Dia da Mulher

Mulheres iniciam a greve feminista, na Puerta del Sol, em Madrid, com uma "cacerolada" (bater em panelas). Mais de 7.700 jornalistas espanholas assinaram um manifesto de apoio à greve

JUANJO MARTIN / EPA

Quando os espanhóis ligaram, esta manhã, o seu rádio ou a sua televisão, não ouviram as habituais vozes femininas que apresentam os noticiários matutinos: as jornalistas espanholas trocaram os seus relatos informativos por palavras de ordem contra a desigualdade de género e juntaram-se àquela que é a primeira greve feminista da história em Espanha

"São seis da manhã, é 8 de março e hoje sou eu que os cumprimento porque a minha colega Pepa [Bueno] está em greve." Assim começava Aimar Bretos esta quinta-feira, Dia Internacional da Mulher, o programa "Hoy por Hoy" na rádio espanhola Cadena SER. Mas a apresentadora radiofónica não está sozinha. Pepa Bueno é só uma das mais de 7700 jornalistas e trabalhadoras de meios de comunicação social que apoiam aquela que tem sido considerada a primeira greve feminista em Espanha contra a desigualdade de género.

Com o mote de #LasPeriodistasParamos (#AsJornalistasParamos), as jornalistas espanholas juntam-se à greve geral de mulheres — laboral, de consumo e de tarefas domésticas — convocada em Espanha e noutros 41 países. Num manifesto assinado por mais de 7700 mulheres de várias áreas ligadas aos meios de comunicação, denuncia-se o machismo que as jornalistas ainda sofrem no setor e pede-se “a todas as companheiras que se juntem à mobilização”. mas sempre dentro das suas “possibilidades e circunstâncias”.

A greve já se tem feito sentir nas primeiras horas do dia, pelo menos na televisão a adesão: esta manhã a maioria dos programas informativos dos principais canais espanhóis era apresentada apenas por homens. Apenas um dos principais noticiários matutinos manteve a sua emissão habitual, no canal Antena3, mas, ainda assim, sem a presença da sua apresentadora.

Também esta manhã, Ana Rosa Quintana, apresentadora do programa matutino do canal TeleCinco, anunciava meia hora antes que não iria comparecer por motivo de greve: “Se as mulheres paramos, que se note.

Mas mais nomes se juntam a Pepa Bueno e Ana Rosa Quintana: Ana Pastor, Alba Lago, Maria José Sáez, Mamen Mendizábal, Ana Requena... e a lista continua.

Mesmo quem não tem possibilidades de participar na greve, por terem sido decretados serviços mínimos, tem apoiado a iniciativa por outras vias: é o caso das quase 70 jornalistas parlamentares, que saíram à escadaria do Congresso dos Deputados, em Madrid, vestidas de preto e com um laço lilás, cor que representa o movimento feminista, para mostrar o seu apoio à greve.

Assim começou o dia em Espanha, que deverá prolongar-se com manifestações por todo o país nas próximas horas. Muitas serão, neste Dia Internacional da Mulher, as jornalistas espanholas que escolhem sair das redações e dos estúdios para que o seu silêncio nos meios de comunicação grite bem alto: “as jornalistas paramos”.

Espanha vive a primeira greve feminista da história

Não são só as jornalistas que param, mas todas as espanholas que queiram juntar-se à greve neste Dia Internacional da Mulher: contra a violência de género, contra o fosso salarial entre homens e mulheres, contra o assédio e abuso sexual, contra a desigualdade que ainda nestes dias se vive. Os motivos não faltam.

Num país onde, só no ano passado, 49 mulheres morreram às mãos dos seus companheiros, vítimas de violência doméstica, 82% dos espanhóis dizem que há mais do que razões para esta greve se realizar, de acordo com uma sondagem do diário “El País”.

Várias foram, também, as políticas espanholas que se manifestaram a favor da iniciativa. “Como titulares de cargos públicos temos a responsabilidade de nos mobilizar por aquelas mulheres que não conseguem fazer greve”, disse Ada Colau, presidente da Câmara de Barcelona, revelando que também iria participar. A presidente da Câmara de Madrid, a independente Manuela Carmena, declarou que não iria ter agenda nesta quinta-feira, de modo a poder fazer greve.

Já no caso da vice-primeira-ministra, a conservadora Soraya Sáez de Santamaría, não está previsto que adira à greve, uma vez que irá participar num ato do Partido Popular Europeu esta quinta-feira. Mas a governante quis deixar claro, em declarações à Cadena SER, que “respeita” as iniciativas convocadas para hoje. Acrescentou que “ainda há que mudar muitas coisas, porque até as vice-primeiras-ministras experienciam alguns comportamentos machistas inaceitáveis”.

A greve laboral prevê uma paralização de 24 horas, mas só foi apoiada por sindicatos considerados minoritários, como a CNT (confederação de sindicatos autónomos anarco-sindicalistas). Já as principais centrais sindicais espanholas, Comissões Operárias (CCOO) e UGT, convocaram greves parciais de duas horas: das 11h30 à 13h30 e das 16h às 18h (menos uma hora em Portugal). Ambas as greves estão legalmente registadas.

A par da greve desta quinta-feira, estão previstas inúmeras manifestações em todos os pontos do país: em Madrid, por exemplo, as mulheres irão iniciar a marcha às 19h da estação de Atocha à Praça de Espanha. Já em Barcelona está previsto começar-se às 18h30 no Paseo de Gracia.

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