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Neste sítio onde se enterram os mortos vivem 50 sem-abrigo

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No cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo, vivem 50 sem-abrigo em barracas. Construíram casas de banho ao lado de ossários e o chão está cheio de dejetos humanos e vómito. Há animais em decomposição e o cheiro causa enjoos. Esta é a casa de homens, mulheres e idosos - as crianças não podem viver aqui

Soraia Pires

Soraia Pires

Jornalista

Naquele espaço há pragas de ratos e baratas. No chão existe vómito, dejetos humanos, restos de comida, roupa e animais mortos. Os insetos multiplicam-se quando a noite chega e o cheiro dos animais em decomposição causa enjoos. Naquele espaço, que é o cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo, vivem cerca de 50 sem-abrigo. As barracas que foram ali construídas são as casas deles há anos.

Estas pessoas vivem no meio de 21 mil sepulturas, parte delas encobertas por um matagal que atinge a altura da cintura de um adulto, conta uma reportagem da BBC Brasil. Uns metros depois da entrada do cemitério, estão lá as barracas, erguidas por bambus e tapadas por lonas, mobiladas com sofás, cadeiras, cordas para estender a roupa e flores artificiais. As casas de banho - construídas pelos moradores - ficam no meio de um paredão onde se colocam os ossos dos mortos. Quando chove, abrigam-se dentro dos túmulos para não se molharem.

Entre os sem-abrigo há homens, mulheres (uma delas com uma deficiência física que não foi clarificada), idosos e travestis. Os moradores afirmam que as crianças não podem viver ali porque o ambiente é demasiado mau e porque não querem que elas cresçam no meio da droga que eles consomem. Lúcio (nome fictício dado pela BBC Brasil), mora naquele sítio mas a filha de oito anos não. “As saudades são muitas mesmo”, disse.

Lúcio deixou a cidade de Belo Horizonte com a mulher e a filha para trabalhar como vendedor no centro de São Paulo. O negócio não correu como esperava, divorciou-se e a filha voltou com a mãe para a cidade de Minas. “Sem trabalho, não consegui pagar o aluguer da casa e fui morar com a minha mãe aqui perto. Não correu bem porque ela colocava demasiadas regras. Fui para a rua e tornei-me num vendedor ambulante. Vivo aqui há cinco meses”, disse, citado pela BBC Brasil.

Lúcio vive no cemitério há pouco tempo, mas Igor (nome fictício) por lá habita há 12 anos - é um dos moradores mais antigos. Confessou ao jornal que a primeira vez que fumou crack foi no final de 1993 e que, mesmo fumando com frequência, trabalhava na área da comunicação visual em várias empresas, além de ter sido tradutor e intérprete de japonês. Mas a droga mudou-lhe a vida: “Fui preso por tráfico de drogas, vandalismo, atropelamento e corrupção de menores. A minha família não quer saber mais de mim e agora só nos vemos em casamentos ou velórios”.

“Eles não nos ajudam”

Contactada pela BBC Brasil, a Câmara de São Paulo - que administra o cemitério - disse que sabe que existem casas dentro do cemitério e diz que já pediu a reintegração de posse à Justiça em 2016. “A pedido da Justiça, foi realizada audiência de conciliação em que os ocupantes do local concordaram em sair voluntariamente da área até janeiro de 2018, o que não foi cumprido. Já foi solicitada nova expedição de reintegração de posse”, informou a administração.

As poucas pessoas que visitam aquele cemitério veem os moradores a circularem por ali. Alguns deles tentam conseguir dinheiro em troca da limpeza dos túmulos. Mas são poucas as que se aproximam da região onde eles vivem. A Câmara de São Paulo é acusada pelos moradores de não querer saber das condições em que habitam: “Eles não nos ajudam, só vêm para derrubar as nossas casas”, dizem.

Após uma reforma que durou cinco anos, a capela do cemitério está fechada e serve também de abrigo para outros mendigos. A câmara de São Paulo informou a BBC Brasil que o local só é aberto “em datas especiais, como o Dia de Finados”. A administração do cemitério disse ainda que há três salas de velório, mas não explicou por que motivo também estão fechadas.