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Internacional

Rússia acusada de usar bombas menos evoluídas para encobrir crimes de guerra

MOHAMMED EYAD

Acusação é feita pela ONU

Soraia Pires

Soraia Pires

Jornalista

A Rússia tem utilizado armas menos evoluídas nos bombardeamentos que tem realizado na Síria, acusam fontes da ONU ao jornal britânico “The Guardian”. O objetivo é evitar responsabilidade por possíveis crimes de guerra e morte de civis, passando-a para o governo sírio.

A queixa de que estas táticas tenham como objetivo tornar as investigações de crimes de guerra difíceis nunca tinha sido feita antes. “Parece-nos que se esforçam para utilizarem armamento muito semelhante ao do regime sírio”, disse fonte da ONU, citada pelo “The Guardian”. “Suspeito que a Rússia queira utilizar o armamento menos sofisticado para tornar a atribuição de culpas mais complicada”, acrescentou.

Estas alegações aumentam mais as dúvidas sobre a intervenção daquele país nos bombardeamentos na Síria, que começou em setembro de 2015 com o intuito de apoiar o governo de Bashar al-Assad. A Rússia já tinha sido acusada por especialistas em armamento de utilizar munições imprecisas mas estas acusações focavam-se no facto de tais armas serem mais baratas do que mísseis de grande precisão. Uma fonte, citada pelo “The Guardian”, disse que aquelas armas têm sido usadas para criar pânico e aterrorizar os civis para que os grupos rebeldes sejam pressionados a renderem-se.

Ações que podem ser consideradas crimes de guerra

Estas acusações surgem no mesmo dia em que um relatório da Comissão de Inquérito da ONU sobre a guerra na Síria acusa a Rússia e a coligação internacional liderada pelos Estados Unidos de matar centenas de civis o ano passado. Os investigadores independentes responsáveis pelo documento notam que o inquérito foi realizado com base em 500 entrevistas confidenciais a vítimas e testemunhas através das redes sociais.

O relatório acusa um avião russo que atingiu um mercado em Atareb no passado dia 13 de novembro. Os bombardeamentos destruíram uma área de cinco mil metros quadrados e mataram pelo menos 84 pessoas. Na altura do ataque, a Rússia negou ter lançado bombas nesse espaço, mas interseções feitas via rádio identificaram que pilotos daquele país descolaram da base aérea de Khmeimim - a principal das forças russas que atacam a Síria - uma hora e meia antes do ataque.

Anadolu Agency/GETTY

Os investigadores da ONU não têm provas que indiquem que o ataque tenha sido deliberado e com o objetivo de matar civis, mas afirmam que esta ação pode ser considerada um crime de guerra por fazerem ataques indiscriminados que resultaram na morte de civis. O relatório indica que não encontrou provas sobre a presença de militantes do Daesh nessa zona aquando dos bombardeamentos e que a coligação internacional violou a lei internacional ao não ter protegido a população civil.

O relatório, que focou-se no período de tempo entre julho do ano passado e janeiro deste ano, também indica que uma das soluções para os civis terem a justiça que tanto querem passa por denunciarem possíveis crimes de guerra em jurisdições nacionais e internacionais no futuro.

Desta forma, os autores do relatório dizem que não têm condições para irem mais longe na investigação e apelam a que a Rússia e os EUA conduzam as suas próprias investigações às situações relatadas. Paulo Pinheiro, preisdente da Comissão que redigiu o documento, disse que estas conclusões chegam num momento escuro para o conflito que assola a Síria desde 2011.

Num anexo ao documento, os investigadores dão também algumas informações sobre a ofensiva governamental em curso contra o enclave rebelde de Ghouta oriental, lançada a 18 de fevereiro. Referem que o ataque à região tem sido marcado por prováveis crimes de guerra, que incluem “o uso de armas proibidas, o ataque contra civis, a fome como estratégia de guerra (...) e a habitual recusa de retirada de doentes”.