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O resgate é muito e o pagamento é em bitcoins

Chesnot/ Getty Images

Um jovem que dava conferências sobre empreendedorismo seria o líder de um grupo que raptou uma advogada mexicana, exigindo o pagamento do resgate em moeda virtual - uma prática cada vez mais frequente

Luís M. Faria

Jornalista

O ano passado já tinham sido publicitados casos em vários países, desde o Brasil à Índia e à Ucrânia. Agora surge uma notícia do mesmo tipo no México, que não deve ser a única num país onde o crime em questão há muito se tornou uma pequena indústria.

Como outras atividades ilícitas, o sequestro envolve pagamentos, e não raro é através dos fluxos de dinheiro que se apanham os criminosos. Ora as moedas virtuais têm a vantagem de não requererem uma entrega física nem passarem pelos circuitos bancários, mantendo o anonimato dos seus utilizadores. Assim, não surpreende que sequestradores em vários países tenham começado a exigir pagamento em bitcoins.

O caso agora noticiado aconteceu no México. Uma advogada de 33 anos chamada Thania Medina foi raptada em pleno dia por homens armados na cidade de Chihuahua. O resgate exigido, cujo montante ainda se desconhece, devia ser pago em bitcoins. Não chegou a ser pago, pois a polícia conseguiu descobrir o gangue e libertar a sua vítima antes disso.

Os cinco homens agora presos eram liderados por Germán Abraham Loera Acosta, um jovem de 23 anos que tinha uma empresa de marketing e software e mantinha um canal no YouTube (GermanLoeraMX) onde punha vídeos nos quais ele próprio aparecia a dar lições de empreendorismo.

Bill Gates avisa

A particular forma de empresa que agora levou Loera à cadeia é cada vez mais frequente. Tão frequente que foi um dos riscos da Bitcoin destacados por Bill Gates na semana passada, a par com o tráfico de droga, o terrorismo e a lavagem de dinheiro. Gates falava durante uma sessão pública online no Reddit, uma rede social.

Embora não tenha referido casos concretos de sequestro, eles não faltam. Existem pelo menos desde 2015, quando um bilionário tailandês passou 38 dias preso, por obra de um gangue especializado em raptos. O resgate exigido equivalia a mais de 7 milhões de euros, em bitcoins; os sequestradores acabaram por se satisfazer com 1,35 milhões, não sem antes terem espancado brutalmente a vitima, a quem também queimaram a cara com cigarros.

O ano passado, outro empresário foi raptado na Índia, e os raptores queriam o equivalente a 177 mil euros, em bitcoin. Aí o chefe do gangue era um jovem informático, tal como Loera. Ele e os outros cinco alegados criminosos foram presos. O mesmo aconteceu no caso de uma mulher raptada raptada o ano passado em São Paulo, no Brasil, após um período de negociações entre os raptores e o marido da vítima, que tentou convencê-los de que era difícil arranjar no país o volume de bitcoins que eles pediam.

Outros resgates

Curiosamente, a atividade profissional do marido envolve justamente negociar bitcoins. Uma ironia que se repetiu no caso de Pavel Lerner, um ucraniano que era CEO da Exmo Finance, uma bolsa de bitcoins registada no Reino Unido. Especialista no sistema blockchain, que subjaz à bitcoins e outras moedas virtuais, Lerner foi raptado o ano passado quando deixava os escritórios da sua empresa em Kiev. Só terá sido libertado depois de pagar 800 mil euros em bitcoins, e encontrava-se demasiado abalado para falar sobre a experiência.

Também a máfia italiana estará a usar bitcoins para lavar dinheiro, entre outros possíveis fins. E essa moeda é igualmente usada noutro tipo resgates. Por exemplo, aqueles que se pagam quando os computadores de uma empresa ou outra entidade são vítimas de ataques informáticos que tornam inutilizáveis os seus ficheiros.

O ano passado, um grupo de hackers de origem norte-coreana lançaram um ataque desse tipo a empresas em vários países e ao Serviço Nacional de Saúde britânico. Conseguiram um total de 112 mil euros em resgates, mas demoraram dois meses até utilizar o dinheiro.

O grupo alegadamente envolvido estará identificado, mas ninguém foi preso. Na maioria dos outros casos, porém, isso aconteceu. Convém notar que a tecnologia da bitcoin pode não ser tão absolutamente anónima como se pensa. E de qualquer modo há mais formas de apanhar criminosos.