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Estação Espacial chinesa vai colidir com a Terra “dentro de semanas”

STR

Uma das zonas previstas de impacto é o norte de Espanha, embora “a probabilidade de uma pessoa específica ser atingida por destroços da Tiangong-1 seja um milhão de vezes mais reduzida do que as probabilidades de se ganhar a lotaria”

A primeira estação que a China enviou para explorar o Espaço vai despenhar-se contra a Terra dentro de poucas semanas e os cientistas ainda não sabem em que zona do planeta é que o módulo de 8,5 toneladas vai cair.

Segundo a Aerospace Corporation, um instituto sem fins lucrativos financiado pelos EUA para fiscalizar atividades espaciais, a Tiangong-1 vai reentrar na atmosfera mais ou menos durante as duas primeiras semanas de abril, com a Agência Espacial Europeia a prever a queda do módulo entre 24 de março e 19 de abril.

Em setembro de 2016, quando a China admitiu que tinha perdido o controlo da sua primeira estação espacial e que não ia conseguir controlar a reentrada desta na atmosfera, as primeiras previsões davam conta de que o módulo deveria atingir a Terra durante a segunda metade de 2017.

No comunicado enviado pela Aerospace ao “Guardian” é sublinhada “a possibilidade de uma pequena quantidade de destroços” do módulo sobreviver à reentrada sem controlo e atingir o nosso planeta, “numa região com algumas centenas de quilómetros de tamanho”. Também segundo essa organização privada, a estação espacial deverá transportar a bordo um combustível altamente tóxico e corrosivo chamado hidrazina.

A acompanhar o relatório da Aerospace está um mapa a mostrar as potenciais zonas de impacto durante a queda descontrolada do módulo, entre as quais se contam o norte da China, o Médio Oriente, o centro de Itália ou o norte de Espanha, a par da Nova Zelândia, Tasmânia, algumas partes da América do Sul e o sul de África.

São zonas muito díspares entre si, o que leva a Aerospace a insistir na possibilidade muito reduzida de os destroços atingirem uma ou mais pessoas que vivam numa das áreas em questão.

“Considerando as localizações deste pior cenário possível, a probabilidade de uma pessoa específica (isto é, você) ser atingida por destroços da Tiangong-1 é cerca de um milhão de vezes mais reduzida do que as probabilidades de ganhar a lotaria”, aponta a instituição. “Na História dos voos espaciais não se tem conhecimento de qualquer pessoa que algum dia tenha ficado ferida na sequência da reentrada de detritos espaciais [na nossa atmosfera]. Até hoje só houve registo de uma pessoa atingida por um desses detritos e, felizmente, não ficou ferida.”

Contactado pelo “Guardian”, um astrofísico da Universidade de Harvard e entusiasta da indústria espacial também é cauteloso nas suas previsões sobre a reentrada da Tiangong-1 e o seu provável impacto na Terra — até porque, segundo Jonathan McDowell, em janeiro houve fragmentos com tamanho semelhante ao do foguetão chinês que caíram no Peru. “A cada par de anos alguma coisa assim acontece.”

Ainda assim, o cientista assume que “a Tiangong-1 é grande e densa e [que] portanto é preciso manter isto debaixo de olho” — sobretudo considerando que a trajetória descendente da Tiangong-1 tem estado a aumentar de velocidade nos útimos meses, tendo passado de uma queda a 1,5 quilómetros por semana em outubro para os 6 quilómetros/semana registados no último mês.

Por causa disto e também por causa das constantes alterações “meteorológicas” no Espaço, é difícil antever onde é que o módulo chinês poderá cair. “Só na semana final [do percurso descendente], mais ou menos, é que vamos conseguir começar a falar sobre isto com maior confiança”, refere McDowell. “Diria que uns quantos pedaços vão sobreviver à reentrada mas só saberemos onde é que vão cair depois dessa reentrada.”

A Tiangong-1 foi lançada em 2011 por Pequim, com analistas dentro e fora do país a descreverem-na como um “símbolo político potente” da China moderna numa altura em que está cada vez mais investida em tornar-se uma superpotência espacial. Em 2012, foi visitada pela primeira mulher astronauta da China, Liu Yang; antes e depois disso, foi alvo de uma série de missões com e sem tripulação.

Um caso semelhante ao que agora se antevê com a Tiangong-1 teve lugar em 1991, quando a Salyut 7, estação espacial da União Soviética com 20 toneladas, se despenhou contra a Terra, na altura ainda com a nave Cosmos 1686 acoplada a ela. Os destroços caíram sobre a Argentina, atingindo em particular uma pequena localidade chamada Capitán Bermúdez.

Antes disso, em 1979, uma estação espacial da NASA com 77 toneladas, a Skylab, já tinha entrado numa rota descendente descontrolada em direção à Terra, com algumas partes da nave a caírem nos arredores de Perth, no oeste da Austrália.