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Centro-esquerda não estará no próximo governo italiano

ANDREAS SOLARO/GETTY IMAGES

Matteo Renzi abandona a liderança do Partido Democrático rejeitando entendimentos com os “antissistema” Liga do Norte e Movimento Cinco Estrelas

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

“Se somos corruptos e temos as mãos sujas de sangue, façam um governo sem nós. O nosso lugar nesta legislatura é na oposição.” Foi com referências às duras acusações de que o seu partido foi alvo durante a campanha eleitoral que Matteo Renzi, ex-primeiro-ministro italiano e líder do Partido Democrático (PD, centro-esquerda, no poder desde 2013), anunciou a passagem desta força política à oposição, na sequência dos maus resultados nas legislativas de ontem.

Nesta “página nova” que as eleições exigem, Renzi já não estará à frente do PD. O ainda líder anunciou um congresso para eleger o seu substituto, que deverá ser “não um regente escolhido nos gabinetes, mas um secretário eleito em primárias”. Como ele próprio, em 2013 e 2017. Sobre os cinco anos de poder do PD, quatro deles com Renzi ao leme, disse sentir orgulho.

O PD foi a segunda formação mais votada, com cerca de 19% dos votos (a soma do bloco do centro-esquerda ficou abaixo dos 23%), quando há cinco anos obtivera 30%. Renzi diz que o partido não se aliará com o Movimento Cinco Estrelas (M5S, indignados, 33%) e a Liga do Norte (LN, 17%, a maior força do bloco de centro-direita, que atingiu no conjunto 37%, somando os 14% da Força Itália de Silvio Berlusconi e os votos dos pequenos partidos de direita seus aliados). “Não mudámos de opinião e sempre dissemos não a um governo com os extremistas e não a um governo dos extremistas.”

Três pecados capitais

São três os pecados que aponta aos líderes do M5S (Luigi di Maio) e da LN (Matteo Salvini), que já reivindicaram, um e outro, o lugar de primeiro-ministro: antieuropeísmo, discurso antipolítica e uso do ódio verbal. Quanto à situação política gerada pela votação de ontem, lembra que “quem ganhou as eleições não tem os números para governar” e, “se for intelectualmente honesto, reconhecerá isso”.

Di Maio festejou o “facto histórico” da vitória do M5S, formado há nove anos pelo comediante Beppe Grillo. Afirmando o seu partido “vencedor absoluto” (acrescentou 7 pontos percentuais aos 26% obtidos em 2013), declarou estar disposto a falar com todas as forças políticas e augurou o nascimento da “terceira República italiana”.

Salvini também se acha no direito de governar, dado que o centro-direita foi o bloco com mais sufrágios e a sua LN foi, neste campo, a força individualmente mais votada. “O mandato pertence-nos”, disse Berlusconi, cuja FI teve um resultado dececionante, que não o impede de ser decisivo. O próximo passo caberá ao Presidente da República, Sergio Mattarella.

Renzi ficará no Parlamento, como senador por Florença, cidade de que também já foi autarca. Líder do PD e do Governo desde 2014, ano em que defenestrou o então primeiro-ministro e companheiro de partido Enrico Letta. Jovem e dinâmico, tentou aliar as ideias de esquerda à simpatia pelo mercado, adotando uma atitude pragmática e sempre europeísta. Renzi demitiu-se em dezembro de 2016, depois de a sua proposta de revisão constitucional ter sido rejeitada em referendo. Em setembro último voltou à liderança do partido. Até hoje.