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Aspirante a presidente da Catalunha está atrás das grades

Jordi Sànchez (à direita), líder da Assembleia Nacional Catalã, foi preso ao mesmo tempo que Jordi Cuixart, presidente da associação separatista Òmnium Cultural

Getty Images

Presidente do parlamento regional propõe Jordi Sànchez, que está em prisão preventiva e não tem apoios suficientes para ser empossado

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Se a Catalunha tinha o problema de o principal candidato a chefiar o seu governo regional estar autoexilado na Bélgica, passa agora a ter um aspirante com paradeiro mais certo e próximo, mas que está em prisão preventiva. O presidente do parlamento catalão, Roger Torrent, propôs esta segunda-feira Jordi Sànchez como novo chefe do executivo autonómico.

Pendem sobre este homem de 53 anos acusações de rebelião, sedição e peculato, relacionadas com o referendo de 1 autodeterminação de 1 de outubro de 2017 e a subsequente declaração unilateral de independência. Foi detido a 15 de outubro, antes mesmo da aplicação do artigo 155 da Constituição espanhola, que suspendeu a autonomia regional no dia 27 do mesmo mês.

Líder da Assembleia Nacional Catalã (associação cívica separatista) e eleito deputado na lista Juntos pela Catalunha — JxC, do presidente deposto Carles Puigdemont — nas eleições do passado 21 de dezembro, Sànchez é politólogo e professor universitário. Altamente popular, ao que não será alheia a sua polémica prisão (afinal, sempre agiu de forma pacífica e rejeitou a violência), há dois obstáculos entre ele e o Palácio da Generalitat (sede do executivo regional): tem 64 deputados a seu favor quando precisava de 65; e precisa de autorização do Supremo Tribunal espanhol para assistir à sessão de investidura, já que a lei dita que esta seja presencial.

Torrent justifica a escolha de Sànchez, após ronda de conversações com os partidos, por este ser o aspirante com mais apoios. Ainda assim, fica aquém do que precisava. A maioria absoluta consegue-se com 68 deputados. O conjunto das forças independentistas — JxC, Esquerda Republicana (ERC, de Torrent e do ex-vice-presidente Oriol Junqueras, também deputado, preso e dependente de autorização judicial para se deslocar a Barcelona) e Candidatura de Unidade Popular (CUP, esquerda antissistema) — tem 70 assentos, mas dois dos respetivos ocupantes (Puigdemont e o ex-ministro regional Toni Comín) estão na Bélgica, pelo que não votam. Outros foragidos renunciaram ao parlamento regional, mas estes não.

Sànchez conta, assim, com o respaldo convicto do JxC e relutante da ERC. Os quatro deputados da CUP anunciaram que se absterão, pois Sànchez moderou posições e afirmou mesmo que a declaração de independência fora simbólica. Para os antissistema, não há opção senão desobedecer a Madrid e proclamar a República. Coisa que nem JxC nem ERC desejam, receando mais ação judicial e prisões. Certo pragmatismo parece ter tomado as forças separatistas, à exceção dos radicais da CUP.

Dois meses para resolver o imbróglio

O presidente do órgão legislativo não indicou uma data para o debate de investidura de Sànchez. Esta será relevante, porque o candidato tem de pedir licença de saída ao juiz Pablo Llarena, que instrui o caso no Supremo (a lei não o impede de ser presidente, dado que ao não ter sido julgado nem condenado mantém todos os direitos cívicos e políticos), e porque a sessão marca também o início do prazo de dois meses para empossar um executivo (findo o qual, à míngua de investidura, serão convocadas novas eleições). ERC e JxC querem alguns dias para tentar seduzir a CUP para o projeto de fazer do recluso Sànchez o 131.º presidente da Catalunha.

Frontalmente contra esta candidatura estão, ainda que sem apresentar alternativa, as forças ditas constitucionalistas: Cidadãos (centro-direita, partido mais votado em dezembro), Partido dos Socialistas Catalães (ramo regional do PSOE) e Partido Popular (do primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy).

A lista Catalunha em Comum, aliada do movimento de esquerda Podemos, também votará contra, pois não considera que Sànchez possa, atrás das grades, encabeçar um “governo efetivo”. Esta fação é contra as prisões preventivas e a aplicação do artigo 155 e a favor de um referendo pactuado com Madrid, mas também contra a independência da Catalunha. As forças não-separatistas querem, acima de tudo, desbloquear a situação e devolver um governo real aos 7,5 milhões de catalães.

Foi Puigdemont quem propôs o nome de Jordi Sànchez para lhe suceder. Longe, contudo, de se retirar da política, o homem que Rajoy destituiu em outubro pretende liderar uma espécie de governo no exílio, a que chamaria Conselho da República, com sede em Waterloo.