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Expresso

Internacional

Governo de todos ou de ninguém

Se a oferta eleitoral 
é vasta, menos claras 
são as hipóteses 
de coligação maioritária 


FOTO MAX ROSSI/REUTERS

Itália. Vota-se este domingo e o bloco favorito é o do incombustível Berlusconi, mas a ascensão dos eurocéticos preocupa Berlim e Paris

Os principais países da União Europeia (UE) têm os olhos postos, este domingo, não só na Alemanha, devido ao referendo decisivo entre os sociais-democratas (SPD) sobre uma possível aliança com a União Democrata-Cristã (CDU) de Angela Merkel, mas também em Itália, onde mais de 50 milhões de cidadãos votarão para renovar o Parlamento. Na UE e em numerosas chancelarias há preocupação não só com a situação económica do país — que é a quinta potência económica dos 28 e tem a dívida mais alta (131%) a seguir à Grécia — mas também com o êxito dos partidos antieuropeístas e populistas que tentam influenciar o voto através do medo da “invasão migratória” e da violência dos ultras.

O desfecho da noite de amanhã num país e noutro poderá constituir uma bomba de efeito retardado, num cocktail que deitaria a perder os projetos da chanceler alemã, Angela Merkel, e do Presidente francês, Emmanuel Macron, de associar a Itália ao projeto de relançar uma Europa a duas velocidades para avançar mais depressa para uma união mais forte.

Será preciso esperar até final de abril ou até maio, contudo, para que Roma tenha novo Governo. Isso deve-se, em parte, ao longo procedimento a seguir depois de um ato eleitoral, mas sobretudo à incerteza dos resultados. A arrevesada lei eleitoral, que se aplica pela primeira vez, pode dar uma maioria de votos a um único partido, mas também a uma coligação, ao mesmo tempo que atribui a maioria dos assentos parlamentares (que é, afinal, o que conta) a outra força política.

O Presidente da República, Sergio Mattarella, fez saber repetidas vezes que seguirá os ditames da Constituição: o próximo Executivo será dirigido por quem alcançar uma maioria no Parlamento. Pode parecer óbvio, mas não é. E seguramente não será fácil. Por estes motivos, os analistas políticos preveem três cenários possíveis: “um governo de alguns”, “um governo de ninguém” e “um governo de todos”. Não se trata de um jogo de palavras.

Inédito governo-sombra

No primeiro caso, quem tiver obtido mais votos, mas não um número de assentos suficiente, será convidado a tentar formar uma aliança maioritária. É provável que o partido mais votado, em termos individuais, seja o Movimento Cinco Estrelas (M5S, indignados). É tal a sua pressa em vencer as legislativas que anteontem apresentaram em público a lista dos ministros: 17 ao todo, incluindo três mulheres em pastas de primeiro plano: Negócios Estrangeiros, Interior e Defesa. “Surreal”, reagiu o primeiro-ministro, Paolo Gentiloni (do Partido Democrata, de centro-esquerda), frisando que nunca se viu, no país, um partido “apresentar o seu governo-sombra antes das eleições”.

Com o “governo de ninguém”, o chefe de Estado confiaria a formação do Governo a um político independente, votado pela mesma ampla maioria que os presidentes do Parlamento, para tentar formar governo sem estar vinculado estritamente aos resultados eleitorais.

O “governo de todos” seria uma coligação de partidos que apoiasse um Executivo com três objetivos: administração corrente aprovação de orçamento para 2019 e, acima de tudo, mudança da lei eleitoral, para que passe a propiciar resultados mais evidentes e imediatos. Sucede, porém, que Silvio Berlusconi (da Força Itália, direita) já declarou solenemente que não se aliará com nenhum partido. O mesmo disseram Matteo Renzi (líder do PD) e Pietro Grasso, dos Livres e Iguais (LeU, formação criada por dissidentes do PD).

Amizades pouco recomendáveis

Existem muitas pressões sobre Berlusconi para abandonar a aliança com Matteo Salvini, líder da xenófoba e eurocética Liga, ficando com as mãos livres para eventuais futuros pactos com os demais partidos, todos europeístas. Tão pouco é favorável a Berlusconi a associação aos Irmãos de Itália (FdI, nacionalistas), liderada por Giorgia Meloni, que esta semana visitou o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán. Este tem inquietado a UE com as suas leis e muros contra as migrações, a censura à informação e a defesa da identidade cristã da Europa. “Partilhamos com Orbán muitos pontos de vista para trabalhar em conjuntos nos próximos meses”, comentou Meloni após a visita. “É uma situação dificílima”, comenta Luciano Fontana, diretor do jornal “Corriere della Sera”.

A situação ficará mais clara a partir de 23 de março, data da abertura do Parlamento. A partir desse dia, após a formação das bancadas parlamentares, os deputados deverão eleger os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, o que constituirá um primeiro indício das maiorias possíveis para formar o próximo Executivo.

As últimas sondagens oficiais antes da proibição legal (17 de fevereiro) atribuíam ao bloco conservador, patrocinado por Berlusconi, 34,3% dos votos; 28,4% à coligação progressista; e 27,8% ao M5S, que concorre sem aliados. Hoje estudos de opinião oficiais mas que não podem ser publicados em Itália anteveem 35% para os conservadores, 25% para os progressistas e menos de 27,8% para os indignados. Nenhuma força atingiria os 40% que permitem governar.

  • Pão e circo nas eleições em Itália

    A campanha para as legislativas que se disputam este domingo em Itália foi dominada pela economia e pela imigração. Um ex-candidato da Liga Norte baleou seis requerentes de asilo. Berlusconi, cujo partido, Força Itália, está coligado com a extrema-direita, voltou à ribalta e poderá ter uma palavra a dizer sobre quem será o próximo primeiro-ministro. Um candidato regional do seu partido fez campanha sentado numa sanita. E uma candidata do partido populista M5S dá o nome mas não dá a cara. Não há maioria qualificada à vista e uma maioria dos italianos está “demasiado deprimida para se preocupar”