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Irá Theresa May finalmente explicar o que pretende no pós-Brexit?

May e Tusk voltaram a encontrar-se esta semana em Londres para debater questões mais fraturantes da saída

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Chegou o dia D – D do discurso que Londres, Bruxelas e os Estados-membros da União Europeia estão a aguardar da parte da primeira-ministra britânica há já algum tempo, numa altura em que já há um rascunho legal do tratado que vai selar o divórcio entre o Reino Unido e o bloco

A chefe do governo conservador britânico vai delinear esta sexta-feira cinco "testes" que o futuro reserva quanto ao acordo de saída do Reino Unido da União Europeia, aproveitando as atenções que estarão focadas nela hoje para se comprometer a "unir o país", quando falta pouco mais de um ano para essa saída ser concretizada.

Num discurso que Bruxelas e os Estados-membros têm estado ansiosamente a aguardar – assim como Londres, dados os rumores de desavenças dentro do seu governo e do seu Partido Conservador quanto ao Brexit – Theresa May vai garantir que é "possível" alcançar um acordo comercial pós-saída que seja "o mais profundo possível", sob o argumento de que é do interesse da UE e do Reino Unido que assim seja.

"Cansados dos mesmos argumentos de sempre? Sentem que as notícias de hoje são uma repetição dos confrontos entre a campanha pela saída e a campanha pela permanência [na UE] que dominaram 2016? Ora, esta sexta-feira, os ministros e o n.º 10 [casa do governo britânico] vão sentir que as coisas estão finalmente a avançar."

Assim referia esta manhã a editora de política da BBC, sobre o antecipado discurso de Theresa May, no qual é esperado que apresente a sua visão concreta para a futura relação com a UE após março de 2019 e já depois de terminar o período de transição em 2020.

Segundo o canal britânico e outros media do país, a primeira-ministra britânica vai defender que é preciso encontrar uma "solução duradoura" que respeite o resultado do referendo de há quase dois anos, para proteger o emprego e "reforçar a nossa união de nações".

O seu discurso vai ser proferido esta tarde, 24 horas depois de May ter recebido Donald Tusk, o presidente do Conselho Europeu, em Londres para debater o primeiro rascunho legal do Tratado do Brexit, que foi apresentado esta semana por Bruxelas e que estará a causar desconforto a May e a alguns seus ministros, em particular no que diz respeito à fronteira irlandesa e à permanência da Irlanda do Norte no mercado único e na união aduaneira.

Durante essa reunião em Downing Street, Tusk avisou May que as "fricções" sobre as trocas comerciais no pós-Brexit são "inevitáveis" dada a natureza deste processo inédito que é a saída de um Estado-membro da UE. "Não é possível haver comércio sem fricção quando se está fora da união aduaneira e do mercado único", sublinhou o chefe do Conselho.

Neste momento, o governo britânico continua a garantir que não vai continuar a integrar esse espaço comunitário de trocas após a saída, rejeitando ao mesmo tempo o regresso de uma fronteira "rija" à sua única ligação terrestre ao bloco no pós-Brexit, na fronteira da Irlanda do Norte com a República da Irlanda. Apesar disto, May já rejeitou o plano da UE para manter a Irlanda do Norte na união aduaneira "caso não seja encontrada outra alternativa" para evitar o regresso de controlos físicos à ilha da Irlanda.

Face a isto, Tusk disse na quinta-feira a May que ela precisa de encontrar "uma ideia melhor" do que a que surge elencada no primeiro rascunho do tratado de saída, uma que "seja tão eficaz a prevenir uma fronteira dura" como a que Bruxelas sugeriu.

Por causa do mau tempo que está a varrer o continente europeu, os planos de Theresa May para discursar esta tarde em Newcastle foram mudados à última hora, para que a primeira-ministra não tenha de abandonar a capital no nevão. A partir de Londres, a governante vai comprometer-se a "unir novamente" o Reino Unido "tendo em conta as visões de todos os que se preocupam com este assunto, de ambos os lados do debate".

A par disso, também vai sublinhar que qualquer acordo com a UE tem de respeitar o resultado do referendo de 2016, que o acordo que for alcançado não pode colapsar e que terá de proteger o emprego e a segurança e ser "consistente com o tipo de país" que o Reino Unido quer ser – "moderno, tolerante e virado para fora".

Não obstante, a promessa de virar o país para fora, May vai sublinhar que o resultado do referendo sobre a UE foi, acima de tudo, um voto a favor de o Reino Unido "reassumir o controlo das suas fronteiras, leis e dinheiro". Ao mesmo tempo, também garantirá que, apesar do divórcio que essa consulta popular firmou, o plebiscito de há dois anos "não foi um voto a favor de uma relação distante com os vizinhos".