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A Liga esqueceu o Norte para falar aos italianos, contra os imigrantes

A Liga que em tempos quis a secessão das regiões do norte carregou no discurso anti-imigração para ganhar votos no sul. Itália vota este domingo

Catarina Fernandes Martins, em Milão

Matteo Salvini entra no palco do Cinema San Marco em Caserta ao som de O surdato ‘nnamurato, a conhecida música italiana escrita em dialeto napolitano por Aniello Califano. Quando se ouve o verso ‘Oje vita, oje vita mia’, os muitos que ali se juntaram para ouvir o líder do partido de extrema-direita Liga entram em júbilo.

A escolha da canção, considerada o hino de Nápoles, não terá sido ocasional, dada as relações conturbadas deste partido e de Salvini com os meridionais. A Liga Norte, um partido criado para lutar por maior autonomia para as regiões do norte de Itália, chegando a clamar pela secessão dessas regiões, considerava o sul de Itália um território de parasitas e criminosos. Em 2009, Matteo Salvini deixou-se registar num vídeo então publicado no YouTube, cantando, com militantes do seu partido, contra os napolitanos. “Sente o cheiro nauseabundo, até os cães fogem. Chegaram os napolitanos”. Há um ano, Salvini, de visita a Nápoles, foi recebido com manifestações violentas.

Mas em fevereiro de 2018, o clima é outro. Numa transformação radical para estas eleições, a Liga Norte deixou cair a palavra ‘Norte’ para concorrer como um partido nacional, carregando na retórica anti-migração para solidificar a sua estratégia no sul.

“Nem eu nem vocês pensavam que há dois anos seria possível ter uma noite destas em Caserta,” diz Matteo Salvini.

A cerca de 30 km de Nápoles, num território com uma das maiores populações africanas residentes em Itália, centenas aplaudem o esforço do líder da extrema-direita e respondem em coro às suas exortações xenófobas.

“Quantas mulheres e crianças em fuga da Síria há em Caserta?,” começa Salvini.

“Nenhum,” gritam-lhe da audiência.

“Eu vejo jovens africanos de 20 anos que estão bem vestidos e não parecem precisar de ajuda,” continua o líder da Liga.

No palco com Salvini está o coordenador da Liga para a região da Campânia, Gianluca Cantalamessa. Ao Expresso, Cantalamessa conta como esta será a primeira vez que vota pela Liga.

“Em 1996 eu ia a Milão protestar contra a Liga Norte. Na altura não fazia sentido, mas hoje o mundo mudou,” diz.

Sobre a campanha da Liga no sul, Cantalamessa diz que o partido foi recebido com entusiasmo, apesar de ocasionalmente ouvir alguns comentários de ressentimento nas ruas. Mas, insiste, o sul está em mudança, como o mundo.

“A política meridional comprou a fome. Se pensarmos que gastamos milhares e milhares de euros com imigrantes ilegais, quando esse dinheiro devia ser dado aos italianos em dificuldade… Essa é a política da Liga no sul,” diz.

Uma “Liga Negra”

Além de deixar cair as propostas mais radicais para a secessão do Norte e de eliminar a palavra do nome, a Liga aproximou-se também da Frente Nacional de Marine Le Pen em França e de movimentos neo-fascistas italianos.

Na sua casa em Milão, o cientista política especialista no partido de extrema-direita Roberto Biorcio explica a transformação ocorrida na Liga nos últimos anos.

“A independência do norte não teve sucesso e os temas da imigração têm mais peso. A Liga que antes criticava a elite política agora fala de segurança e utiliza o racismo como arma política,” diz.

A aproximação entre a Frente Nacional e a Liga foi notória quer nas eleições em França, quer nestas eleições em Itália, com os líderes a apoiarem-se mutuamente e marcando presença nos comícios nos dois países. Em ambos os casos, explica Biorcio, há uma transformação que elimina alguns elementos do passado.

“Se a Frente Nacional de Marine Le Pen deixou cair algumas referências à direita nazi e ao anti-semitismo, a Liga de Salvini quer esbater a relação com o nordismo, aproximando-se da direita mais fascista em Itália. A Liga, cuja cor era o verde, está a tornar-se progressivamente mais negra,” diz o especialista.

“A coisa mais estúpida é um meridional votar por Salvini”

A poucas dezenas de metro do Cinema San Marco, um grupo de ativistas do Centro Social que ajuda milhares de migrantes e refugiados protesta contra a presença de Salvini em Caserta. Migrantes africanos carregam pedaços de cartão onde se lê ‘O fascismo é ilegal, eu não’. Há gritos de ódio contra Salvini.

Maria Rita Cardillo, que trabalha no Centro Social em Caserta, diz que o discurso de Salvini contra a imigração contém apenas palavras vazias para italianos que não entendem o que está em causa.

“Se amanhã desaparecessem todos os imigrantes desapareceria o setor agrícola e o setor industrial, suportados por eles. Além de que o sistema de acolhimento e integração de imigrantes dá emprego a 11 mil famílias italianas,” diz.

Dias depois, num almoço de domingo em casa de Maria Rita Cardillo, a mãe, Filomena Cardone dá voz ao ódio que diz sentir por Matteo Salvini, enquanto serve um ragú napolitano.

“A coisa mais estúpida que pode acontecer é um meridional votar por Salvini. Isto só significa que em Itália triunfou a ignorância,” diz.

Com as sondagens mais recentes a darem 36,8% à coligação de direita entre o partido de Berlusconi, Força Itália, a Liga de Salvini e Os Irmãos de Itália, liderado por Giorgia Meloni, no domingo se saberá se a estratégia da Liga no Sul deu ou não frutos.