Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Trump pede aos republicanos que não tenham “medo” da maior organização pró-armas dos EUA

Jabin Botsford/The Washington Post via Getty Images

Depois de ter recebido mais de 30 milhões de dólares em doações da National Rifle Association (NRA) desde que anunciou a sua candidatura à Casa Branca, o Presidente norte-americano disse a um grupo de legisladores que não devem estar “petrificados” pela organização e que devem encetar uma reforma do sector para prevenir massacres como o que, há duas semanas, provocou 17 mortos num liceu da Florida

Numa reviravolta quanto ao controlo de armas de fogo nos Estados Unidos, e distanciando-se dos colegas republicanos, o Presidente norte-americano disse na quarta-feira a um grupo de legisladores do partido que não devem ter medo da poderosa organização de lóbi National Rifle Association (NRA), pedindo-lhes que criem um projeto-lei abrangente para reformar o setor.

O encontro deu-se duas semanas depois de um massacre num liceu da Florida ter provocado 17 mortos, 14 deles alunos, quando um ex-colega destes, de 19 anos, entrou na escola Marjory Stoneman Douglas com uma metralhadora semiautomática e abriu fogo contra todos os que encontrou pelo caminho antes de se pôr em fuga; acabaria por ser capturado pelas autoridades pouco depois.

Depois de ter sugerido que a solução para o problema era armar os professores, Donald Trump sugeriu ontem aos membros do Congresso "petrificados" pela NRA que devem reforçar os mecanismos de avaliação de potenciais compradores e aumentar a idade mínima legal para a aquisição de armas de fogo dos 18 para os 21. A mudança de postura surpreendeu muitos dos presentes, com o "New York Times" a escrever que o Presidente "chocou" os legisladores republicanos e a CNN a referir que estes ficaram "um pouco transtornados" com as declarações de Trump.

O Partido Republicano no seu todo é um grande defensor dos direitos de cada norte-americano a comprar e a possuir armas de fogo, um direito contemplado na 2.ª emenda da Constituição, e vários dos seus membros contam com grandes doações da NRA para as suas campanhas políticas. Desde que anunciou a sua candidatura à presidência, há dois anos, o próprio Trump contou com mais de 30 milhões de dólares de apoios diretos da organização de lóbi, o que não o impediu, no passado domingo, de garantir que não terá problemas em "lutar" contra a NRA.

Fazendo jus a essa promessa, ontem o Presidente criticou "o grande poder" que a NRA tem sobre os legisladores do seu partido ao pedir-lhes que alterem a legislação em vigor para reduzir o número de massacres nos Estados Unidos. "Eles [NRA] têm um poder enorme sobre vocês [mas] têm menos poder sobre mim. Alguns de vocês estão petrificados pela NRA." Entre as medidas por ele sugeridas contam-se o reforço das avaliações prévias de compradores, autorizar a polícia a confiscar armas a pessoas que representem perigos sem necessidade de mandados judiciais, aumentar a idade mínima legal para a compra de armas de assalto dos 18 para os 21 e, como já tinha sugerido anteriormente, pôr armas nas mãos dos professores para que abatam atiradores em escolas.

Como refere a BBC, esta não é a primeira vez que a posição de Trump sobre o controlo de armas de fogo muda; nos anos 1990 e início dos 2000, o empresário apoiou publicamente uma proposta para banir a venda a cidadãos de armas de assalto, mas essa opinião mudaria à medida que foi ficando mais próximo da nomeação republicana nas primárias do partido para disputar as presidenciais de 2016 com a democrata Hillary Clinton – a tal ponto que obteve o apoio formal da NRA, a par de milhões de dólares em doações de campanha.

No rescaldo do tiroteio de há duas semanas, Trump já tinha assinado um decreto para proibir a venda de 'bump-stocks', um acessório que serve para transformar armas semiautomáticas em automáticas para permitir centenas de disparos por minuto. O engenho foi usado pelo atirador de Las Vegas que, no ano passado, foi responsável pelo maior massacre com armas de fogo da História moderna dos EUA, matando 58 pessoas durante um festival de música naquela cidade.

O encontro de ontem na Casa Branca envolveu 17 legisladores republicanos e democratas, alguns deles favoráveis a mais controlos de armas, com o Presidente a sugerir-lhes: "Era lindo que conseguíssimos ter um projeto-lei que todos possam apoiar, em vez de 15 projetos-lei, vocês sabem, cada um tem o seu próprio."

Também criticou especificamente os senadores Pat Toomey (republicano) e Joe Manchin (democrata), que estão a preparar uma proposta de lei para reforçar as avaliações de potenciais compradores, dizendo que estão com demasiado "medo" de fazer frente à NRA. Em reação a isto, o porta-voz de Toomey fez questão de sublinhar em comunicado que o senador "não recebeu um único cêntimo da NRA desde que se juntou ao Senado".

A reunião deu-se à mesma hora em que duas das mais famosas cadeias de lojas dos EUA, a Walmart e a Dick's Sporting Goods, anunciaram que vão passar a limitar a venda de armas de fogo a pessoas com 21 anos ou mais, quando legalmente podem vendê-las a compradores com pelo menos 18 anos de idade. Em comunicado, a Dick's Sporting Goods anunciou ainda que vai deixar de vender armas de assalto como as AR-15, o tipo de armas que foi usado tanto pelo atirador da Florida como pelo atirador de Las Vegas.

  • A “menina bonita” de Donald Trump

    Reservada e discreta, a ex-diretora de comunicação da Casa Branca mereceu a absoluta confiança de Donald Trump. Havia quem a considerasse demasiado nova para o cargo, pouco experiente, mas também quem defendesse a sua capacidade de trabalho e ética profissional. Hope Hicks esteve ao lado do Presidente quando este foi candidato. No dia em que apresentou a demissão, republicamos o seu perfil