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Internacional

Massacre sem fim à vista em Ghouta Oriental

Crianças de Ghouta à espera de tratamento médico, na passada quinta-feira

FOTO Anas Aldamashqi/Anadolu Agency/Getty Im

População come do lixo para não morrer à fome e há feridos amputados sem anestesia

Numa altura em que falta menos de um mês para a guerra síria completar sete anos e o mundo parecia habituado a um conflito complexo e violento, o regime sírio iniciou uma intensa vaga de bombardeamentos contra a região de Ghouta Oriental, que vive um indescritível cenário de terror. Os ataques começaram no domingo de manhã e concentraram-se em Duma, a principal cidade do enclave nos arredores de Damasco, alastrando rapidamente a todo o território e crescendo em intensidade ao longo das horas seguintes.

Aos raides da aviação juntou-se o fogo de morteiro e artilharia, intercalado com salvas de foguetes e disparos de atiradores que não hesitam em abater qualquer alvo que cruze as suas miras. Os bombardeamentos duraram toda a semana e já causaram mais de 400 mortos, incluindo 150 crianças, e cerca de 2000 feridos, para os quais a assistência médica é quase nula. A mais recente campanha militar do Governo de Bashar al-Assad está a obliterar ruas inteiras, com corpos soterrados em escombros onde antes se erguiam prédios e feridos espalhados pelo asfalto.

Nos hospitais multiplicam-se amputações sem condições sanitárias e com escassez ou ausência de anestesistas, sendo inúmeros os feridos com pregos e estilhaços no corpo, operados sem condições de higiene, vítimas de barris carregados de explosivos e pedaços de metal que os helicópteros do regime descarregam indiscriminadamente nas cidades e vilas e cujo uso constitui crime de guerra.

O drama da última semana, que o Governo português condenou ontem em comunicado, é apenas o último capítulo de uma longa história de violência em Ghouta Oriental. Desde 2013 que o segundo maior bastião da oposição síria escapa ao controlo governamental e sobrevive em condições precárias, tendo sido um dos primeiros alvos das armas químicas do regime, com dezenas de civis a perderem a vida num ataque com gás sarin em agosto de 2013. O incidente levou o Governo dos Estados Unidos, então dirigido por Barack Obama, a traçar uma linha vermelha que Assad voltaria a cruzar com o uso de sarin, mostarda e cloro. No início deste mês a Casa Branca voltou a acusar o Assad de atacar a população de Ghouta com armas químicas. O último incidente ocorreu a 1 de fevereiro, mas não suscitou intervenção militar norte-americana como ocorrera em abril de 2017, já no mandato de Trump: quando aviões sírios realizaram um ataque similar contra Khan Shaykhun, o Pentágono retaliou com mísseis Tomahawk.

A fome é outra arma usada pelo regime para quebrar a resistência de Ghouta. Já houve mortes por inanição e cada vez mais pessoas recorrem ao lixo e a comida imprópria para consumo. O regime bloqueou a entrada de alimentos e medicamentos desde o ano passado, apesar dos pedidos insistentes da ONU e das tréguas alcançadas entre a Rússia, a Turquia e o regime, que previam a passagem de ajuda humanitária e a evacuação de doentes. Na prática, Ghouta Oriental é um gigantesco gueto para quase 400 mil habitantes, muitos dos quais são opositores que escaparam à repressão em Damasco e províncias limítrofes.

O enclave é dominado por grupos islamitas como o Jaysh al-Islam, apoiado pela Arábia Saudita, o Tahrir al-Sham (antiga Al-Nusra, aliada da Al-Qaeda) e a Legião Al-Rahman. Estes têm retaliado com ataques de morteiros contra os subúrbios da capital, que causaram 16 mortos e mais de 60 feridos.

Alta tensão em Afrin

A par com o drama humano em curso em Ghouta Oriental, a população de Afrin também enfrenta uma campanha de bombardeamento da aviação turca que já causou baixas entre os civis. A ‘Operação Ramo de Oliveira’ completou um mês na terça-feira e tem por objetivo derrotar as forças curdas do YPG que controlam o cantão de Afrin, de modo a colocar o território sob controlo de grupos da oposição controlados por Ancara. A invasão terrestre já permitiu à Turquia conquistar a quase totalidade do terreno junto à sua fronteira e conseguir, nalguns locais, avanços que chegam aos oito quilómetros. Enfrenta, porém, encarniçada resistência do YPG, e, no dia 20, começaram a chegar reforços do Governo sírio, com um comboio de 20 veículos a entrar em Afrin apesar de um ataque de artilharia turco que custou a vida a dois guerreiros.

O exército turco sofreu 32 baixas mortais e quase 200 feridos durante o primeiro mês de operações, a que se somam perto de 200 mortos nos grupos de rebeldes e entre 200 e 400 combatentes e civis curdos. Estão também confirmadas as mortes de dois combatentes europeus do YPG, Samuel Prada León e Olivier le Clainche, respetivamente espanhol e francês, em bombardeamentos contra a sua unidade a 10 de fevereiro.

Além de Afrin, a Turquia tem montado postos de observação na província de Idlib, para travar o avanço do regime no maior bastião da oposição. Tal levou ao abrandar das operações em Idlib e permitiu ao regime deslocar forças de choque para os arredores da capital. O objetivo é Ghouta Oriental. No início da semana foram avistadas longas colunas militares na estrada que liga Idlib a Damasco e confirmada a transferência das Forças Tigre. Estas foram a ponta de lança das ofensivas contra Alepo em 2016, Palmira e Deir Ezzor em 2017, e Idlib este ano. Estão a concentrar-se em redor de Ghouta.

Na quinta-feira o enviado especial da ONU para a Síria frisou a necessidade urgente de um cessar-fogo que trave o bombardeamento de Ghouta Oriental e os ataques de morteiro contra Damasco. O Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas debateu uma resolução que previa uma trégua de 30 dias e o envio imediato de apoio humanitário. A Rússia manifestou oposição ao projeto e acusou o CS de fazer propostas populistas desligadas da realidade no terreno. Indiferente às pressões externas, o exército sírio conseguiu reunir um poderoso contingente que inclui unidades de elite da guarda republicana, milícias xiitas e unidades blindadas. São mais de 15 mil combatentes, centenas de carros de combate T-55, T-62 e T-72, além de uma enorme quantidade de morteiros, peças de artilharia e lança-foguetes múltiplos, tendo a imprensa pró-regime noticiado que a grande ofensiva para acabar com a resistência de Ghouta Oriental pode estar por dias e contará com um constante apoio aéreo para aniquilar a resistência dos rebeldes nas zonas urbanas.

Parece a repetição do cenário vivido em Alepo em finais de 2016, quando o regime esmagou os rebeldes cercados no interior daquela cidade e milhares de civis perderam a vida. Resta saber se Assad irá ceder à pressão internacional e aceitar um período de tréguas, ou optará pela via da força e repetirá Alepo.