Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Tortura e pressão psicológica”: há quase 700 dias que Nazanin está presa no Irão

Gareth Fuller / Getty Images

Nazanin aproveitou as férias que tinha para visitar os seus pais no Irão. Quando se preparava para regressar ao Reino Unido, foi detida pelas autoridades iranianas, que alegaram que era uma espia do governo daquele país. Isto aconteceu em abril de 2016. Ainda hoje permanece presa, em condições que foram detalhadas pelo seu marido e consideradas “desumanas”

Soraia Pires

Soraia Pires

Jornalista

Dificuldades a andar, respirar e a falar. Insónias, ataques de pânico, stress pós-traumático e pressão psicológica. Nazanin Zaghari-Ratcliffe, uma jornalista da Reuters, passou por isto tudo desde que está presa no Irão. Há 683 dias que a mulher de 39 anos com dupla nacionalidade (britânica e iraniana) vive aquilo a que o seu marido apelida de um “pesadelo” na prisão por estar a ser vítima de tortura por acusações que não foram provadas. Richard Ratcliffe acusou as autoridades iranianas de tortura e enviou esta quarta-feira uma carta às Nações Unidas a pedir para intervirem no caso da sua mulher, que foi submetida a um “catálogo de abusos”.

Nazanin foi acusada de espiar o governo iraniano e foi detida em abril de 2016 no aeroporto de Teerão no momento em que ela e a sua filha Gabriella se preparavam para regressar ao Reino Unido depois de umas férias no Irão, local onde vivem os pais da jornalista.

Na carta, escrita com a ajuda da organização britânica de direitos humanos Redress, Richard descreve as condições em que Nazanin está desde que foi detida. “Enquanto estas torturas são investigadas, a minha mulher merece ser tratada com respeito e dignidade e as Nações Unidas têm de dialogar com o Reino Unido para que sejam dados passos para protegê-la ”, exige.

O marido da jornalista continua a carta afirmando que ela teve tantos períodos de depressão e raiva que o psiquiatra que a acompanha teve de aumentar as doses de medicação que toma, para que os sentimentos negativos que tem possam passar.

44 dias numa solitária com um metro e meio de largura

De acordo com a BBC, Nazanin contou ao marido que foi mantida numa solitária com um metro e meio de largura durante 44 dias na prisão de Kerman, no Irão. Não havia janelas e a luz natural não entrava. O marido escreveu que houve um dia em que Nazanin não aguentou e caiu sem força e teve de ser levada para a clínica prisional por outros reclusos. Não conseguia falar porque estava a ter um ataque de pânico.

A mulher acusa as autoridades daquele país de a usarem como um “isco de negociação” para receberem 506 mil euros de uma dívida que remonta à decada de 70.

Chris J Ratcliffe / Getty Images

Durante 37 dias, não pôde ver a sua família - nem a filha de 21 meses, Gabriella. “Isto é grave porque, nessa altura, a nossa menina ainda precisava do leite da mãe”, afirmou Richard. Quando foi possível tornar a visitá-la na prisão, a família deparou-se com uma situação inesperada porque Nazanin não conseguia levantar-se da cadeira sozinha. Estava fraca ao ponto de precisar de ajuda.

Nazanin foi, entretanto, transferida para a prisão Evin, em Teerão, onde foi submetida a um longo período de solitária - desde junho de 2016 até ao dia de Natal do mesmo ano. E aqui, novamente, sem janela ou luz natural. Era-lhe permitido “exercitar as pernas” duas vezes por dia mas, durante estes períodos, tinha de ter os olhos vendados. Desde o momento em que saía da cela até tornar a entrar.

Um acordo para a libertação de Nazanin

Além disso, a jornalista foi submetida a “pressão psicológica” pelas autoridades na prisão. A carta alega que a polícia dizia a Nazanin que iria ser libertada em junho de 2016 para poder festejar o aniversário da filha em casa. No entanto, foi transferida para outra prisão e proibida de poder ligar-lhes. “Ela não pode falar abertamente sobre o tratamento que tem recebido na prisão, mas cabe-nos pedir ao governo britânico que negoceie um acordo com o Irão.”

Em novembro do ano passado, Boris Johnson, secretário dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, deslocou-se ao Irão para pedir a libertação de Nazanin, mas cometeu um erro que complicou o caso da britânica naquele país: afirmou que ela estava no Irão para treinar jornalistas quando estava, de facto, de férias. Boris Johnson já pediu desculpa pela lacuna.

Segundo o “The Guardian”, o caso deixou de pertencer às autoridades locais e está agora na posse do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano. O governo iraniano nega qualquer ato de abuso ou tortura e insiste que Nazanin foi tratada “devidamente” e de acordo com o processo judicial que está em causa.