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O povo prepara-se para o Dia Zero, quando abrir a torneira e nada sairá

Na Cidade do Cabo e arredores, a água escasseia

Per-Anders Pettersson/getty

A água que corre da torneira é contada ao segundo. Um banho não pode ter mais de minuto e meio. Na Cidade do Cabo, na África do Sul, nunca se pensou tanto no gasto deste ouro transparente. As barragens estão a secar e a população prepara-se para o Dia Zero. É a pior seca dos últimos 100 anos

Os jardins deixaram de ser regados, os carros lavados. As piscinas já não estão cheias, os banhos têm de ser cada vez mais curtos, lavar a louça tem de ser rápido para se gastar o mínimo possível. Conta-se o número de descargas do autoclismo. A água pode ter os dias contados: a 4 de junho, se nada mudar, deixará de correr água nas torneiras de 75% da área urbana da Cidade do Cabo.

“O Dia Zero é o dia em que as barragens chegam ao nível mínimo de água, em que deixa de haver o suficiente para o abastecimento da população. O dia em que as torneiras vão secar.” Rui Hugman, português de 32 anos, é hidrogeólogo e chegou à Cidade do Cabo há cerca de um ano para fazer parte do projeto de abastecimento da água de emergência. Foi com a namorada, Aurélie de Sousa, 30 anos e ilustradora. “O banho tem de ser tão rápido que muitas vezes prefiro não tomar todos os dias, para quando tomo poder ter mais tempo para tomar em condições. No caso da roupa, temos de lavá-la o menos possível. Tentar reutilizar ao máximo”, diz Rui Hugman.

Aurélie de Sousa e Rui Hugman estão na Cidade do Cabo há cerca de um ano

Aurélie de Sousa e Rui Hugman estão na Cidade do Cabo há cerca de um ano

d.r.

Há restrições em vigor. O Governo tentou sensibilizar a população para um uso contido da água. “Mas há sempre quem não o faça” e ninguém controla. “Os relvados, arbustos e afins parecem palha. Sem água absolutamente nenhuma, os jardins totalmente secos e o asfalto a escaldar, parece que sufocamos quando estamos na rua. As temperaturas estão a rondar os 28 e os 37 graus.” Raquel Guerreiro, 70 anos, chegou à Cidade do Cabo com o marido e os filhos em 1975. Chegavam de Angola, têm origem algarvia. Um ano depois, começou a trabalhar como professora de português. Hoje vive entre África do Sul e Portugal. Divide o ano entre os dois países, porque além de não querer perder a dupla nacionalidade, o filho e os netos vivem na capital sul-africana.

“A situação está muito grave. Isto não é novo, mas tem-se agravado. Aqui, temos secas cíclicas: a cada sete anos há uma grande seca. O que se passou é que entretanto tudo se mudou, as políticas, os governos… Em 2014, o nível das barragens estava em 86%, em 2015 nos 72%, em 2016 era cerca de 46%, no ano passado chegou aos 37% e agora está nos 24,9%”. O Dia Zero acontecerá quando as barragens chegarem ao nível de 13,5%.

Raquel Guerreiro chegou à África do Sul em 1975

Raquel Guerreiro chegou à África do Sul em 1975

d.r.

O Dia Zero é inevitável?

Embora continue a ser muito provável que o Dia Zero chegue, hoje já não é uma certeza. Por consecutivas vezes, tem sido adiado. Primeiro, 16 de abril seria o dia; depois, 11 de maio; agora está marcado para junho.

“O Dia Zero passou para 4 de junho de 2018 devido ao declínio do uso de água na agricultura e também como resultado da redução do consumo de água da população, em cooperação com os esforços da cidade para cortar no consumo. “Equipa Cidade do Cabo, estamos a chegar lá”, anunciou o Governo na segunda-feira. Esta é a pior seca dos últimos 100 anos.

Rui e Aurélie notam bem as diferenças desde que chegaram: as pessoas estão mais conscientes, preocupam-se mais. “Percebemos pelas conversas. Só o facto de saberem de onde vem a água, o impacto que tem o seu gasto e pensarem no assunto já é muito. É tópico de conversa nos jantares ou no café. Ainda é possível fugir da bala”, refere o português. “As pessoas estão positivas mas estão a preparar-se para o que pode acontecer - é raro conseguir encontrar água nos supermercado”, acrescenta Aurélie.

Uma das campanhas à porta dos supermercados

Uma das campanhas à porta dos supermercados

d.r.

À entrada das lojas há campanhas de sensibilização para poupar água – aliás, existem um pouco por toda a cidade. Lá dentro, as prateleiras das garrafas estão quase sempre vazias, apesar de os preços terem duplicado. “Uma garrafa que custava seis ou sete rands (entre 40 e 50 cêntimos) custa agora 13 rands (90 cêntimos)”, explica Raquel Guerreiro. “Não há filas para comprar porque assim que são colocadas à venda desaparecem logo”, diz Rui.

Os problemas com as secas não são de agora. Há alguns anos que a pouca água preocupava os sul-africanos, mas com a pouca chuva do último inverno – verão em Portugal –, a crise desencadeou-se. Os níveis das barragens baixaram e isso assustou.

“Como a maior parte do mundo, desde os anos 50 houve um grande investimento nas águas superficiais. É mais fácil, as pessoas entendem melhor como funciona. Acabámos por nos tornar muito dependes de uma só fonte de recurso”, explica o hidrogeólogo português. “Até agora ainda não tinha havido uma pressão política ou social para integrar todas as fontes de recolha de água. Agora há. E é bom ver que esse investimento não está a ser feito exclusivamente para resolver esta crise, mas que se está a pensar a longo prazo. Um dos objetivos futuros é que tudo o que se produz em termos de esgotos seja tratado e que entre novamente no sistema de águas.”

Per-Anders Pettersson/getty

A Montanha da Mesa, onde se localizam alguns dos maiores aquíferos do país, fica a menos de dez quilómetros do centro da cidade, que fica junto à costa sul. A pergunta surge quase sempre: “porque não se usa essa água para abastecer?”. Rui Hugman explica que a dessalinização das águas, um processo que retira o sal e outros minerais da água recorrendo a químicos, tem “demasiados custos financeiros e grande impacto ambiental” e por isso não deve ser umas das primeiras opções.

Na terça-feira choveu na Cidade do Cabo. Mas não chegou. Foram 20 ou 30 minutos de granizo que derretia quando tocava no solo. “Agora estamos outra vez cheios de calor. Quando chove, são só umas chuvinhas”, descreve Raquel Guerreiro.

“Continua a ser muito provável que o Dia Zero aconteça mas já não é uma certeza”, sublinha Rui Hugman. E se chegar? “Isso ninguém sabe como será, porque a verdade é que, apesar de ser difícil, ainda não nos faltou água.”