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Martin Schulz emocionou... até desiludir

Foto Christian Mang / Reuters

Schulz deixa a liderança do SPD como o homem que cedeu a Angela Merkel e aprofundou a divisão no seio do partido. Poucos se lembrarão que liderou a melhor negociação com a CDU da história das grandes coligações

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Bem vistas as coisas, o exercício da democracia viria a exigir a cabeça de Martin Schulz. Enquanto contendor das eleições de 24 de setembro de 2017, o líder dos sociais-democratas prometeu que, se não alcançasse os votos que lhe garantissem a chefia do governo, o SPD retirar-se-ia para ser cabeça de oposição. Dois mandatos seguidos à sombra dos democratas-cristãos e de Angela Merkel, a líder mais carismática dos últimos 12 anos na Alemanha e fora dela, roubaram ao partido o protagonismo que deveria ter tido. Mais do que isso, Schulz garantia igualmente aos militantes e simpatizantes que não voltaria a ocupar fosse que cargo fosse num governo Merkel.

O resultado eleitoral falou mais alto quando os sociais-democratas (SPD) e os democratas-cristãos (CDU/CSU) obtiveram os resultados mais baixos desde 1949 e, assim, abriram o flanco do Bundestag, parlamento federal, à entrada da extrema-direita da Alternativa para a Alemanha (AfD), com estrondosos 15%.

Na ausência de uma maioria óbvia, e com uma nova grande coligação entre os dois maiores partidos fora do jogo das constelações possíveis para formar governo, partiu-se para a negociação de uma fórmula nada óbvia: a coligação Jamaica. Esta acabou, no entanto, por ganhar cidadania e pernas para andar perante a certeza de que novas eleições só serviriam de bandeja aos propósitos da extrema-direita. Esgotada a fantasia de coligar CDU/CSU (União) com os liberais FDP e os Verdes (a chamada coligação Jamaica, pela coincidência da bandeira daquele país com as cores dos partidos - preto para a União, amarelo para o FDP e verde para os Verdes), em novembro voltava-se à estaca zero.

Todos os olhos se voltavam para o líder do partido cujas hostes começavam a esgaçar perante a hipótese de o SPD voltar a lançar-se numa direção pela qual acabava de ser penalizado nas urnas.

Tal como o Expresso ouviu de várias fontes em Berlim quando lá se deslocou em reportagem imediatamente antes do voto de 24 de setembro, se Schulz não viesse a ter outra saída, acabaria por aceitar formar nova GroKo (grande coligação no acrónimo alemão). Aquelas fontes pediram para não serem identificadas sobre este assunto precisamente porque, na altura, sabiam estar a dar tiros no escuro. E no entanto...

Longe vão os tempos da eleição por unanimidade...

Longe vão os tempos da eleição por unanimidade...

Foto Thilo Schmuelgen / Reuters

Em janeiro de 2017, Martin Schulz surgiu como herói, o homem que chegava consagrado por uma carreira à frente do Parlamento Europeu e que se estreava na política em território alemão, onde nunca tivera tido particular relevo. Precisamente por isso, poderia pegar no testemunho do SPD diretamente passado (cedido) das mãos de Sigmar Gabriel, à altura com o carisma caucionado por uma popularidade em baixa.

O “Schulz-Effekt” apresentava-se como uma fórmula perfeita e ao mesmo tempo um resultado. Fez imediatamente subir a simpatia pelo partido, que foi paulatinamente medida milímetro a milímetro pelos inquéritos de institutos de sondagens. Os militantes sociais-democratas exultaram, o recém-chegado foi ovacionado de pé. Porém, foi sol de pouca dura.

Schulz terá tempo para ponderar de foi boa opção ter escolhido adotar um perfil emocional que fazia por galvanizar adeptos enquanto se escusava a delinear a rigor as suas opções políticas para o SPD. Rapidamente começou a ser comentado que cada ação de campanha em que era longamente aplaudido não fazia o partido descolar nas intenções de voto. As palmas não traduziram expectativas de voto.

“Olhem que eu não sou como ela!”

“Olhem que eu não sou como ela!”

HAYOUNG JEON/ reuters

A estratégia foi de demarcação da chanceler e opositora, que manteve por seu turno o perfil discreto que todos lhe reconhecem e defendeu políticas específicas nos sucessivos comícios da campanha da CDU. Ou seja, Schulz emocionou até... desiludir. Provou ser um bom orador em quem ninguém acreditou e isso desembocou fatalmente numa declaração que chegava via sondagens e redes sociais: os militantes rejeitavam um SPD disposto a desaparecer voluntariamente atrás de Merkel, ainda mais depois da penalização sofrida a 24 de setembro.
Assim se chegou aos atuais 17% de intenções de voto no SPD, dizem os números apurados nestes dias caso a Alemanha avançasse para novo processo eleitoral.

Bem vistas as coisas, quando Schulz decidiu lançar o partido em conversações preliminares com os mesmos partidos das coligações anteriores, não fez mais do que se portar como um cidadão a trabalhar em nome da estabilidade da Alemanha. Só que a política está longe de ser uma ciência e ainda menos linear e os ditos por não ditos ficaram demasiado à vista. Insustentáveis.

A presidência de Andrea Nahles ainda vai ser votada em abri. Até lá, o SPD terá como presidente interino Olaf Scholz

A presidência de Andrea Nahles ainda vai ser votada em abri. Até lá, o SPD terá como presidente interino Olaf Scholz

HANNIBAL HANSCHKE/ reuters

O Carnaval foi agitado e abalou as fundações da Willy Brandt Haus, um edifício de gaveto que parece lançar-se sobre a avenida em frente e que só não é completamente discreto devido à gigantesca bandeira vermelha com três letras brancas que encima o telhado: SPD.

O nº 140 da Wilhelmstrasse, Kreuzberg, é a sede berlinense dos sociais-democratas e sofre nestes dias abalos sísmicos quase diários. Os terramotos são autoinflingidos ao ponto de o “Spiegel Online”, site da revista “Der Spiegel”, ter utilizado o antetítulo “caos no SPD” na cobertura dos acontecimentos ao longo da semana passada. O site Faz.net do diário conservador “Frankfurter Allgemeine Zeitung” também não deu tréguas à sucessão de acontecimentos que tem feito os sociais-democratas descer nas sondagens de opinião até só distarem 2 pontos do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que tem 15% das simpatias.

A tormenta não abranda para já... pelo menos antes de 4 de março, dia do referendo interno em que o SPD votará “sim” ou “não” à participação do partido na coligação com a União. O partido está dividido. Só desde o início de janeiro recebeu mais cerca de 25 mil inscrições de militantes cujas vozes vão contar do lado do “não”. Este ganha corpo e quem lidera a campanha “NoGroKo” (não à grande coligação) é o jovem e ativo líder da J social-democrata, Kevin Kühnert.

E Martin Schulz? Nada bem, não tem estado nada bem. Na quinta-feira passada, anunciou a passagem de testemunho da direção do partido para a presidente da bancada parlamentar, Andrea Nahles. Sangue novo, nova geração, a primeira mulher à frente do partido alemão mais antigo, 154 anos depois da sua fundação.

“Rápido, à minha frente!”, parece dizer Sigmar Gabriel ao seguir Martin Schulz

“Rápido, à minha frente!”, parece dizer Sigmar Gabriel ao seguir Martin Schulz

Fabrizio Bensch/ reuters

O abandono da liderança partidária decorria da disponibilidade para ocupar o desejado cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros no futuro governo liderado por Angela Merkel. A nomeação decorria da assinatura do tratado de coligação, na quarta-feira, o qual distribuía seis pastas para os democratas-cristãos e partido irmão da Baviera (CDU/CSU) e outras seis para o SPD.

Um dia mais tarde, na sexta-feira, sob “brutal pressão interna”, como a descrevia o “Faz.net”, Martin Schulz é obrigado a renunciar à pasta, assumindo-a como uma ambição pessoal. Um fim de semana depois, abandona de imediato a liderança do SPD.

“Terão os sociais-democratas encontrado um vencedor em Martin Schulz?”, perguntava há um ano o diário britânico “The Guardian”. Um flop de monta. Martin Schulz passou de salvador eleito para o cargo com inéditos 100% do voto social-democrata a... indesejável.

Sai derrotado sem ser sequer poupado à ironia de Sigmar Gabriel, o colega de partido que lhe cedeu a liderança por razão de impopularidade, ser neste momento o segundo político mais popular na Alemanha.

“Saio de funções sem amargura nem ressentimento”, disse Schulz esta terça-feira. Será possível?