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Talibãs apelam ao diálogo em carta aberta à administração norte-americana

BANARAS KHAN/GETTY IMAGES

Da carta constam uma série de estatísticas e números ali incluídos com o objetivo de convencer a população dos EUA de que a presença de tropas americanas no Afeganistão não serve nenhum propósito uma vez que a guerra é, dizem, invencível

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Negociações de paz. É isso que os talibãs querem e que esperam que a administração norte-americana aceite, segundo uma carta aberta divulgada esta quarta-feira por Zabiullah Mujahid, porta-voz do grupo.

“Se a política do uso da força se mantiver por mais 100 anos, o resultado será o mesmo que observaram durante os últimos seis meses, desde o início da nova estratégia de Donald Trump”, anunciada em agosto do ano passado, lê-se no documento, que é divulgado um mês depois do ataque mortífero em Cabul, capital do Afeganistão, reivindicado pelos talibãs, em que morreram 150 pessoas.

Embora a administração norte-americana tenha enviado mensagens contraditórias quanto a possíveis conversações com os talibãs - Trump recusa quaisquer negociações com o grupo, enquanto que o secretário de Estado Rex Tillerson já admitiu que os Estados Unidos estão disponíveis para conversar desde que seja com as “vozes moderadas” - continua a insistir que quaisquer negociações têm de ser lideradas pelo Governo afegão. Os talibãs, no entanto, recusam-se a dialogar com o Governo do seu país sem antes discutir a saída das tropas americanas do Afeganistão.

Da carta constam ainda uma série de estatísticas e números - como o número de soldados americanos e de outros países que já morreram, 3,546 - incluídos ali com o objetivo de convencer os americanos de que a presença de tropas do seu país no Afeganistão não serve nenhum propósito uma vez que a guerra é, dizem, invencível. Os talibãs responsabilizam ainda os americanos pelo aumento da produção de heroína no país em 2017 (mais 87% em relação ao ano anterior, segundo um relatório divulgado pelo Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC, na sigla em inglês).

Na carta, é citado também o mais recente relatório do Inspetor Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão (SIGAR), divulgado em agosto do ano passado, que atesta a presença cada vez mais significativa dos talibãs na região e mostra que todos os dias morrem no Afeganistão, em média, 20 soldados e polícias (só entre 1 de janeiro e 8 8 de maio, foram mortos 2531 efetivos das forças de segurança afegãs e 4238 ficaram feridos). O documento sublinha ainda as “dezenas de milhares de milhões de dólares” que saem todos os anos dos bolsos dos contribuintes norte-americanos para financiar a intervenção dos EUA no Afeganistão e que acabam por parar às mãos de “ladrões e assassinos”.

O Departamento de Estado norte-americano ainda não se pronunciou sobre a carta. Fonte oficial recordou ao “The Guardian”, no entanto, o ataque mortífero de 27 de janeiro, o qual revelou que o grupo não está preparado para negociar de “boa fé”.