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O misterioso crime do lugar onde nunca nada acontece

No dia em que o principal suspeito do desaparecimento e morte de Maëlys de Araújo, uma menina lusodescendente de nove anos, terá confessado o crime e está a colaborar com as autoridades francesas, recuperamos uma reportagem, publicada em setembro de 2017, sobre a localidade onde tudo aconteceu durante uma festa de casamento. Depois de a polícia ter encontrado vestígios de ADN da menor no carro do suspeito, este negava qualquer envolvimento no caso

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris

enviado a Isère e a Saboia

Jornalista

Os pais de Maëlys - criança de nove anos, filha de pai de origem portuguesa, também ele já nascido em França, e mãe francesa - desaparecida desde as três da manhã de 27 de agosto, regressaram na última quinta-feira à tarde, 7 de setembro, à sala polivalente de Pont-de-Beauvoisin onde Maëlys foi vista pela última vez durante uma festa de casamento.

Acompanhava-os um alegado médium português que estará na região pelo menos até este sábado. Recorrem a todos os meios para encontrar a filha, afirmam que ainda têm esperança de a encontrar viva e garantem que continuam a confiar na investigação judicial em curso para esclarecer o mais rapidamente possível o mistério.

Mas o pessimismo domina tanto os polícias que procuram incessantemente o seu rasto em plácidos lagos, rios e em íngremes desfiladeiros e penhascos das montanhas dos arredores, como os investigadores judiciais baseados em Grenoble ou os habitantes das localidades destas zonas de Isère e da Saboia, distritos separados pelo rio Guiers, que divide Pont-de-Beauvoisin ao meio.

Os juízes de instrução, a Judiciária e os agentes policiais que vasculham a região todos os dias dizem não ter dúvidas de que estão perante um rapto, de que aliás está indiciado o principal suspeito, Nordah Lelandais, um homem de 34 anos, antigo militar que está preso desde o passado domingo. Nenhuma pista é excluída, mesmo a da hipótese de um complexo caso de eventual tráfico de menores, como referiram ao Expresso dois gendarmes (Guarda Republicana) envolvidos nas buscas.

Os habitantes de Pont-de-Beauvoisin e da aldeia onde residia o acusado, a apenas pouco mais de um quilómetro do local do desaparecimento, demonstram alguma exasperação com a agitação que desde 27 de agosto irrompeu por estas pacata localidade onde normalmente nada acontece, muito menos crimes graves desta natureza.

Muitos pensam que Maëlys já não está viva. "É uma desgraça, a esperança é a última coisa a morrer, mas infelizmente penso que, se a encontrarem, já estará morta, porque já passou muito tempo depois dela ter desaparecido", disse ao Expresso, nesta quinta-feira, a vigilante de um liceu ao lado da sala polivalente onde decorreu a festa do casamento de uma prima de Maëlys.

Cerco ao suspeito

O suspeito continua a negar ser o autor ou cúmplice do rapto, mas as contradições nas suas respostas aos investigadores avolumam as desconfianças, bem com os indícios e as provas, que se acumulam contra ele. Foi militar especializado em treino de cães e lavou e aspirou cuidadosamente o seu carro, um Audi 3, no dia seguinte ao casamento. Disse que o fez porque iria vender o automóvel a seguir, no entanto chegou ao ponto de limpar a mala do carro com um produto que perturba o olfato dos cães.

Foi visto a falar e a brincar com Maëlys no parque à entrada da sala onde decorria o baile e o beberete, também conhecida como sala de festas, mas garantiu que ela não entrou na viatura. Posteriormente confessou que sim, que ela e um rapazinho estiveram no carro, no assento traseiro, para verem, explicou, "se os seus cães estavam na bagageira" (é um apaixonado por cães). Retificou deste modo as suas primeiras declarações porque foram encontradas provas ADN nos lados direito e esquerdo do tablier, uma delas junto à porta do condutor.

Quanto ao rapazito, que Nordah garante ter acompanhado a menina, não há rasto dele. Outro enigma que o acusa: ausentou-se da festa, mais ou menos à hora do desaparecimento de Maëlys alegadamente para ir a casa, onde residia com a mãe, trocar de calções, porque estes estavam sujos de vinho. Mas os calções não foram encontrados e ele disse tê-los deitado num caixote do lixo, na rua.

A mãe dele confirma o seu depoimento e garante que ele não estava acompanhado pela menina. Para acentuar que não tem nada a esconder, a mãe até abriu nesta quinta-feira a casa ao pretenso médium, conhecido por bruxo de Fafe.

Durante o período em que não esteve na festa, Nordah desligou o telemóvel e não disse aos investigadores que tinha outro telefone com ele. Também está ainda por esclarecer a origem de esfoladelas num braço e numa perna, que ele diz terem sido feitas quando foi apanhar framboesas "alguns dias antes do casamento".

"Nordah é uma pessoa excecional"

O advogado de Nordah afirma que o cliente "é um amigo do noivo" e que "nunca tinha visto antes a menina". "É vítima de uma engrenagem, de um concurso de circunstâncias das quais não consegue sair", acrescenta. Os vestígios da ADN de Maëlys no carro são ínfimos e eventualmente estão misturados com os de Nordah. "Isso pode explicar-se, eles brincaram juntos tocaram juntos em brinquedos no parque", diz a mãe do suspeito.

O antigo militar é muito conhecido em Pont-de-Beauvoisin, onde era muito popular. Frequentava o café Au Bon Coin, propriedade de Fátima, uma portuguesa que vive na vila há longos anos.

Esta considera todo este caso muito estranho, o que também acontece com Ferreira Pereira, igualmente português e empregado do café Le Rendez-Vous.

"Custa-me muito a crer que ele tenha feito algo de mal à menina, há qualquer coisa que não bate certo, aqui todas as pessoas gostavam dele, portou-se sempre bem, é uma pessoa excecional", diz o português.

O mesmo afirmam os amigos de Domessin, a sua aldeia, a menos de dez minutos de carro de Pont-de-Beauvoisin.

Contudo, Nordah teve no passado casos com a Justiça, mas por delitos menores, designadamente ligados à venda e consumo de estupefacientes. Enfrentou também problemas no serviço militar e num anterior emprego por ser "demasiado instável com inclinação para a violência", segundo disse o seu último patrão conhecido à imprensa local.

Mais de 200 pessoas já foram interrogadas pelas autoridades e as buscas prosseguiam nesta sexta-feira de manhã. À medida que os dias passam, adensa-se o já chamado "mistério Maëlys", que continuava e a perturbar a serenidade da vida, habitualmente muito pacata, dos habitantes da região.