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Morreu Morgan Tsvangirai, o mineiro ativista que chegou a líder da oposição do Zimbabwe

Morgan Tsvangirai tinha 65 anos e era fundador e líder do partido Movimento para a Mudança Democrática

-/AFP/Getty Images

Desafiou várias vezes o antigo Presidente Robert Mugabe nas urnas, mas foram mais as vezes em que perdeu do que ganhou – e não é claro que tenha sido por sua causa. Em 2008, venceu a primeira volta das presidenciais e juntou-se a um governo de unidade nacional durante o qual assumiu funções de primeiro-ministro. Morgan Tsvangirai, descrito como “um verdadeiro democrata” e “uma inspiração”, morreu esta quarta-feira, vítima de cancro

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

A maior luta de Morgan Tsvangirai e que durou quase 20 anos, desde que fundou o partido Movimento para a Mudança Democrática (MDC), foi a luta política contra o antigo Presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe, destituído em 2017, e isso foi reconhecido pela maioria daqueles que se pronunciaram sobre a sua morte, esta quarta-feira.

“É triste para mim anunciar que perdemos o nosso ícone e lutador pela democracia”, disse Elias Mudzuri, um dos vice-presidentes do MDC, numa mensagem publicada no Twitter. Na mesma rede social, Temba Mliswa, deputado independente, referiu-se a Tsvangirai como um “verdadeiro democrata que se opôs sem medo ao regime de Mugabe e por isso foi uma inspiração para muitos”.

Já David Coltart, um dos fundadores do MDC, descreveu o antigo primeiro-ministro como “um dos gigantes da longa batalha para trazer a democracia ao Zimbabwe”. “Irei lembrá-lo pela sua coragem, humildade, humor e determinação incansável”.

Morgan Tsvangirai tinha 65 anos e morreu vítima de cancro do cólon – de que sofria há dois anos – numa clínica em Joanesburgo, África do Sul. Nascido em 1952 na região de Buhera, na antiga Rodésia do Sul, e o mais velho de nove irmãos, deixou a escola quando tinha 16 anos para ajudar a sua família.

Começou então a trabalhar nas minas, juntando-se aos ativistas daquela classe e assumindo, pouco tempo depois, um dos cargos mais altos do Sindicato dos Mineiros do Zimbabwe. Em 1998, foi eleito secretário-geral do Sindicato do Comércio (ZCTU) e em 1999 fundou o Movimento para a Mudança Democrática. Embora fortemente influenciado pelo movimento sindical, o partido incorporou a Igreja, as empresas, organizações de mulheres e estudantes, e outros grupos, recorda o “Guardian”.

Em 2000, nas eleições parlamentares, e depois em 2002, nas presidenciais, Morgan Tsvangirai esteve perto de chegar ao poder, ajudado pelo contexto de caos económico criado pelo então Presidente Robert Mugabe. O líder da oposição e o seu partido convocaram uma série de greves nacionais, assumindo-se como a voz dos descontentes e insatisfeitos. De facto, a política de repressão de Mugabe viria a ajudar a cimentar a reputação de Tsvangirai como um homem corajoso. Imagens do líder da oposição a ser espancado pela polícia, em 2007, quando participava num encontro considerado ilegal pelas autoridades, foram divulgadas em todo o mundo.

O MDC venceu a primeira volta das eleições presidenciais de 2008 –consideradas pela oposição e confirmadas pela Human Rights Watch como uma “fraude”, dada a alegada manipulação do processo eleitoral e práticas de violência e tentativas de intimidação – e acabou por juntar-se a um governo de unidade durante o qual assumiu funções de primeiro-ministro até às eleições de 2013, de que Mugabe viria a sair vitorioso.

A morte de Morgan Tsvangirai, esta quarta-feira, acontece nas vésperas das primeiras eleições desde que Mugabe foi destituído do cargo de Presidente e isso traz desafios extra ao seu partido, que já se encontrava dividido desde que a doença do seu líder foi tornada pública, em 2016 e que tem agora de escolher um novo líder para disputar o poder contra a União Nacional Africana do Zimbabwe - Frente Patriótica (ZANU-PF), partido atualmente no poder e fundado por Mugabe.

Segundo Piers Pigou, analista do International Crisis Group, a morte de Morgan Tsvangirai irá forçar o MCD a convocar uma reunião de emergência para resolver as “diferenças” que existem atualmente entre os três vice-presidentes do partido. “A sua doença deixou a dinâmica interna num impasse, por isso talvez possa agora haver uma resolução”.