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Internacional

Mineração de bitcoins na Islândia vai gastar mais energia do que todas as casas

JACK GUEZ/GETTY

É um efeito de uma súbita corrida ao ouro que também está em curso noutros países e tem implicações a muitos níveis

Luís M. Faria

Jornalista

A Islândia descobriu uma nova mina de ouro. Não é o petróleo (num país que obtém quase 100% da sua energia a partir de recursos naturais) nem produtos financeiros especulativos (como os que há anos lhe arruinaram a economia). É algo muito mais complexo do que estes últimos produtos e com implicações ambientais tal como o petróleo. Trata-se da chamada mineração de bitcoins.

A bitcoin, como se sabe, é uma moeda virtual que não tem uma entidade central a emiti-la mas assenta num registo universalmente acessível de todas as transações feitas diariamente. Esse registo, por sua vez, vai sendo feito por quaisquer computadores que se associem à rede e tenham poder suficiente. Como o sistema utiliza criptografia para proteger as contas dos utilizadores e evitar falsificações, os computadores envolvidos gastam bastante energia, quer na realização dos cálculos quer no próprio arrefecimento das máquinas.

É justamente o clima frio um dos fatores que faz da Islândia um país tão atraente para 'minerar'. Esta palavra tem aqui um sentido metafórico, referindo-se ao modo como são criadas novas unidades da moeda. Um computador que participa na chamada blockchain – na manutenção do registo – é recompensado em nova bitcoin gerada para o efeito, e é assim que a quantidade total de unidades vai crescendo. A atividade só se torna lucrativa com um número muito grande de transações compiladas. Além disso, é preciso que o valor da bitcoin esteja suficientemente elevado no mercado.

Há também os custos ambientais e sociais. Neste momento, as estimativas apontam para que os gastos de energia dos bancos de dados de bitcoin na Islândia estejam prestes a ultrapassar o do total dos lares nesse país com 340 mil habitantes. Johann Snorri Sigurbergsson, porta-voz da companhia energética HS Orka, explica: "O que estamos a ver é aquilo a que se pode chamar crescimento exponencial no consumo pelos centros de dados. Para já, não o vejo a parar".

"Se todos estes projetos se concretizarem, não teremos energia suficiente", conclui Sigurbergsson. A questão a seguir, inevitavelmente, é a fiscal. Que impostos aplicar, e como, a uma atividade que não movimenta o tipo de dinheiro normalmente guardado pelos bancos.