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Os elefantes na estrada da paz

O Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, está a renascer. Desde que que as armas se calaram, surgiram vários projetos de restituição da vida selvagem ao território. Mas as populações ainda resistem e a tensão entre homens e animais faz parte do quotidiano

Carla Tomás

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Jornalista

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Um velho aldeão, de roupa rasgada e pés descalços, dirige-se ao diretor do departamento de conservação e fiscalização do Parque Nacional da Gorongosa. “A população está revoltada. Deviam matar aquele elefante”, queixa-se zangado. Fala no dialeto local e percebe-se a raiva que lhe vai no olhar. Pedro Muagura procura acalmá-lo. “Também não mata um dos seus filhos só porque fez asneira”, lembra-lhe. A cena passa-se na comunidade de Vinho, a aldeia de palhotas dispersas mais próxima do Campo Chitengo, onde estão localizados os serviços desta área protegida. Por muitos classificada como “o último paraíso em África”, a Gorongosa tem vindo a renascer das cinzas mas os conflitos homem-animal ainda não estão sanados. Uma semana antes, uma manada de elefantes atravessara o rio Pungué e invadira as machambas em busca de alimento. Os legumes e as árvores de fruto das aldeias são uma tentação em pleno pico da época seca. Quando a população tentou afugentá-los, uma elefante fêmea, em defesa da manada, acabou por provocar a morte de um rapaz.

Os elefantes da Gorongosa estão traumatizados com a presença do homem. Durante os 16 anos de guerra civil que se seguiram à independência de Moçambique, os grandes mamíferos viram as famílias chacinadas para que soldados dos dois lados do conflito — Frelimo, no poder, e Renamo, na oposição — usassem o marfim para se abastecerem de armamento no mercado internacional ou simplesmente para fazerem dinheiro. Perto de 90% dos elefantes desapareceram e outros animais de grande porte, como búfalos, antílopes ou zebras, foram dizimados para servirem de alimento aos combatentes e a uma população esfomeada. Sem as suas presas naturais, os leões quase desapareceram da reserva que se estende por cerca de 4000 quilómetros quadrados a sul do vale do Rift.

Em 1972 contavam-se cerca de 3500 hipopótamos, 2500 elefantes, 14 mil búfalos, 3500 zebras e 200 leões no Parque Nacional da Gorongosa. Hoje há uma ou duas centenas, ou ainda menos, de cada espécie. Quando, em 1994, os cientistas começaram a fazer um inventário, nem leões encontraram. A ‘arca de Noé’, porém, está em recuperação naquela que é considerada uma das mais magníficas áreas protegidas africanas devido à diversidade das espécies e paisagens que a habitam: as extensas planícies aluviais, a savana aberta onde os leões gostam de se esconder atrás do capim alto, ou a savana fechada onde se ergue a floresta pálida da árvore “da febre amarela” e dos embondeiros.

O programa de restauração de habitats e animais da Gorongosa — desenvolvido e financiado desde 2004 pela Fundação Carr (do filantropo norte-americano Greg Carr) em colaboração com o Governo moçambicano — permitiu multiplicar algumas das espécies quase desaparecidas. Doze anos e 40 milhões de dólares de investimento depois, um novo inventário já estimava mais de 400 hipopótamos, 550 elefantes, 700 búfalos e meia centena de leões. Muitos vieram de outros parques africanos, nomeadamente do Kruger, na África do Sul. Mas nem todas as reintroduções têm resultado. Das quatro chitas deslocadas, nenhuma sobreviveu: uma morreu na viagem, outra foi perfurada pelo chifre de uma impala, a terceira foi caçada e a pele encontrada numa comunidade local. A quarta simplesmente desapareceu. A caça furtiva continua a ser um dos principais problemas da Gorongosa. Segundo os dados do departamento de conservação e fiscalização do parque, até setembro do ano passado foram detidos 177 caçadores furtivos. Mesmo com a ameaça de 16 anos de prisão para quem cometer o crime, a fome e a cobiça continuam a alimentar o conflito homem-animal.

Não há apenas animais na Gorongosa. Grande parte do financiamento feito pela Fundação Carr e por outras instituições internacionais vai para o desenvolvimento socioeconómico de quem vive na zona-tampão do parque. Estima-se que ali habitem mais de 150 mil pessoas, distribuídas por 16 comunidades. Muitas dependem do seu pedaço de terra para sobreviver — cultivam milho e feijão. Grande parte do trabalho desenvolvido pelos técnicos da reserva está voltado para as comunidades locais, para as ajudar a subsistir e para as sensibilizar para proteger a riqueza natural que as rodeia. “Temos de convencer os líderes locais a proteger e a ajudar a conservar os habitats e as espécies, pois sem eles não há turismo e sem turismo não há projetos para ajudar as comunidades”, sublinha Herculano Ernesto, 44 anos, um dos responsáveis pela educação comunitária.

Recuperação. Em 1972 contavam-se cerca de 3500 hipopótamos, 2500 elefantes, 14 mil búfalos, 3500 zebras e 200 leões no Parque Nacional da Gorongosa. Hoje há uma ou duas centenas ou ainda menos de cada espécie

Recuperação. Em 1972 contavam-se cerca de 3500 hipopótamos, 2500 elefantes, 14 mil búfalos, 3500 zebras e 200 leões no Parque Nacional da Gorongosa. Hoje há uma ou duas centenas ou ainda menos de cada espécie

nuno botelho

Para sensibilizar as populações, as novas crias de leões tem sido batizadas com nomes de líderes das aldeias. “Assim interiorizam que não podem matar os ‘líderes do parque’”, explica Herculano Ernesto, enquanto mostra, orgulhoso, a escola primária da comunidade de Nhambita, a 19 quilómetros de Campo Chitengo, erguida pelos serviços do parque em colaboração com o Governo moçambicano. Só neste aglomerado de palhotas vivem cerca de 500 famílias. É nos serviços desta área protegida que encontram trabalho e ajuda para desenvolver projetos agrícolas e comerciais e é a administração do parque que junta dinheiro para construir os centros de saúde e as escolas nas comunidades. “Damos-lhes formação sobre como cultivar com técnicas sustentáveis como a permacultura para manter a fertilidade natural do solo”, esclarece Herculano, mostrando uma das plantações onde crescem hortícolas. A agricultura de subsistência é o principal uso da terra, mas começa a haver produção comercial de alface, tomate, batata, banana ou ananás, com recurso a irrigação e outras técnicas.

Manter as meninas na escola

Sob um telheiro de capim, duas dezenas de crianças repetem as palavras em português que o professor aponta no quadro de ardósia: “Gato… Gaatoo”, ecoam. Sorriem envergonhadas para os estranhos que as observam. Ao lado da pequena estrutura, um grupo de raparigas canta um hino em defesa da conservação e da biodiversidade da Gorongosa. Fazem parte de um dos 17 “clubes das raparigas” que reúnem miúdas entre os 10 e os 16 anos, durante duas horas por dia, com o objetivo de lhes dar educação sexual e apoio à leitura, de modo a evitar que abandonem a escola para casar. “Cerca de 60% das raparigas destas idades não terminam a escola básica e 85% delas acabam por se casar cedo e ter filhos”, conta Larissa Sousa.

Aos 27 anos, a jovem gestora moçambicana, natural de Maputo mas a residir no Chimoio, está à frente do Programa de Educação das Raparigas do departamento de desenvolvimento humano do Parque Nacional da Gorongosa. O projeto conta com o apoio da Agência dos EUA para o Desenvolvimento (USAID) e da Fundação Carr e ganhou novo impulso no início de 2017 com a ajuda da primeira-dama moçambicana. “A única coisa que estas meninas sabiam é que queriam casar-se e ser mães, agora já dizem que querem ser professoras, enfermeiras ou até diretoras do parque”, diz Larissa, satisfeita. Casá-las cedo é uma forma de as famílias deixarem de ter mais uma boca para sustentar e de receberem um dote. Nesta região, o “lobolo” pode resumir-se a duas caixas de cerveja, capulanas, maços de cigarros e fatos para a família da noiva no dia do casamento. “A lei moçambicana diz que não se podem casar antes dos 15 anos a não ser que sejam emancipadas, mas os pais emancipam-nas mal chegam à puberdade e já apareceram meninas de 10 anos grávidas”, lamenta.

Larissa é uma das formandas do “Sciencetelling Bootcamp” organizado pela National Geographic Society no Campo de Chitengo. Neste workshop de quatro dias, cinco formadores da organização norte-americana procuram dar aos jovens cientistas, estagiários e técnicos que trabalham no Parque da Gorongosa instrumentos para comunicarem os seus trabalhos científicos. “É a contar as suas histórias que podem mudar o mundo”, defende Denise Prichard, diretora do departamento de treino e desenvolvimento da National Geographic Society e criadora destes bootcamps. Para Denise, as ações de formação têm “um efeito dominó de passagem de informação”, uma vez que divulgam a história e as descobertas dos jovens cientistas através de blogues no sítio online da National Geographic Society, que é visto por milhares de pessoas em todo o mundo. No dia em que exploram a aprendizagem em comunicação fotográfica, junto a um dos braços do rio Pungué, na planície aluvial, Larissa resolve fotografar todas as mulheres que participam no workshop: “Quero mostrar às meninas do projeto que também podem vir a ser investigadoras, engenheiras, biólogas, fotógrafas ou veterinárias. Podem ser tudo o que quiserem se continuarem a estudar.”

A variedade de projetos desenvolvidos no Parque da Gorongosa é grande. Tongai Castigo, 30 anos, natural da Beira, trabalha no departamento de botânica do Laboratório Edward O. Wilson há 10 anos. Já ajudou a catalogar “mais de 2000 espécies de plantas, algumas das quais não existem em mais lugar nenhum do mundo”. O interesse pelas plantas começou quando era ainda criança. Certo dia, o irmão mais novo foi mordido por uma cobra e salvo por um amigo. “Ele apanhou umas plantas, meteu-as na boca, mastigou e depois pôs no pé dele e salvou-o”, recorda Tongai. É também dele a explicação para o facto de as acácias serem conhecidas como “árvores da febre amarela”: “Crescem em lugares húmidos e em redor delas há muitos mosquitos que provocam malária”. Em finais de setembro, no auge da época seca, a floresta de acácias ergue-se despida como se fosse um bosque outonal em tons de amarelo pálido.

Na montanha sagrada

Emília Nacir é uma engenheira agrícola de 25 anos que, desde o início de setembro, está a estagiar no projeto de café da Gorongosa. O seu entusiasmo é tal que no grupo a tratam como a “rainha do café” e até convence dois dos formadores a posarem ao estilo “George Clooney” — a beber do seu café para o projeto fotográfico que tem de apresentar naquele dia. Natural de Nampula, Emília fala com entusiasmo sobre a plantação iniciada três anos antes na serra da Gorongosa e explica como, ao ajudar “os agricultores a plantarem café além de milho e feijão, se evita estragar a terra e se afastam os elefantes, que não gostam nem de café nem de tabaco”.

No dia seguinte, Matthew Jordan para a “montanha sagrada”. Este engenheiro ambiental norte-americano de 32 anos, que foi parar “por acaso” à Gorongosa depois de trabalhar como voluntário do Peace Corps, dando aulas de Física e Química no Niassa, no noroeste de Moçambique, é hoje o coordenador técnico do projeto de café da Gorongosa e procura “capacitar” os agricultores para a nova cultura. “Desafiámos as comunidades da serra a escolherem um dos seus jovens para estagiar no parque e aprender sobre plantação de café e deixarem de cortar árvores e fazer queimadas, salvaguardando as plantas nativas e a floresta.” E lembra: “Se perdermos a floresta, vamos perder a água que aqui nasce e alimenta os rios que desaguam no lago Urema.” Perto dos viveiros de café, localizados a 700 metros de altitude, existe uma cascata e um riacho rodeados de um verde luxuriante. No vale, em baixo, a imagem é a da terra queimada e da desflorestação.

A floresta tropical tem sido destruída porque os proprietários dos terrenos querem plantar feijão ou mandioca ou as culturas tradicionais de subsistência. Ao fim de dois ou três anos, o solo fica tão exausto e sufocado que morre. Quem se aproxima da serra da Gorongosa, a duas horas e meia de carro de Campo Chitengo, constata a mancha de devastação. As populações queimam para limpar a terra para novas plantações ou simplesmente por vingança ou rivalidade entre vizinhos. Em vez de verde, existe o negro das clareiras queimadas enquanto se sobe a montanha por uma picada atribulada.

Perigo. Dias antes de esta fotografia ter sido tirada, uma fêmea de elefante investiu contra um dos carros do safari, deixando-o bastante amolgado, porque o grupo não cumpriu as regras e fez demasiado barulho

Perigo. Dias antes de esta fotografia ter sido tirada, uma fêmea de elefante investiu contra um dos carros do safari, deixando-o bastante amolgado, porque o grupo não cumpriu as regras e fez demasiado barulho

nuno botelho

O conflito militar entre a Renamo, que tem uma base nas montanhas, e a Frelimo, que governa o país, reacendeu-se em 2015 e 2016 com consequências trágicas para quem vive nas montanhas e para as espécies que albergam. A plantação de café também sofreu. Cerca de 10 hectares e 70 mil plantas que se encontravam no viveiro foram destruídos. “Perdemos um ano de trabalho”, lamenta Matthew. O cessar-fogo decretado há cerca de um ano voltou a trazer a paz à região.

O projeto de plantação de café nasceu de uma ideia de Pedro Muagura, que admite ter chorado ao saber da destruição provocada pelo conflito armado. O diretor de conservação do parque gosta de plantar árvores e sementes e o seu sonho é “ver os camiões que percorrem as estradas que ligam a Gorongosa à cidade da Beira a transportar novas plantas em vez de troncos de árvores cortadas”. Antes de ser desafiado para o projeto de reflorestação da Gorongosa, Muagura dava aulas de Botânica e Economia Agrária no Chimoio. Foi ele quem trouxe as primeiras plantas de café da Tanzânia para a “montanha sagrada”. Não foi fácil. “Achavam que não se devia introduzir uma planta exótica no parque natural”. A população local também começou por torcer o nariz, mas acabou por aderir por gratidão, lembrando que numa das visitas às montanhas, Pedro Muagura salvara uma criança que pisara uma mina, levando-a para o hospital mais próximo.

Nas plantações trabalham em permanência 20 homens das comunidades locais e cerca de uma centena em regime ocasional. Em 2017 produziram 250 quilos de café, mas, explica Matthew Jordan, o objetivo é chegar às cinco toneladas no próximo ano e triplicar a produção em cinco anos. “Estamos a transformar a vida das pessoas e a recuperar a biodiversidade”, acrescenta, convicto dos resultados do projeto.

Um paraíso por explorar

A Gorongosa está a renascer fruto de uma multiplicidade de projetos. Piotr Naskrekci, entomólogo polaco e investigador do Museu de Zoologia Comparativa de Harvard, EUA, faz parte de um deles desde 2012: o laboratório Edward O. Wilson: “Moçambique é um país rico em biodiversidade, ecologia e cultura e dos menos explorados pelos cientistas”, sublinha. Neste laboratório — que deve o nome ao famoso investigador de insetos para quem a Gorongosa é “uma janela para a eternidade” — encontram-se catalogadas mais de quatro mil espécies da fauna e flora existentes no parque. Há centenas de insetos que a equipa de Naskreki apanha de uma forma original: com um lençol branco iluminado durante a noite preso nas traves de madeira junto a uma das salas do laboratório.

Uma das alunas de Naskrecki é Norina Vicente, que perante os colegas da formação da National Geographic Society faz questão de lembrar que a importância, como a beleza, também está nas pequenas coisas. “Apesar de toda a gente pensar só em leões e elefantes quando vai à Gorongosa, há outros seres pequeninos, como as formigas, que são importantíssimas para este ecossistema, porque ajudam a limpar e a nutrir o solo”.

nuno botelho

Convivência. Pedro Muagura (diretor de Conservação e Coordenador do Programa Florestal), a gestora Larissa Sousa (sentada no jipe) e o paleontólogo Ricardo Araújo (em baixo) são peças-chave do trabalho em curso para garantir que o desenvolvimento do Parque Nacional da Gorongosa como destino turístico e santuário de animais selvagens é feito de forma harmoniosa com a vida das populações

Convivência. Pedro Muagura (diretor de Conservação e Coordenador do Programa Florestal), a gestora Larissa Sousa (sentada no jipe) e o paleontólogo Ricardo Araújo (em baixo) são peças-chave do trabalho em curso para garantir que o desenvolvimento do Parque Nacional da Gorongosa como destino turístico e santuário de animais selvagens é feito de forma harmoniosa com a vida das populações

nuno botelho

Desde que a paz voltou à Gorongosa, surgem cada vez mais cientistas interessados em desenvolver trabalhos no parque. É o que acontece com Jorge Palmeirim, investigador da Faculdade de Ciências de Lisboa, que tem em mãos um projeto com o objetivo de “prever o que vai acontecer quando a fauna de vertebrados voltar a ser o que era”. Chegou há pouco para uma temporada de dois meses no terreno. “A vegetação em África é condicionada pelas condições climáticas e pela fauna que come os arbustos — como os kudus, as impalas ou os búfalos — que determinam se temos uma savana aberta ou fechada e quais as espécies que ganham e as que perdem”, explica. O projeto envolve investigadores de várias universidades portuguesas, mas também de Moçambique, da África do Sul e de Inglaterra.

No grupo de formandos deste “Sciencetelling bootcamp” está outro português, o paleontólogo Ricardo Araújo, bolseiro da National Geographic Society. O cientista de 32 anos tem passado temporadas nas províncias de Tete e Niassa, no Norte de Moçambique, onde colidera uma equipa que encontrou a mais extensa floresta fossilizada do continente africano e descobriu fósseis de protomamíferos que podem ter sido os antepassados de animais parecidos com os javalis, que viveram antes dos dinossauros há 250 milhões de anos.“Em Moçambique temos a maior floresta fossilizada de África, temos rochas que nos dão informações sobre uma das maiores extinções em massa do planeta e sobre os antepassados dos mamíferos”, conta entusiasmado. E acrescenta, como se estivesse a falar para uma plateia de investidores: “O passado é a chave para perceber o presente e prevenir o futuro”, sobretudo, sublinha, “quando estamos a viver a ameaça das alterações climáticas e a chamada sexta extinção das espécies”.

A investigação está a ser desenvolvida no âmbito do pós-doutoramento no Instituto de Plasma e Fusão Nuclear da Universidade de Lisboa, o que lhe permite utilizar a tomografia computadorizada. “Possibilita olhar para dentro da rocha, isolar o osso e assim perceber a morfologia dos animais”, explica Ricardo Araújo. Outro dos projetos que mais o entusiasmam é o da criação do primeiro laboratório de paleontologia de Moçambique, onde está a ajudar a formar a primeira geração de paleontólogos moçambicanos. “Assim estamos a criar conhecimento e podemos criar atração turística, o que é positivo para o país.”

nuno botelho

Atrair mais visitantes para ver as suas belezas naturais e ajudar o projeto de restauração do parque também é um dos objetivos do Parque Nacional da Gorongosa. Mas são poucos os turistas no final de setembro. “Conheço outros parques no Quénia e na África do Sul com muito mais animais, mas este é um parque especial porque está a renascer das cinzas”, explica Umberto, um italiano que trabalha como consultor de microcrédito para países em desenvolvimento e que decidiu passar parte da lua de mel na Gorongosa.

Além do casal italiano, integram o único grupo que faz um safari neste dia um cirurgião francês reformado, acompanhado do filho, um estudante de Medicina fascinado por animais, e um funcionário norte-americano do laboratório Edward O. Wilson que acompanha a irmã, que está de visita. Tirando as muitas variedades de antílopes ou os babuínos e os facoceros (javali-africano), que se encontram com relativa facilidade, os grandes mamíferos são difíceis de avistar. Pela manhã contaram-se inúmeras pivas, impalas, uribis e ainda abutres e outras aves, mas não se avistaram quaisquer elefantes ou leões, os ex-líbris da fauna deste parque. Fazer um safari na Gorongosa é uma espécie de jogo das escondidas quando o dia nasce ou está prestes a pôr-se. É tudo uma questão de sorte.

Percorrendo a savana ao entardecer, os olhos de águia do guia Castro Morais avistam dois elefantes a 200 metros de distância. Enquanto os turistas pegam nos binóculos ou semicerram os olhos para tentar ver o que se aproxima, o jipe sai da picada e avança pelo capim alto em direção aos animais. Cautelosos, os grandes mamíferos observam desconfiados. Dentro do jipe, os aventureiros retribuem um olhar fascinado, saboreando o que dizem ser “o prémio do dia”. Castro, o guia, não teria tal audácia se fossem fêmeas. Percebeu pela forma da cabeça que são machos. “Ui, as fêmeas são muito complicadas e não me poderia aproximar”, explica com uma gargalhada. Uma semana antes, uma fêmea deixara bastante amolgado um dos carros do safari porque o grupo não cumpriu as regras e fez barulho, o que irritou a chefe da manada. A tensão inicial desvanece-se.

A caminho do lago Urema — a joia da coroa do Parque Nacional da Gorongosa — avista-se ao longe mais um grupo de elefantes. Mas há fêmeas e Castro não arrisca aproximar-se. Chegados à velha “Casa dos Hipopótamos”, onde em tempos colonos e turistas bebiam cocktails, observa-se uma mistura de tons de verde, dourado e castanho que se estende por quilómetros na planície aluvial em redor. Com a ajuda de binóculos avistam-se flamingos ao longe e até o dorso de um crocodilo meio submerso, mas não há vestígios dos hipopótamos que dão o nome à casa colonial em ruínas nem de conflitos por perto.

O Expresso viajou a convite da National Geographic Society