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Japão avisa Reino Unido: se Brexit não for “lucrativo”, multinacionais vão bater em retirada

Koji Tsuruoka deixou o aviso após reunião entre o governo de May e investidores e empresários nipónicos em Londres

Steve Parsons - PA Images

“Se a manutenção das operações no Reino Unido não for rentável, e não apenas no caso do Japão, nenhuma empresa privada vai poder manter essas operações. É tão simples quanto isto

O representante diplomático do Japão em Londres avisou esta quinta-feira Theresa May que as multinacionais nipónicas que operam no Reino Unido vão abandonar o país se o acordo de Brexit “não for lucrativo” para essas empresas. O aviso foi feito por Koji Tsuruoka frente ao número 10 de Downing Street após uma reunião de empresários e investidores japoneses com o governo britânico na quinta-feira.

Foi assim que o embaixador do Japão deixou a descoberto o crescente nervosismo do Reino Unido sobre o potencial impacto da saída da UE nos negócios do país com fabricantes de carros, bancos e empresas de tecnologia, do Japão e de uma série de outros países.

“Se a manutenção das operações no Reino Unido não for rentável, e não apenas no caso do Japão, nenhuma empresa privada vai poder manter essas operações. É tão simples quanto isto”, declarou aos jornalistas. “Isto é uma fasquia alta que toda a gente deve manter presente.”

Em setembro de 2016, três meses depois do referendo que deu a vitória ao Brexit, o governo nipónico enviou uma carta a Theresa May na qual já lhe pedia que mantivesse o Reino Unido no mercado único e na união aduaneira para garantir a contínua circulação de trabalhadores entre o espaço europeu e o território britânico após a saída — avisando já na altura que as empresas japonesas poderiam bater em retirada por causa do Brexit.

O pedido, ecoado por outros dentro e fora do Reino Unido no último ano e meio, parece ter caído em saco roto. No início desta semana, o gabinete da primeira-ministra voltou a garantir que pretende abandonar todas as estruturas económicas do bloco e acabar com a livre circulação de pessoas, mudanças que, apesar dos desejos de May, só deverão ser concretizadas quando acabar o período de transição, a 31 de dezembro de 2020.

Aos jornalistas, o embaixador nipónico sublinnhou ontem que as empresas do seu país estão “a gostar de operar no Reino Unido” e que desejam ficar, mas que essa possibilidade depende exclusivamente dos resultados das negociações entre Londres e Bruxelas.

“A dúvida é se os acordos que vão ser alcançados entre os dois lados vão permitir às empresas nipónicas, que estão dispostas a continuar a operar no Reino Unido, concretizarem isso, algo que depende de uma série de fatores e não apenas de um único.”

Num momento em que May está a ser cada vez mais pressionada para esclarecer o que pretende realmente alcançar nesta segunda fase das negociações do Brexit, Tsuruoka acrescentou que as empresas japonesas precisam de “clareza, certezas e previsibilidade”.

Sobre as alegadas cisões dentro do governo britânico quanto ao resultado que se espera das negociações com a UE, o embaixador disse que o encontro em que participou não lhe deu a ideia de estar a lidar com um Executivo fraturado. “Parece-me que o governo do Reino Unido está firmemente unido quanto à liderança da primeira-ministra e à sua busca ambiciosa por um [acordo de] comércio livre e sem atritos com a UE.”

A garantia contradiz notícias recentes sobre o desacordo dos ministros numa reunião na quarta-feira dedicada a um dos pontos mais fraturantes do Brexit, a fronteira irlandesa. Segundo fontes citadas pelos media britânicos, a comissão de 11 membros esteve reunida apenas duas horas nesse dia e não conseguiu chegar a um consenso nem sobre a fronteira entre as duas Irlandas nem sobre questões de imigração.

No dia seguinte, o chefe do Tesouro, Philip Hammond, o ministro do Comércio, Liam Fox, e outros membros do gabinete de May reuniram-se com o embaixador Tsuruoka e com empresários e investidores do Japão, entre eles os chefes da Nissan, Honda, Toyota, Mitsubishi, da fabricante de comboios Hitachi, de empresas tecnológicas, de energéticas e de bancos.

Questionado sobre esse encontro, o porta-voz do governo britânico disse que serviu para fazer do Reino Unido “um destino ainda mais atrativo para o investimento nipónico e internacional, bem como para [melhorar] as relações de trocas e investimentos entre o Reino Unido e o Japão” e sublinhou que “a primeira-ministra reafirmou o compromisso do seu governo em assegurar uma nova parceria profunda e especial com a UE quando o Reino Unido abandonar a UE”.

Em comunicado, a fonte também garantiu que os presentes concordaram que “é importante haver um período de implementação [do acordo do Brexit] limitado no tempo que traga clareza e certeza aos cidadãos e às empresas” e que “é importante agir rapidamente nas negociações [com Bruxelas] para assegurar uma relação comercial com a UE que tenha o mínimo de impostos e de fricções possíveis durante esse período de transição.