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Internacional

Macedónia só na Grécia, dizem gregos em manifestações

SOPA Images/GETTY

Os protestos das últimas semanas foram desencadeados pelas negociações em curso entre Atenas e Skopje

Luís M. Faria

Jornalista

As guerras nos Balcãs, pelos vistos, não acabaram. O lado bom é que agora já não são travadas com balas e bombas, mas com negociações e manifestações. Nem por isso deixam de ser complicadas. A guerra de que agora se fala opõe a Grécia e a República da Macedónia, um país que fica a norte dela. No fim de semana e esta segunda-feira, milhares de gregos acorreram às ruas de Atenas, como há duas semanas tinham feito em Tessalónica, por causa de uma questão onomástica cujas implicações vão para além disso.

A Grécia não aceita que um seu vizinho possa ter o nome ‘Macedónia’. Uma província grega já se chama assim, e permitir que o país em causa – com o qual faz fronteira – use o mesmo nome é perigoso. Sobretudo quando a República da Macedónia exprime ambições de vir a unir todos aqueles que considera macedónios, muitos dos quais a viver não só na Grécia como noutros países vizinhos, incluindo a Bulgária.

Os protestos atuais foram desencadeados por conversações em curso entre os dois países, sob a mediação das Nações Unidas. O governo de Alexis Tsipras mostrou-se aberto a uma forma de compromisso, por exemplo permitindo a utilização de um nome composto, com ‘Macedónia’ junta a um qualificativo qualquer (geográfico, temporal). Mas muitos dos seus compatriotas não aceitam, temendo abrir a porta a abusos.

História e nacionalismos

A História, em sentido literal, dá-lhes razão. O antigo reino da Macedónia – do qual Alexandre Magno partiu para conquistar uma grande parte do mundo então conhecido, três séculos antes de Cristo – corresponde essencialmente à província grega que leva hoje esse nome. A atual República da Macedónia, na verdade, corresponde ao reino de Paeonia.

ALEXANDROS VLACHOS / EPA

Acontece que os romanos, quando conquistaram a Grécia, criaram um novo distrito no norte que juntava Paeonia e a Macedónia, usando este último nome para o designar. Séculos mais tarde, quando os otomanos se apossaram de largas partes daquilo que tinha sido o Império Romano, a área voltou a mudar de nome – ou melhor, passou a integrar a chamada Rumelia (o nome vem de ‘Rum’, que significa romano).

Já no século XX, com a decadência e o fim do Império Otomano e a ascensão/ressurreição/invenção de nacionalismos na Europa, a questão da identidade ‘macedónia’ voltou a colocar-se. Durante a II Guerra Mundial e posteriormente, a Grécia sempre temeu a possibilidade de lhe virem reclamar partes da sua região costeira da Macedónia. Pós-45, a futura República da Macedónia fazia parte da Jugoslávia, país essencialmente artificial, mantido inteiro apenas pelos constrangimentos da História e pela força do marechal Tito, que a governara durante quase quatro décadas.

O Aurora Dourada

O rastilho imediato para os atuais problemas foi a quebra da Jugoslávia em 1991, com o reacordar de velhos conflitos. As questões onomásticas passaram relativamente despercebidas numa altura em que havia guerras reais a matar gente, mas não desapareceram. Em 1993, o novo país teve de entrar nas Nações Unidas com o nome provisório de Antiga República Jugoslava da Macedónia (ARJM), por pressão dos gregos. Até hoje é essa a sua designação oficial em contextos internacionais.

Por resolver ficou a entrada do país na NATO e na União Europeia, que dependem do assentimento da Grécia. As negociações ora em curso são uma tentativa de tratar definitivamente o assunto, mas há muitas discordâncias entre os gregos. A maioria não aceita que o nome do seu vizinho inclua Macedónia seja sob que forma for. Acusam-no de se ter vindo a apropriar e figuras e símbolos históricos gregos, e de haver normas na sua constituição que apontam para ambições irredentistas.

“Se cedermos, deixamos as portas escancaradas para uma mentira histórica, entrar e ficar para sempre”, disse Mikis Theororakis. Aos 93 anos, o músico que foi um dos maiores símbolos da resistência à ditadura militar de 1967-74 ergueu a sua voz contra uma causa que, desta vez, não é perfilhada apenas, ou sobretudo, pela esquerda. Um dos grupos que mais se têm empenhado nos protestos é o Aurora Dourada, um partido de extrema-direita que espera lucrar com a situação.

Ele já tinha sido proeminente há duas semanas em Tessalónica, capital da Macedónia grega, na manifestação que terá reunido umas trezentas mil pessoas. Na altura houve quem declarasse uma ressurgência do nacionalismo. Como quer que seja, slogans como “Sangue, Honra, Aurora Dourada” não se vão calar tão cedo.