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E se você estiver numa Lista de Pessoas Desonestas?

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Um dia, tudo o que fizemos na internet voltará para nos assombrar. Na China, esse dia está próximo. O governo tem previsto para 2020 o nascimento de uma colossal base de dados onde toda a informação que os cidadãos tenham cedido voluntariamente na internet contribuirá para a atribuição de uma pontuação. Se for alta temos, por exemplo, acesso a melhores escolas para os nossos filhos; se for baixa podemos não conseguir sequer marcar viagens para fora do país. Isto não é ficção, já está a acontecer. Um dos mais conhecidos analistas na área do “crédito social” falou ao Expresso e diz que “mais cedo ou mais tarde todos vamos abdicar de uma grande parte da nossa privacidade”

Ana França

Ana França

Jornalista

Há um mundo a nascer onde todos seremos ainda mais transparentes e o trailer passa-se na China. As aplicações de pagamento imediato através do telemóvel tomaram conta das transações comerciais no país e acumulam uma quantidade impressionante de informação sobre as vidas dos cidadãos - informação essa que serve para criar um “ranking social” dentro da aplicação, oferecendo benefícios a quem tem mais pontuação.

Em breve também o governo chinês fará a sua própria tabela - e os pódios serão ocupados por aqueles que tenham atitudes e comportamentos em linha com a definição oficial de cidadão ideal. Se comprar pão integral e fraldas é uma mãe de família dedicada; se gasta dinheiro no póquer online ou aluga demasiados filmes é porque trabalha pouco e, por isso, é menos merecedor da confiança de determinada instituição de crédito.

Imagine que culpa deste sistema de avaliação social, o seu empréstimo pode ser negado e essa “nega” pode tornar-se pública dentro da aplicação e os seus amigos virtuais podem deixar de o ser na medida em que manter companhias “nefastas”, ou seja, com rankings baixos, também contribui para que o deles desça.

“Aqui isso já não é uma escolha sequer. Nós fizemos vários estudos junto da população que mais utiliza estes serviços e no geral, se há benefícios, as pessoas estão dispostas a abdicar da sua privacidade e informação pessoal. A facilidade com que aqui se aluga uma bicicleta ou se marca um voo usando pontuação social, faz com que as pessoas não se preocupem muito com as contrapartidas”, diz ao Expresso Zennon Kapron, presidente da Kapronasia, uma empresa de análise financeira focada no mercado asiático.

“A confiança torna tudo mais simples”

Tudo começou quando o Alipay e o WeChat, aplicações móveis tentaculares que permitem aos utilizadores pagar quase qualquer serviço - de dentistas a entrega de comida, passando por inspeções ao automóvel, mensalidades de ginásio e multas de estacionamento - tomaram conta do comércio na China. Juntas, estas aplicações detêm terabytes e terabytes de informação pessoal de milhões de chineses.

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Em 2013, Ant Financial, braço financeiro do Alipay, lançou o Zhima Credit - ou Sésamo Crédito, uma referência ao “Abre-te Sésamo” - uma aplicação dentro da Alipay que incentiva as pessoas a deixarem-se analisar por um algoritmo que destina a cada cidadão um número com três dígitos, que vai subindo e descendo conforme o que compramos, a celeridade com que pagamos as nossas dívidas, as instituições de solidariedade para as quais contribuímos, a nossa formação académica, as pontuações dos “amigos” que temos, entre outras coisas. Pontuar bem no programa dá acesso a uma série de benefícios, desde descontos em hotéis ou aluguer de carros até acesso a apólices de seguro mais vantajosas ou uma obtenção mais rápida de vistos para o estrangeiro.

Em 2014, menos de um ano depois do lançamento do crédito social Sésamo, o governo chinês anunciou a intenção de um “sistema de crédito social”. A ideia é criar uma base de dados de reputações, onde o valor de cada cidadão é atribuído conforme os passos virtuais que tenha dado na vida. Essa base de dados seria então posta à disposição de milhares de instituições públicas e privadas e o acesso a todo o tipo de serviços dependente dessa “pontuação”. O slogan do Alipay? “A confiança torna tudo mais simples”.

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No Ocidente uma base de dados do género poderia deixar-nos chocados mas na China, diz Kapron, as pessoas não se preocupam tanto com a sua privacidade porque, na verdade, sabem que já não a têm em outros níveis. “Isto é a China, as pessoas estão habituadas a abdicar de uma boa parte da sua privacidade. Em alguns países da Europa e nos Estados Unidos nós somos muito agarrados à nossa privacidade, é cultural, mas aqui é mais ou menos sabido que o governo, de qualquer forma, já tem acesso a quase tudo o que quer”, diz Kapron. O que estamos a ver acontecer na China, diz o analista, “vai acontecer em todo o mundo todo em 10, 15 anos”. Na China é mais fácil “porque é uma sociedade comunista, que se move toda numa direção”, diz

Uma forma de controlo menos visível?

O objetivo, bem explícito do documento do Conselho de Estado onde o governo detalha o plano, é “forjar um ambiente de opinião pública onde a confiança seja o valor mais importante” e de onde “a transparência e a sinceridade, tanto no âmbito governamental como comercial, saem reforçadas”. Mas à revista “Wired”, que escreveu recentemente um extenso artigo explicando a origem da criação destas bases de dados, Samantha Hoffman, uma analista do Centro de Estudos Estratégicos em Londres, considera que o “crédito social” servirá para “anular à priori comportamentos que possam pôr em risco o Partido Comunista”.

E já há quem esteja a sofrer as consequências de um dia ter tentado denunciar alguns podres da cúpula do poder chinês. O documento do governo faz de facto referência à possibilidade de que os cidadãos possam ser sancionadas nos seus créditos sociais por “espalhar rumores na internet”, por exemplo.

Tanto a “Wired” como o jornal canadiano “Globe and Mail” entrevistaram Liu Hu, autor de um blogue no qual eram frequentemente denunciados casos de corrupção política e que, em 2013, foi detido e acusado de difamação. A pena foi uma multa de cerca de 1250 euros, que por um erro na referência multibanco enviada ao jornalista para a liquidar, nunca terá chegado às autoridades.

Sem o contactarem para tentar saber o que se tinha passado, Liu passou a ser oficialmente um devedor ao Estado — o seu nome figura agora numa lista pública, a Lista de Pessoas Desonestas. Em 2017 o jornalista sentiu na pele a importância de ter uma fraca pontuação no rating social. Foi-lhe negado crédito para poder comprar casa e também reparou que não pode comprar viagens de avião.

Ou será a democratização do crédito?

Porém, para algumas das mais de 200 mil pessoas que, através do Alipay, aceitaram estar sob o escrutínio do crédito social Sésamo, este sistema pode não ser assim tão mau. Por um lado, isto é a democracia financeira a funcionar. É uma forma de que, por exemplo, as pessoas que vivem afastadas das grandes cidades ou os estudantes, tradicionalmente afastados do sistema bancário, possam aceder a benefícios que de outra forma não teriam.

O analista norte-americano diz que, até certo ponto, entende a China. “Há muita corrupção, muita gente que utiliza a sua posição para desviar fundos que seriam usados para benefício de todos por isso eu entendo a necessidade, na visão chinesa, da criação deste ranking. O mais importante é saber como será utilizado. Se for usado para reprimir quem protesta ou se afetar os Direitos Humanos então isso é um problema”.

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Kapron passa em revista o seu dia, para entendermos a quantidade de informação que pode estar, em breve, à disposição do governo. “De manhã fui tomar o pequeno almoço com um contacto comercial e utilizei o Didi, o equivalente da Uber aqui, e o meu trajeto fica registado. Logo depois utilizei o sistema de bicicletas partilhadas, duas vezes, através do meu telefone e também essas deslocações ficaram registadas. Pedi comida pela internet e fiz compras para casa, essas listas de compras estão gravadas. Nas últimas 24 horas eu produziu pelo menos 200 pontos de informação, desde localizações a registos de tempo, passando por preferências gastronómicas. Eu praticamente só como saladas e por isso espero ser visto como alguém que toma decisões responsáveis na vida”, brinca o analista.