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Trump proclama “novo momento americano” e pede união a seu favor

Chip Somodevilla

No seu primeiro discurso do Estado da União, o Presidente norte-americano adotou um tom aparentemente mais conciliatório mas voltou a apoiar-se em factos alternativos para aplaudir a sua própria admininistração. Também anunciou que vai manter a prisão extrajudicial de Guantánamo aberta

Um Donald Trump otimista e conquistador subiu ao palanque de um Congresso profundamente dividido na madrugada desta quarta-feira para proferir o seu primeiro discurso do Estado da União, um em que proclamou um "novo momento americano" graças às suas políticas e em que disse estar disposto a "estender uma mão aberta" aos democratas para que os dois partidos avancem com o seu programa político, em particular com a sua almejada reforma da imigração.

Num dos anúncios mais marcantes da noite, o Presidente republicano prometeu reverter uma diretiva da administração Obama para manter aberta a controversa prisão extrajudicial dos EUA na baía de Guantánamo, em Cuba. A outra nota forte do seu discurso foi o salto da visão apocalíptica que delineou na tomada de posse há um ano, quando prometeu salvar uma América a saque e mergulhada numa "carnificina", e o que agora diz ser o seu objetivo — "construir uma América segura, forte e orgulhosa".

"Nunca houve um momento melhor para começar a viver o sonho americano", declarou aos legisladores no seu discurso de uma hora e 20 minutos. Cerca de 40 milhões de espectadores terão assistido ao antecipado momento na televisão, sintonizando o discurso para ouvirem Trump adotar o que pareceu ser um tom mais conciliatório em defesa de "uma equipa, um povo e uma família americana".

Essa família não integra os familiares de imigrantes que vivem legalmente nos Estados Unidos, pessoas que o líder quer manter fora do território norte-americano. Assim ficou subentendido quando, sob os apupos de alguns democratas, anunciou que pretende cortar o financiamento ao programa que permite a chamada "imigração em cadeia", na prática a reunificação de famílias separadas.

Ainda sobre a imigração e os planos para reformar o setor, Trump pediu união ao Congresso, em particular aos democratas, para que cooperem com o partido no poder depois de um primeiro ano turbulento na Casa Branca. "Esta noite estendo uma mão aberta para trabalhar com membros dos dois partidos, Democratas e Republicanos, para proteger os nossos cidadãos, de todas as origens, cores e credos."

De fora ficam pessoas como "os mexicanos" que, durante a campanha, classificou como "violadores e traficantes" e que continua a querer travar com um muro na fronteira sul dos EUA, contra a forte oposição da comunidade hispânica dos EUA. A ideia de que vai avançar com essa barreira não se perdeu: à bandeirola branca acenada nas caras dos democratas seguiu-se um pedido para que os legisladores aprovem um pacote de 1,5 biliões de dólares (1,21 biliões de euros) para reformular as leis de imigração e avançar com a construção de infraestruturas como também prometeu durante a campanha.

A ideia, avançada num discurso bem ensaiado e sem desvios a assinalar, é reconstruir as "estradas e outras infraestruturas" dos EUA. Ficou-se por aí, sem explicar o que pretende fazer a esse nível ou como pretende aplicar o dinheiro que pediu ao Congresso salvo construir o muro na fronteira com o México.

A marcar o discurso estiveram uma série de elogios que proferiu a si próprio. Disse que 2,4 milhões de postos de trabalho foram criados ao seu leme e que a taxa de desemprego atingiu o seu nível mais baixo dos últimos 17 anos. Em particular, Trump tentou atribuir a si mesmo a descida do desemprego entre a população afro-americana — um dos vários "factos alternativos" que vendeu no discurso, segundo uma análise do site Vox, perante uma bancada esvaziada de cerca de 50 representantes e senadores do caucus negro do Congresso.

Aucongratulando-se igualmente pelo boom económico que diz ter conquistado, numa medida diametralmente oposta à sua taxa de aprovação (em queda desde a tomada de posse e por ele ignorada no discurso), o Presidente manchou o tom otimista no campo económico para contar histórias de crimes cometidos pelo gangue MS-13, um dos argumentos que apresentou em defesa de mais controlos à imigração.

Também voltou a defender a nuclearização da América por causa da "depravada" Coreia do Norte, aproveitando o momento na ribalta internacional para avisar que "a busca imprudente" de Pyongyang por mísseis nucleares "pode, muito em breve, ameaçar a nossa nação". "Estamos a fazer uma campanha de máxima pressão para impedir que isso aconteça", garantiu. À sua frente, sentado na primeira fila, ladeado por outros convidados do Presidente, estava Ji Seong-ho, desertor do regime norte-coreano que elevou as suas muletas no ar em sinal de vitória.

Entre os convidados sentou-se Melania Trump, a primeira-dama que não era vista em público desde que foi revelado que Trump pagou 130 mil dólares a uma atriz porno para que não divulgasse o caso extraconjugal que terão mantido logo após o nascimento de Baron, o filho mais novo do Presidente, o único de Melania.

Coincidência ou não, horas antes do discurso, a atriz em causa veio garantir publicamente que aquilo que revelou numa entrevista em 2006 — e que levou o "Wall Street Journal" a apurar o acordo de confidencialidade assinado por ela com um advogado do então candidato à presidência dez anos depois — não é verdade. O caso amoroso, garantiu, "nunca aconteceu". (Dias antes tinha sido a vez de Nikki Haley, nome verdadeiro Nimrata Randhawa, a embaixadora dos EUA na ONU, vir garantir que não está a ter um caso com o Presidente.)

Ignorando a mais longa guerra dos EUA no estrangeiro, no Afeganistão, abordada tanto por Barack Obama como por George W. Bush nos seus discursos do Estado da União, Trump também atribuiu a si próprio a reconquista de território sírio e iraquiano ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), antes de prometer: "Vamos continuar a nossa luta até que o ISIS [Daesh] seja derrotado."

Para surpresa de alguns e sem surpresas para outros tantos, o Presidente não fez referência à Rússia a não ser para colocar o país lado-a-lado com a China, os dois grandes "rivais" dos EUA. Também nada disse sobre os avanços da investigação de Robert Mueller ao alegado conluio entre a sua equipa de campanha e o Kremlin.

Os democratas, pela voz do congressista Joseph Kennedy III, sobrinho-neto de Jonh F. Kennedy, aproveitaram a própria ideia de um "novo momento americano" para culparem Trump pelo "país fraturado" entregue a uma administração "caótica", com "muitos americanos [que] se sentem esquecidos e ignorados".

"Muitos passaram o último ano ansiosos, zangados e com medo", declarou o legislador de 37 anos, de frente para os 'sonhadores', jovens imigrantes sem documentos que chegaram aos EUA em crianças e que o Presidente e os democratas continuam a usar como moeda de troca nas negociações para financiar o governo federal. "Os bullies até podem dar murros e deixar marcas. Mas nunca, nem uma única vez na História dos EUA, conseguiram igualar a força e o espírito de um povo unido em defesa do seu futuro."