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Internacional

Stephen foi traficado para o Reino Unido e agora pode ter de voltar ao país que já não é o dele

Stephen não teve uma infância feliz. Stephen não teve uma adolescência feliz. Stephen pode vir a não ter uma vida adulta feliz porque pode ter de voltar ao seu país de origem e isso significa voltar a um sítio de traumas e dor

Stephen (nome fictício) é vietnamita. Stephen saiu do país onde nasceu à procura de uma vida menos complicada. Aos 10 anos, a viver no Reino Unido, foi vítima de tráfico humano e gangues vietnamitas forçaram-no a plantar canábis. Tornou-se, aí, num escravo moderno. Stephen tem agora 19 anos e, através de um centro de acolhimento, encontrou uma nova família - mas pode ser por pouco tempo porque o Departamento dos Assuntos Internos britânico decidiu que Stephen tem de voltar ao país de origem. Esta é a história do rapaz que nunca teve nada no Vietname e agora está prestes a tornar a ir para a terra que nada lhe deu.

A vida de Stephen foi contada pelo britânico “The Guardian” e não se sabe o que lhe poderá acontecer. Stephen tinha 10 anos quando chegou ao Reino Unido na parte de trás de um camião depois de uma longa viagem a pé e noutros camiões desde Hanoi, no Vietname. Chegado a solo britânico, o rapaz foi fechado em terraços de casas que depois se tornaram em quintas para plantação de canábis.

Com 16 anos, Stephen foi detido numa operação policial e as autoridades britânicas reconheceram-no como uma vítima de tráfico humano. A decisão foi imediata: levá-lo para um centro de acolhimento para ter uma nova família que cuidasse dele - que conseguiu. Com novos pais e longe da vida que teve a plantar canábis, Stephen aprendeu a falar fluentemente inglês e a cozinhar - os vídeos no YouTube foram uma ajuda e um incentivo para querer ser, daqui a uns tempos, chef de cozinha. Mas o Departamento dos Assuntos Internos britânico pretende que ele volte para o país ao qual Stephen virou as costas porque diz que o rapaz não é um caso de asilo válido. Esta quinta-feira, Stephen vai entregar uma carta a Amber Rudd, secretária de Estado daquele departamento - que foi acusado de crueldade devido à decisão que tomou em relação a ao rapaz. Stephen vai pedir ajuda à secretária de Estado. Mais de 100 mil britânicos ajudaram-no ao assinarem uma petição que pede a permanência dele no Reino Unido.

As cultivações de canábis que permanecem um mistério

Os detalhes da história de Stephen mostram as condições dos casos de cultivação de canábis no Reino Unido. Apesar destas quintas não serem novidade, permanecem um mistério porque quem lá trabalha tem medo de falar porque pode sofrer represálias dos traficantes - ou a família. Mas Stephen não tem família e daí ter decidido falar com o “The Guardian” sobre a história de vida dele.

Abandonado à nascença e depois de ficar orfão aos nove anos, após a sua mãe adotiva ter falecido devido a um cancro, Stephen viajou de uma aldeia rural no Vietname para Hanoi para trabalhar a limpar sapatos nas ruas e a vender jornais. Mas rapidamente os traficantes encontraram-no e venderam-lhe uma vida de felicidade no Reino Unido. Mentiram-lhe sobre uma vida que nunca iria ter nas mãos deles. Saiu do Vietname e foi parar à Rússia, onde foi vendido a outro gangue de traficantes. Depois, viajou para a Polónia e, mais tarde, para o norte de França.

As viagens eram feitas quase sempre à noite para não serem vistos. Quando queriam que Stephen andasse mais depressa, batiam-lhe - por vezes com as mãos, por vezes com paus. Na reta final da viagem, foi colocado na parte de trás de um camião com mais quatro pessoas e foi levado para o Reino Unido. Depois, levaram-nos à força para uma casa cujas divisões tinham sido convertidas a plantações de canábis. Foi o início de algo que Stephen nunca quis. Tinha 12 anos quando se tornou num escravo moderno - trabalhava sem nada receber.

Stephen não é o único que é forçado a trabalhar em nome de nada e a organização britânica de anti-tráfico humano - Ecpat - espera que a história de Stephen e a revolta que está a causar a tantos britânicos possa desencadear uma reforma no sistema que defende vítimas de tráfico humano. “As crianças identificadas como vítimas de tráfico humano são as mais vulneráveis na nossa sociedade e precisam de proteção a longo prazo”, escreveu a organização numa carta enviada ao Departamento dos Assuntos Internos britânico.

Stephen não quer voltar para o Vietname porque já tem uma vida no Reino Unido e no Vietname existe nada para ele, só lembranças de uma infância que quer esquecer. A mãe adotiva também não quer que o rapaz vá embora: “Ele é um membro da nossa família e haveremos de ter sempre um espaço para ele na nossa casa.”