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Puigdemont: da investidura remota à desistência por sms

Miquel Llop/NurPhoto via Getty Images

Puigdemont: da investidura remota à desistência por sms

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Carles Puigdemont queria ser investido presidente da Catalunha à distância. Existem, defendeu o ex-líder do governo regional, meios telemáticos que permitem essa situação, a qual reconhecia não ser ideal, mas considerava, ainda assim, melhor do que fazê-lo “a partir da prisão”. Hoje, porém, aparelhos de comunicação à distância expuseram o desânimo de Puigdemont, que admitiu a um companheiro de partido que a estratégia da Moncloa [sede do Executivo central] venceu e que doravante se dedicaria apenas a “salvar a honra”. O processo separatista “acabou”, escreveu o homem que se sente “sacrificado pelos seus”.

Estas palavras contrastaram muito com as de um vídeo que o ex-líder catalão divulgou ontem, assegurando que conservava o firme propósito de se manter no cargo. “Não há outro candidato nem outra combinação aritmética possível” para formar o próximo governo regional, afirmou o homem que o primeiro-ministro Mariano Rajoy depôs em outubro, ao abrigo do artigo 155 da Constituição. Puigdemont falou depois de o Tribunal Constitucional ter rejeitado um recurso seu contra a negativa do Supremo espanhol em deixá-lo ser empossado à distância (que já fora previamente corroborada pelos serviços jurídicos do parlamento catalão).

Esta quarta-feira manhã, um programa de bisbilhotices do canal Telecinco revelou mensagens que Puigdemont trocou com Toni Comín, que tinha a pasta da Saúde no seu governo destituído. Captados pelas câmaras em Lovaina, terça à noite, os sms (na aplicação Signal, a preferida de Julian Assange, líder da WikiLeaks) admitem que se assiste aos “últimos dias da Catalunha republicana” e que “o plano da Moncloa triunfa”. Puigdemont escreve mesmo, sempre em idioma catalão, que espera “que seja verdade e que graças a isto possam sair todos da prisão, caso contrário o ridículo histórico é histórico”.

Comín fugiu para a Bélgica, como o seu antigo chefe, para evitar a prisão quase certa, acusados que estão ambos de rebelião, sedição e peculato. Atrás das grades estão dois membros do governo deposto, incluindo o número dois do governo caído, Oriol Junqueras, também líder da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), em cujas listas Comín concorreu às eleições regionais de 21 de dezembro passado.

Outros presos preventivos são Joaquim Forn, que tutelava a Administração Interna, e os “dois Jordis”, Sánchez e Cuixart, líderes, respetivamente, das associações cívicas separatistas Assembleia Nacional Catalã e Òmnium Cultural. Sánchez também foi eleito em dezembro. A manutenção da prisão preventiva dos acusados tem sido criticada pelo seu caráter extremo, dado que todos os dirigentes em causa apelaram sempre a manifestações pacíficas e foram voluntariamente entregar-se à justiça, quando para tal convocados.

Candidato único

No escrutínio de dezembro os independentistas somaram maioria de deputados (70 em 135), entre ERC (32), Juntos pela Catalunha (JxC, 34, encabeçados por Puigdemont) e Candidatura de Unidade Popular (CUP, extrema-esquerda, 4 assentos), apesar de não terem a maioria dos votos (47,5%). Daí a pretensão de Puigdemont de ser reconduzido; o seu nome foi o único apresentado pelos partidos ao novo presidente do parlamento catalão, Roger Torrent (ERC).
O partido mais votado nas regionais foi o Cidadãos (C’s, centro unionista, 36 deputados), mas a sua líder na Catalunha, Inés Arrimadas, reconheceu não ter possibilidades de ser investida. Também do lado espanhol, o Partido Socialista obteve 17 assentos e o Partido Popular (direita, chefiado por Rajoy) 4. Com 8 ficou o Catalunha em Comum Podemos, cuja posição intermédia é contrária à independência da região mas favorável a um referendo legal, acordado com Madrid.

Face à negativa dos juízes quanto a uma tomada de posse à distância de Puigdemont, Torrent adiou o debate parlamentar de investidura, que legalmente devia ter começado ontem e terminado hoje. A mesa do parlamento pediu aos serviços jurídicos que esclareçam o impacto que o adiamento terá nos prazos legais, sendo certo que a partir da primeira votação de investidura há dois meses para chegar a uma solução, sob pena de novas eleições.

Invasão da privacidade

Puigdemont reagiu com indignação à divulgação das mensagens, que confirmou serem suas. Confessando-se “humano”, explicou hoje: “Há momentos em que também duvido”. Insiste, contudo, em que é presidente. “Não me acobardarei nem retrocederei, por respeito, gratidão e compromisso com os cidadãos e o país”. Invocando a sua antiga profissão de jornalista, recorda que “há limites, como a privacidade, que nunca se deve violar”.

A aparente determinação em continuar a lutar pelo cargo choca de frente com o que escrevera nas mensagens privadas reveladas pela Telecinco: “Não sei quanto me resta de vida (espero que muita!), mas dedicá-la-ei a pôr em ordem estes dois anos [ascendeu a presidente em janeiro de 2016] e a proteger a minha reputação. Fizeram-me muito mal com calúnias, rumores, mentiras que aguentei por um objetivo comum. Isso agora caducou e cabe-me dedicar a minha vida à defesa própria”.

Comín assegurou que os sms foram retirados de contexto para fomentar “a divisão do independentismo” e que a “revelação de segredos (obter subrepticiamente conversas de terceiros) é delito em Espanha e na Bélgica”. Garante que vai agir judicialmente contra a estação televisiva.

Certo é que o campo independentista está dividido. Se os membros da lista JxC, patrocinada pelo Partido Democrata Europeu Catalão de Puigdemont, se obstinam em que não há alternativa a este último, da ERC começam a surgir sinais de impaciência. “Se for necessário, haverá que sacrificar Puigdemont”, afirmou há dias Joan Tardà, que representa a ERC no Congresso dos Deputados (parlamento espanhol). “Ninguém é insubstituível”, reforçava o seu colega Gabriel Rufián. Até houve rumores de que Puigdemont poderia reinventar-se como eurodeputado, em 2019. O alvo da frase reagiu nos polémicos sms: “Suponho que é claro para ti [Comín] que isto acabou. Os nossos sacrificaram-nos. Pelo menos a mim. Vocês vão ser consellers [membros do governo regional] (espero e desejo), mas eu já estou sacrificado, como sugeria Tardà”.

Qualquer solução vai passar por Torrent, o homem cujo discurso inaugural agradou pela moderação e pelo abandono do tom unilateral que os separatistas tinham mantido até à aplicação do artigo 155 e colocado em prática no referendo à margem da lei e na proclamação da independência, em outubro. A prioridade de todos os quadrantes parece ser o levantamento daquele artigo constitucional e a formação de um governo viável na Catalunha, restaurando a sua autonomia, muito prezada pelos 7,5 milhões de habitantes.

Embora haja muito quem tema ser acusado de traição à causa, urgem na Catalunha doses generosas de pragmatismo e concertação. Parte da ERC dá sinais de se mover nessa direção, também apontada pelo antecessor de Puigdemont no governo regional, Artur Mas, que se afastou da política com palavras de realismo. “Pactismo” e “possibilismo” sempre foram tradição entre Madrid e Barcelona, rota de parte a parte na última meia dúzia de anos mas desejavelmente recuperáveis para bem de uma e de outra.