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Porque é que nada há de mudar? Porque “a cultura do abuso, e eu odeio dizer isto, de facto resultou”

d.r.

Mais ou menos demissões, mais ou menos medidas de prevenção, mais ou menos pedidos de perdão seguidos de prisão, como a prisão do antigo médico Larry Nassar, por abuso sexual de dezenas de ginastas norte-americanas. Para Joan Ryan, antiga jornalista desportiva, umas das primeiras nos EUA aliás, e autora de um livro sobre os abusos a quem eram sujeitas as ginastas de alta competição que levou a federação a adotar novas medidas de prevenção, tudo isso interessa muito, mas tudo isso também se resume numa escolha que a Federação de Ginástica dos EUA terá fazer, entre “atletas saudáveis ou medalhas”. E não é certo, nada certo, por qual das hipóteses vão optar

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Conheceu os bastidores da ginástica de alta competição nos EUA como poucos e denunciou-os como poucos. Denunciou a loucura dos treinos a que eram submetidas as ginastas, todas elas muito novinhas, em termos de horas e do que era exigido a cada uma delas - quando se queixavam de uma dor, o treinador desvalorizava, dizia-lhes que estavam a ser “fracas” e preguiçosas” e que a dor era imaginária e “obrigava-as a voltar para a barra”. Denunciou o stress e a ansiedade e denunciou as perturbações alimentares que surgiam depois de as ginastas ouvirem os treinadores dizer-lhes que, com mais um dois quilos em cima, estavam “gordas” e “feias”. Isto foi em 1995. Há muito tempo, é verdade, tempo suficiente para algo ter mudado. E esperávamos que de facto tivesse mudado. Mas pelos vistos estávamos a exigir demasiado.

Numa entrevista ao jornal britânico “The Guardian”, disse que, além da ginástica, não imagina outro desporto onde um escândalo como este pudesse ter acontecido. Não imagina mesmo?
Há muitas razões para eu ter dito isso e muitas razões para isto ter acontecido durante tanto tempo e a tantas raparigas. Em primeiro lugar, estamos a lidar sobretudo com ginastas muito jovens, mais jovens do que em qualquer outra modalidade, ginastas que se tornam as melhores do mundo quando ainda são crianças. Muitas destas atletas olímpicas têm atualmente 16, 17, talvez 18 anos, não mais do que isso, e treinam a um nível extremo desde os oito ou nove anos de idade. São, por isso, muito mais vulneráveis do que qualquer outro atleta e confiam muito mais nos adultos. Por outro lado, treinam em ambientes muito mais isolados, dentro de ginásios onde só estão elas e os treinadores. A maioria destas raparigas não frequenta a escola em regime normal - aprendem apenas durante algumas horas ou têm aulas online ou têm tutores. Vivem de facto num mundo muito diferente do nosso, acompanhadas e orientadas por treinadores que são, também na sua maioria, homens, sendo muitos deles verdadeiramente nocivos e agressivos. É o caso de Bela Karolyi e da sua mulher, Martha Karolyi [ambos são treinadores, romenos, tendo ele ficado conhecido por treinar Nadia Comaneci, a famosa ginasta romena que, pela primeira vez na história da ginástica, conseguiu um 10 perfeito nos Olímpicos de 76].

Bela Karolyi ajudou várias ginastas a pisar os pódios mundiais várias vezes, como Nadia Comaneci, Ecaterina Szabo, e Mary Lou Retton

Bela Karolyi ajudou várias ginastas a pisar os pódios mundiais várias vezes, como Nadia Comaneci, Ecaterina Szabo, e Mary Lou Retton

David Madison/ getty

É sobretudo sobre eles, Bela Karolyi e Martha Karolyi, de que fala em “Little Girls in Pretty Boxes: The Making and Breaking of Elite Gymnasts and Figure Skaters”, livro publicado em 1995.
Exato. Eu explico-lhe o que se passa neste tipo de treinos. Imagine que uma atleta sente uma dor no joelho e queixa-se ao treinador, pede-lhe para parar porque tem dores muito fortes. A resposta do treinador, neste caso, será obrigá-la a voltar para barra. Acusa-a de estar a ser fraca e preguiçosa e de estar a imaginar dores que não existem. Diz-lhe ‘volta imediatamente para a barra’. E ela vai voltar imediatamente para a barra. Mas há mais situações. Se uma ginasta engordar um quilo ou dois, por exemplo, o treinador vai ofendê-la, dizer-lhe que está gorda e que está feia e que parece um autêntico Pillsbury Doughboy [mascote da empresa de produtos alimentares Pillsbury que durante anos apareceu na televisão de milhões de norte-americanos com a sua barriga redonda, lenço ao pescoço e chapéu de pasteleiro na cabeça]. Vai dizer-lhe que tem de parar de comer tanto, sendo que a ginasta já mal come e sente-se com fome a toda a hora. Algo que obviamente o treinador não entenderá e dirá, uma vez mais, que é só preguiça e fraqueza. Sei isto porque escrevi sobre isto e ouvi esta história dezenas de vezes. Perante isto, as ginastas acabam por aprender a negar o que realmente sentem e desligam-se do seu próprio corpo e da sua mente de muitas formas.

Que foi precisamente o que aconteceu com as vítimas de Larry Nassar.
Sim. A dada altura, começaram a questionar a sua própria realidade e experiência. Falaram com os pais e com outros adultos quando começaram a sentir-se desconfortáveis com o médico, quando começaram a sentir-se violadas, mas foram de imediato acusadas de não saber distinguir entre tratamento médico e abuso sexual.

Mas considera que isto só acontece - ou acontece sobretudo - na ginástica e em particular na ginástica olímpica? Dou-lhe um exemplo: quando era nova, assisti a uma situação semelhante antes de um treino, embora menos grave. Tratava-se de uma equipa pequena de uma cidade ainda mais pequena.
Eu acredito que possa acontecer noutros desportos, que possa ser mais geral. Na verdade, acho que em qualquer situação em que haja raparigas novas e treinadores do sexo masculino isto é sempre, sempre uma possibilidade - os pais muitas vezes não estão cientes disto e as atletas também não. Porém, tenho dúvidas de que um escândalo desta dimensão - que envolveu tantos abusos durante tantos anos - pudesse acontecer, digamos, na natação. Os nadadores e as nadadoras normalmente estão mais integrados na sociedade e vão mais à escola. Mais facilmente vão contar aos pais o que está a acontecer e mais facilmente os pais vão acreditar neles.

Ronald Martinez/getty

O livro em que fala sobre os bastidores da ginástica olímpica foi publicado em 1995. Alguma coisa mudou desde então? Ainda há uma “cultura do abuso”, conforme denunciou então? As ginastas ainda sofrem como sofriam há uns anos?
Não consigo responder a isso porque, de facto, já não escrevo sobre ginástica. Depois de o meu livro ser publicado, ainda cobri os Jogos Olímpicos de 96, mas depois afastei-me da modalidade. Não tenho informações suficientes. No entanto, basta ver o que aconteceu agora, com este médico, para perceber que, de facto, ainda há uma cultura muito, muito doente. Quando ouvimos os testemunhos daquelas raparigas, percebemos que há alguma coisa aqui que tem de mudar drasticamente. Porque nada verdadeiramente mudou desde que o meu livro foi publicado. Continua a ser necessário dar uma voz às ginastas, porque elas claramente ainda não têm voz.

Mas sabe se todos aqueles problemas que expôs no seu livro, como o stress e a ansiedade, o desgaste físico e as perturbações alimentares, se mantêm?
Como lhe disse, neste momento não tenho informações suficientes para responder a isso. Eu ouvi testemunhas de ginastas que treinavam com o casal Karolyi, no centro desportivo no Texas. Depois disso, continuaram a haver queixas contra eles e contra a sua abordagem às ginastas, contra os abusos e o bullying. Suponho que nada tenha mudado também nesse aspeto.

Depois de o livro ter sido publicado, a Federação de Ginástica dos EUA implementou uma série de medidas para “reforçar a segurança das atletas”. O facto de isto ter acontecido significa que essas medidas ou foram insuficientes ou não foram implementadas de todo?
Essa é verdadeiramente a questão, não é? De facto, quando o livro saiu, a federação começou por descredibilizá-lo e também às ginastas, dizendo que elas tinham fracassado e que estavam apenas a arranjar desculpas para justificar esse fracasso. Depois lá reconheceram que havia um problema e adotaram algumas medidas - publicaram um manual para os pais, para ajudá-los a perceber melhor o meio e poderem ajudar os seus filhos, a Federação Internacional de Ginástica [IFG, na sigla em inglês] alterou para 16 anos a idade mínima de participação em Jogos Olímpicos (antes era 15 anos), na esperança de ter ginastas mais velhas e assim, à partida, mais seguras, e os treinadores passaram a ser obrigados a submeter-se a aulas e testes antes de entrarem para os grandes ginásios do país. Se isto foi mesmo implementado? Não sei. Se foi exigido aos treinadores mais preparação? Não sei. Se houve maior controlo nos ginásios? Duvido muito. As investigações em curso, iniciadas por causa deste último caso envolvendo o antigo médico, vão dar resposta precisamente a isso. Mas a minha opinião é que será mesmo muito difícil mudar esta cultura.

Jared Wickerham/ getty

Porque é que há de ser assim tão difícil?
Por duas razões. Uma é que a cultura que eles têm, e eu odeio dizer isto, de facto resultou. Os Estados Unidos ganharam medalhas de ouro e têm ginásios mesmo muito bons. Foram capazes de construir e manter cinco ou seis ginásios incríveis que permitiram a milhares de ginastas conquistar medalhas de ouro. A federação há de confrontar-se com uma questão que é ‘se tornarmos isto mais saudável, isso significa que vamos ter menos medalhas?’. E a verdade é que, a curto prazo, se calhar vão ter menos medalhas. Por outro lado, esta cultura que denunciei no meu livro - e que persiste - não se cinge apenas aos ginásios maiores. Acontecem em dezenas e dezenas de pequenos ginásios em todo o país. Como é que se fará o controlo desses ginásios e se responsabilizará cada treinador pelo seu comportamento nocivo, pelas muitas horas de treino a que as ginastas são submetidas e pelas suas perturbações alimentares? Será mesmo muito difícil. No entanto, tenho esperanças de que isso aconteça.

Já antes tinha havido denúncias e nada mudou. Porque é que haveria de mudar agora?
Porque desta vez foram as próprias ginastas que se chegaram à frente para denunciar. Foram as próprias ginastas, até agora tão focadas e concentradas apenas numa coisa - em vencer -, que protagonizaram as denúncias e estão a lutar para que alguma coisa mude, estão focadas em mudar a ginástica. É por isso que tenho esperança de que desta vez seja diferente.

No caso concreto deste médico, houve queixas feitas à Universidade Estadual de Michigan, mas ninguém fez absolutamente nada. O que explica esse silêncio?
É absurdo que ninguém tenha feito nada, não é? Aparentemente, toda a gente confiava muito neste médico, que para mim, de resto, é um verdadeiro psicopata. Nunca o conheci, mas é esta a minha opinião sobre ele. Tinha uma reputação incrível, era adorado pelas ginastas. Acho que tanto o presidente da Federação como todas as outras pessoas a quem chegaram queixas acreditaram de facto nele ou simplesmente foi mais fácil, para cada uma destas pessoas, acreditar nele.

No livro “Little Girls in Pretty Boxes”, publicado em 1995, Joan Ryan expôs uma série de abusos a que estavam sujeitas as ginastas norte-americanas

No livro “Little Girls in Pretty Boxes”, publicado em 1995, Joan Ryan expôs uma série de abusos a que estavam sujeitas as ginastas norte-americanas

A Federação de Ginástica dos EUA anunciou entretanto uma série de reformas para prevenir casos semelhantes, incluindo a adoção de medidas graves contra aqueles que omitirem abusos de que tenham conhecimento. Acha que será suficiente?
Essa e as restantes medidas são positivas, mas acho que não será nem de perto nem de longe suficiente. Não se pode simplesmente mudar as regras e achar que as regras vão resolver o problema. É preciso descobrir uma forma de garantir a sua aplicação em cada ginásio na América. E eu não sei como é que isso se faz. A boa notícia no meio de tudo isto é que haverá uma mudança de pessoas dentro da Federação [o comité olímpico norte-americano deu seis dias a todos os diretores da federação para se demitirem, já depois de o presidente, Steve Penny, ter apresentado a sua demissão]. Serão nomeadas novas pessoas, pessoas que não têm uma agenda nem querem aproveitar-se dos atletas para fazer dinheiro ou para alcançar uma determinada reputação. Haverá finalmente alguém a zelar pelo bem-estar destas atletas. E isso é muito, muito importante, assim como é importante, repito, chegar até aos treinadores e mudar a forma como eles treinam estas raparigas.