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Exercício de matemática sem solução (única) torna-se viral na China

Gerhard Joren/GETTY

Nas redes sociais multiplicaram-se as críticas e as piadas ao exercício dirigido a pré-adolescentes. Mas houve também quem encontrasse uma solução. Escola diz que objetivo era “avaliar a consciência crítica” dos alunos

Diz-se que na Matemática, como ciência exata, só há uma resposta possível. Mas na China, um exame da disciplina destinado a alunos do 5.º ano, deu origem a várias dúvidas e muitas respostas. O motivo? Aparentemente era um problema sem solução. Pelo menos óbvia.

“Se um navio tivesse 26 ovelhas e 10 cabras a bordo, quantos anos tem o capitão do navio?”, podia ler-se no enunciado dirigido a alunos de 11 anos. O exercício constituiu uma dor de cabeça para os estudantes de uma escola do distrito de Shunqing, que tentaram dar voltas ao raciocínio para encontrar uma resposta.

“O capitão tem pelo menos 18 anos porque ele tem que ser um adulto para estar ao leme do navio”, respondeu um aluno, citado pela BBC. “O capitão tem 36 anos, porque 26 + 10 é 36 e o capitão queria que eles somassem sua idade”, escreveu outro. “A idade do capitão é ... Eu não sei. Não consigo resolver isto”, concluiu, por sua vez, um terceiro aluno, que desistiu de decifrar o enigma.

Rogério Martins, docente do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT – UNL), defende a pertinência do exercício. “Pena é que nos testes de Matemática estas questões não sejam mais frequentes”, afirma o professor ao Expresso, lamentando que os alunos sejam muitas vezes treinados a responder de “forma acrítica”.

“Esta questão em particular é plausível, mas claro que não tem uma resposta objetiva. Talvez a resposta mais natural seja: 'Os dados do problema não permitem tirar qualquer conclusão sobre a idade do capitão do navio', mas haveria muitas outras respostas possíveis”, explica Rogério Martins.

Já a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) critica o exercício, defendendo que tal como a questão se encontra formulada não é possível obter uma resposta nem tão pouco se pode considerar que se trate de um problema de Matemática. “Causa naturalmente alguma apreensão a utilização de um enunciado propício a estudos de natureza sociológica/ pedagógica num exame oficial de Matemática”, refere a SPM.

“Existem dois pressupostos fundamentais para uma aplicação pertinente da Matemática ao mundo real: conhecimento suficiente sobre o sistema que se pretende estudar, por forma a que seja suscetível de ser modelado matematicamente, e uma teoria matemática séria e estruturada que permita tratar eficientemente esse mesmo modelo. Na questão em apreço, estas dimensões estão ausentes”, acrescenta a SPM.

As críticas e respostas possíveis

Nas redes sociais multiplicaram-se as críticas e as piadas ao exercício dirigido a pré-adolescentes. Mas houve também quem tentasse encontrar uma solução: “O peso total de 26 ovelhas e 10 cabras é de 7.700 kg, com base no peso médio de cada animal. Na China, para estar ao leme de um navio com mais de 5.000 kg de carga é preciso ter uma licença de barco há cinco anos. E se a idade mínima para obter uma licença de barco é de 23, então o comandante tem no mínimo 28 anos”, escreveu um internauta no microblogging chinês Weibo.

A direção da escola e o Departamento de Educação do distrito de Shunqing garantem que não se tratou de um erro e que o objetivo da pergunta era “avaliar a consciência crítica e a capacidade de pensar de forma independente.”

Rogério Martins admite concordar com a estratégia desta escola, sublinhando que um dos problemas do ensino da Matemática foi ter-se caído num “marasmo pedagógico” em que as perguntas num exame se resumem a “Calcule...”, “Determine o valor...”, ou “Mostre que tal é igual a tal...”.

“A Matemática é uma ciência exacta mas isso não quer dizer que não haja espaço para um pensamento mais aberto e crítico. Não só o argumento é aceitável como faz cada vez mais sentido, numa época em que os computadores nos podem substituir em praticamente qualquer cálculo, resta-nos a consciência crítica e o pensar de forma criativa, mesmo na Matemática”, remata Rogério Martins.