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Internacional

Administração Trump eliminou lista de oligarcas russos suspeitos de corrupção

Hannah Peters/Getty Images

"Estamos perante uma tentativa grave de alguém bem colocado na administração para fazer o governo dos EUA e o Congresso parecerem ridículos", diz um especialista que ajudou a compilar essa lista e que está por trás da denúncia

Uma lista com nomes de oligarcas russos próximos de Vladimir Putin e suspeitos de corrupção que tinha sido compilada pelas agências governamentais dos EUA foi anulada e substituída "à última hora" na semana passada por um elemento bem colocado da administração de Donald Trump.

Assim acusa um especialista em assuntos da Rússia que foi consultado para a criação dessa lista, uma que acabaria por ser substituída por um rol de nomes de milionários russos no que aparenta ser uma cópia integral do ranking de russos mais ricos da revista "Forbes", juntamente com nomes de alguns oficiais do Kremlin.

A lista original tinha sido criticada pelo Presidente russo, que viu nela um "passo hostil" dos EUA. "Não há critérios, [esta eliminação da lista] torna tudo ridículo", diz Anders Åslund, o economista sueco que é investigador do Atlantic Council e que diz que foi consultado para fazer sugestões sobre como é que a "lista do Kremlin" devia ser compilada, em resposta à lei que o Congresso norte-americano aprovou em julho para exigir ao Presidente ações mais duras contra a Rússia.

Sediado em Kiev, Åslund escreveu no site do Atlantic Council que houve muito tempo e trabalho investidos na criação da lista original mas que, na quinta-feira, foi informado que alguém da administração Trump ordenou que essa lista fosse para o lixo. Em vez dela, o governo Trump apresentou a lista semelhante à da Forbes na madrugada de domingo para segunda-feira, quando o prazo imposto pelo Congresso estava prestes a expirar.

"Estamos perante uma tentativa grave de alguém bem colocado na administração para fazer o governo [federal] dos EUA e o Congresso parecerem ridículos", defende o especialista. Assumindo que não sabe quem deu a ordem para que a lista fosse eliminada, Åslund sublinha que, ao aprovar a versão modificada, o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, "assumiu responsabilidades" por ela.

A administração Trump já estava a ser alvo de críticas por não ter anunciado quaisquer novas sanções contra a Rússia como também foi ordenado pelo Congresso em julho, sob a chamada Lei de Combate aos Adversários da América Através de Sanções.

Confrontada com isto pelo jornal britânico, uma fonte próxima da presidência americana defendeu que a existência dessa lei e os esforços do governo Trump para a implementar têm sido suficientes para travar acordos entre países terceiros e Moscovo nas áreas da defesa e da segurança. "Temos sido capazes de impedir potenciais acordos avaliados em muitos milhares de milhões de dólares. Isso é dinheiro real que não está a chegar ao Kremlin. É um sucesso real."

A mesma fonte escusou-se a especificar que contratos foram cancelados e os seus valores e insistiu que haverá sanções contra os russos no futuro se a administração norte-americana se defrontar com "grandes violações" — a mesma ideia que Mnuchin transmitiu ao Congresso esta semana, quando garantiu que "vai haver sanções".

No seu texto, Åslund acusa Mnuchin de estar a "ridicularizar" o mecanismo de sanções e a legislação que o Presidente assinou a contragosto no ano passado e diz que o objetivo primordial da "lista do Kremlin" era identificar os cidadãos russos que acumularam fortunas graças a contactos ilícitos com o governo de Putin.

"Os vários organismos do governo dos EUA que estiveram envolvidos [na criação dessa lista] desenvolveram claramente um trabalho de consciência nestas linhas. Mas ao último minuto, alguém muito bem colocado — ninguém sabe quem neste momento — atirou fora o trabalho dos especialistas e em vez disso escreveu os nomes de oficiais da administração Putin mais os 96 nomes de multimilionários russos citados na lista da 'Forbes'."

Com este pano de fundo, acrescenta Åslund, Mnuchin "ridicularizou os especialistas do governo que prepararam o outro relatório, tornando ineficaz [a legislação do Congresso] e fazendo troça das sanções dos EUA contra a Rússia. Ao assinar esta lista, o secretário do Tesouro assumiu responsabilidades por ela. E quem sai mais beneficiado disso é o Presidente da Rússia."

Ao BuzzFeed, um porta-voz do Departamento confirmou ontem que a lista apresentada ao Congresso no dia anterior foi, de facto, inspirada na lista dos "200 empresários mais ricos da Rússia" que a "Forbes" compilou em 2017.

"O objetivo do Congresso era forçar a administração a focar-se nas pessoas de quem Putin depende e [a administração Trump] criou uma lista que inclui essas pessoas e todas as outras", explica ao "Guardian" Peter Harrell, antigo funcionário do Departamento de Estado norte-americano. "Cita-as mas não as envergonha e é demasiado inclusiva para ter qualquer efeito dissuasor" sobre Moscovo, acrescenta o investigador do Centre for a New American Security.