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Trump volta a sugerir que os EUA podem reintegrar Acordo do Clima de Paris

May e Trump encontraram-se à margem do Fórum Económico Mundial em Davos

NICHOLAS KAMM / AFP / GETTY IMAGES

Na sua primeira entrevista a um canal estrangeiro, no caso à britânica ITV, o Presidente norte-americano também disse que teria sido mais duro do que Theresa May a negociar o Brexit com a União Europeia

Donald Trump voltou a sugerir este fim-de-semana que os Estados Unidos da América podem voltar a integrar o Acordo do Clima de Paris se a comunidade internacional adotar um “acordo completamente diferente”, voltando a criticar o atual tratado de combate às alterações climáticas por ser um “acordo terrível” e “desastroso” para o seu país.

Na sua primeira entrevista a um canal estrangeiro, no caso à televisão britânica ITV, o Presidente norte-americano também disse que, se estivesse na posição da primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, teria adotado uma “postura mais dura” nas negociações do Brexit com a União Europeia.

Aumentado as pressões sobre a homóloga britânica, numa altura em que May pode estar prestes a enfrentar uma moção de desconfiança por causa do Brexit, Trump disse que, no seu lugar, “teria negociado [a saída] de forma diferente” em parte porque tem tido “montes de problemas” com o bloco europeu — deixando avisos sobre uma guerra comercial vindoura entre os EUA e os Estados-membros da UE.

Sobre o Brexit, acrescentou que a sua administração quer firmar um “grande” acordo comercial com o Reino Unido assim que as regras da UE deixarem de se aplicar ao país e que o governo britânico possa começar a negociar novos acordos de trocas com os seus parceiros.

A entrevista concedida por Trump ao apresentador Piers Morgan na ITV foi transmitida no domingo à noite; na sexta-feira, o canal já tinha divulgado um excerto da conversa em que o Presidente norte-americano se dizia preparado para pedir desculpa por ter partilhado no Twitter vídeos inflamatórios que foram disseminados pela número dois do Britain First, um grupo de extrema-direita do Reino Unido.

Na entrevista, Trump também voltou a garantir que tem “tremendo respeito pelas mulheres”, que muitas vezes faz publicações no Twitter quando está na cama e que não recebeu qualquer convite para o casamento do príncipe Harry com Meghan Markle, uma atriz que, no passado, descreveu Trump como um “misógino” dedicado a “dividir” as pessoas.

Sobre o Acordo de Paris

Trump tem enfrentado críticas da comunidade internacional nos últimos oito meses, desde que anunciou a retirada dos EUA do Acordo do Clima firmado em Paris no final de 2015 e assinado por 195 nações após intensas negociações para cada uma se comprometer a baixa as emissões de dióxido de carbono e de outros gases tóxicos.

Na entrevista à ITV, o líder norte-americano repetiu o argumento de que pode voltar a entrar no acordo se este for renegociado, uma possibilidade que já foi afastada pela Europa, pela China e por outros signatários. Na conversa com Piers Morgan, Trump disse que é um “crente no ar puro e na água limpa” mas que o tratado climático é um “desastre” para os EUA. Apesar de ter começado por sublinhar que o país está “completamente fora” do acordo, acabou por referir que há uma forma de garantir a renovada adesão dos norte-americanos.

“Em primeiro lugar, era um acordo terrível para os EUA. Se tivessem feito um bom acordo haveria sempre a hipótese de voltarmos, mas era um acordo terrível para os EUA, injusto para os EUA”, sublinhou Trump. “Acredito no ar puro, na água linda e límpida. Acredito em haver boa limpeza no geral. Posto isto, se alguém me dissesse para voltar ao Acordo de Paris, teria de ser um acordo completamente diferente porque temos um acordo horrível. Como de costume, tiraram proveito dos EUA. Estávamos num acordo terrível. Se voltaríamos a integrá-lo? Sim, voltaria. Eu gosto, como bem sabe, do Emmanuel [Macron, Presidente de França]. Adorava [voltar a integrar o tratado] mas tem de ser um bom acordo para os EUA.”

Confrontado com a sua postura quanto às alterações climáticas, descritas por ele próprio durante a campanha eleitoral de 2016 como “um embuste” criado para a China ganhar vantagem nos mercados globais, Trump respondeu: “Há um arrefecimento e há um aquecimento. Quer dizer, repare, não costumavam ser alterações climáticas, costumava ser aquecimento global. Isso não estava a funcionar muito bem porque estava a ficar muito frio em todo o lado. As calotes polares iam derreter, era suposto já terem desaparecido, mas agora estão a bater recordes, estão a um nível recorde”.

Sobre o Brexit e a UE

Perante crescentes rumores sobre o descontentamento do Partido Conservador britânico quanto ao processo do Brexit, Trump usou a entrevista para criticar a postura da homóloga britânica, dizendo que, no seu lugar, teria feito as coisas de forma diferente.

“Se eu negociaria assim? Não, eu não negociaria [a saída] da forma que foi negociada. Mas tenho muito respeito pela vossa primeira-ministra e penso que estão a fazer o que tem de ser feito. Penso que teria negociado de forma diferente. A minha atitude teria sido diferente. Penso que teria dito que a UE não é aquilo que era suposto ser e teria adotado uma postura mais dura para sair. Tenho muitos problemas com a UE.”

Em referência à sua relação com o bloco europeu, o Presidente dos EUA falou numa “situação muito injusta” e acrescentou: “Não dá para pôr os nossos produtos lá dentro. É muito, muito difícil. E ainda assim, eles mandam-nos os produtos deles — sem impostos, com muito poucos impostos. É muito injusto. Tenho tido muitos problemas com a UE e isso pode transformar-se em algo muito grande desse ponto de vista, do ponto de vista das trocas comerciais.”

Sobre as mulheres

Quando Morgan pediu a Trump que esclarecesse anteriores declarações suas sobre as mulheres, em particular num vídeo posto a circular durante a campanha em que se gabava de agarrar as mulheres pelas suas partes íntimas, o Presidente respondeu: “Penso que evoluímos, mas tenho um tremendo respeito pelas mulheres”.

Questionado sobre se é feminista, respondeu que “não diria” que é “um feminista” porque isso é “ir longe de mais”. “Sou a favor das mulheres, dos homens, de toda a gente. Penso que as pessoas têm de sair de casa, sair de casa e fazer o que há fazer e têm de ganhar. As mulheres estão a sair-se muito bem e estou feliz com isso.”

Na entrevista, Trump também explicou que é ele o autor das publicações na sua página de Twitter e que, muitas vezes, emite esses tweets deitado na cama. “Às vezes na cama, às vezes ao pequeno-almoço ou ao almoço ou assim. No geral, muito cedo de manhã ou à noite é quanto consigo fazê-lo. Mas se estiver muito ocupado durante o dia, às vezes dito as coisas muito rápido e dou a uma das minhas pessoas para publicarem.”