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Internacional

Libertaram a rapariga do véu

Chamam-lhe simplesmente “a rapariga da Enqelab Street”. Porque às vezes é mais poderoso não ter um nome do que tê-lo

Ainda ninguém sabe ao certo quem ela é. O símbolo do protesto pode não ter nome mas tem rosto: pele morena, cabelos longos, finos, negros. Chamam-lhe apenas a rapariga de Enqelab Street – nas redes sociais dizem ser Vida Movahed. No final do ano, durante um protesto em Teerão, tirou o lenço da cabeça, ergueu no ar e agitou-o. No Irão, é obrigatório usar véu. A mulher foi detida dias depois. Agora, passado um mês, foi libertada.

Muito pouco se sabe sobre a rapariga que desafiou as regras do Irão, que desde a revolução em 1979 obriga a que a roupa das mulheres seja modesta e que andem sempre de cabeça coberta. Não usar o véu sobre a cabeça pode levar a uma pena de dois meses de prisão e uma multa superior a 500 mil rials (cerca de 11 euros).

Foi a 27 de dezembro que subiu para uma caixa das operações telecomunicações na rua Enqelab, no centro da capital iraniana. Tirou o hijab branco, atou-o a um ramo e ergue-o como se de uma bandeira se tratasse. O momento foi fotografado, filmado e partilhado vezes sem conta nas redes sociais. O que aconteceu depois não se sabe ao certo. “A única coisa que tenho a certeza é que esta mulher foi detida. Uma testemunha no local viu-a ser levada e acompanhada até à esquadra. Não tenho qualquer contacto com a família dela”, contou à AFP Nasrin Sotoudeh, ex-presa política e advogada especializada na defesa dos direitos humanos.

O desaparecimento da rapariga da Enqelab Street agitou as redes sociais. Em inglês e em persa foram criadas as hastagas #where_is_she and #WhereIsShe. “A rapariga foi libertada no fim de semana”, anunciou no Facebook Nasrin Sotoudeh esta segunda-feira.

Entretanto, esta semana uma segunda mulher foi detida pelas autoridades iranianas exatamente pelo mesmo motivo. Depois da rapariga de Enqelab Street, esta segunda-feira pelo menos outras três mulheres repetiram o gesto.

Nos últimos meses, as mulheres iranianas têm promovido, uma vez mais através das redes sociais, um movimento de protesto contra as regras de vestuário impostas pelo Estado. #whitewednesdays foi criada com o objetivo de incentivar as mulheres a publicarem fotografias com hijabs ou outra qualquer peça de roupa branca. O lenço que a rapariga de Enqelab Street usava a 27 de dezembro, uma quarta-feira, era branco.

O final do ano foi marcado pelos maiores protestos antigovernamentais realizados no país desde o Movimento Verde de 2009, que contestou a reeleição do Presidente conservador Mahmud Ahmadinejad. Algumas das medidas para conter os manifestantes passaram pelo bloqueio do Telegram – a rede social mais usada no país – e o uso da força: a repressão das forças de segurança provocou, pelo menos, 22 mortos e mais de 1000 detidos.