Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

O segredo da floresta

getty

Cada vez mais turistas do mundo inteiro dirigem-se à selva amazónica para viver a experiência da efusão ayahuasca – cura milagrosa para uns, droga psicadélica para outros

Yahuasca. A palavra chega-nos do coração da Amazónia, a floresta-mãe. Cinco milhões de quilómetros quadrados de selva que cruza nove nações do continente sul-americano e que, num complexo e labiríntico território de múltiplos ecossistemas, alberga mais de 2500 espécies de árvores e mais de 30 mil de plantas. Para os povos indígenas da floresta — estima-se que ainda sejam 300 mil pessoas, grande parte das quais a viver em zonas rurais —, ayahuasca, na sua etimologia espiritual, significa “cipó do homem morto”. Cipó, esclareça-se, é o nome comum das plantas trepadeiras que se vão enrolando nos troncos das árvores como se fossem cordas. Esta é também uma boa imagem metafórica para o poder desta bebida, amarga e espessa, ingerida desde tempos remotos em rituais sagrados e com fins medicinais, para expurgar e curar.

Milhares de ocidentais começaram a prestar-lhe homenagem quando os antropólogos entraram na selva para estudar as práticas dos povos da bacia do Amazonas e divulgaram os seus efeitos prodigiosos. O consumo da ayahuasca tem aumentado velozmente, numa demanda “profunda e purificadora”, segundo dizem muitos que a experimentaram. Quem a consome garante que equivale a ter um shot de terapia, correspondente a anos de psicanálise. Num artigo publicado no “The New York Times”, foi referida como a experiência do momento.

O apelo xamânico

Foi à procura de tentar perceber o que significa esta experiência e a sua influência em território nacional que falámos com Manuela — chamemos-lhe Manuela — num destes fins de tarde de janeiro, no café da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Durante um bom par de horas, escutámos o testemunho desta mulher de 43 anos, enquanto lá fora, na janela rasgada sobre o jardim, o verde-escuro das copas das árvores vibrava nos últimos raios de luz que antecedem a noite. O antropólogo canadiano Jeremy Narby referiu-se à sua experiência em torno da ayahuasca, no livro “A Serpente Cósmica, o ADN e a Origem do Saber”, como “a televisão da floresta”, depois de uma longa pesquisa sobre xamanismo e biologia molecular. E é nesta frase que pensamos quando Manuela termina o seu relato do que lhe aconteceu num lugar recôndito da Amazónia peruana há poucos meses.

O lugar chama-se The Temple of the Way of Light, fica na região de Iquitos, envolvido por uma floresta onde serpenteia o rio Amazonas, e foi fundado, em 2007, por Matthew Watherston, um homem de negócios que resolveu abandonar a vida deste lado do mundo para abrir um centro de retiros e de workshops inspirados nas curas xamânicas. “Alternative & Holistic Health Service”, anuncia-se na sua página oficial do Facebook, com uma fotografia apelativa de fim de tarde na selva.

Foi longo e solitário o caminho que levou Manuela até este lugar recôndito, inimaginável dentro dos códigos do seu mundo ainda há bem pouco tempo. Ela conta como se “sentia permanentemente triste”, referindo-se ao seu enorme vazio existencial. “A verdade é que estava com uma grande depressão, mas não queria dar parte de fraca. Cresci a ouvir dizer que a depressão era uma doença de ricos”, reflete. Depois de leituras feitas em livros de autoajuda, que não lhe serviram de consolo, a ideia de falar com um psicólogo também não a seduziu. Em casa, a família estranhava o seu comportamento. Foi-se isolando. “Não me revia em ninguém que conhecia nem em ninguém com quem me cruzava. Faltava-me a tribo”, revela agora, pensando nesses dias passados na internet à procura de qualquer coisa que ainda não era capaz de identificar... Como se tivesse havido um antes e um depois. O momento que antecede o depois chegou-lhe através de uma palavra estranha para ela, apesar de o assunto andar no ar.

Em Portugal, há já algum tempo que se realizam cerimónias com a ayahuasca, com curandeiros que chegam da Amazónia para as conduzir em retiros privados, longe dos circuitos citadinos, mas Manuela não estava a par disso. O primeiro depoimento que lhe chamou a atenção foi o do jornalista e escritor escocês Graham Hancock, autor de best-sellers sobre civilizações perdidas, que contou na televisão a sua experiência com a ayahuasca. “Ao princípio, aquilo assustou-me, mas continuei a investigar”, confessa.

Foi um salto até Manuela começar a cruzar-se com os inúmeros documentários que circulam na internet, onde gente mergulhada em vidas sufocantes e cheias de stresse conta como quebrou com os seus circuitos sofisticados e cosmopolitas e curou o seu mal de vivre através dos retiros de ayahuasca. “O que me seduzia nos relatos que ouvia”, conta sem vacilar, adiantando que nunca experimentou drogas, “era que muitas das sensações que se descreviam tinham a ver com o que eu sentia, mas a ideia de ficar num estado alterado de consciência assustava-me muito.” Quando se deparou com o site do The Temple of the Way of Ligth percebeu que iria sentir-se segura. A perspetiva de tomar a ayahuasca e de participar num ritual xamânico de cura intensiva começou a tornar-se um motivo para viver: “Como se fosse um chamamento”, diz.

Cultura. Um dos bares mais frequentados de Lima chama-se Ayahuasca, em honra do que se considera um património cultural do Peru

Cultura. Um dos bares mais frequentados de Lima chama-se Ayahuasca, em honra do que se considera um património cultural do Peru

getty

Para se inscrever no retiro, Manuela precisava de satisfazer certas condições e de pagar quatro mil euros, bilhete de avião incluído. Durante cerca de três meses andou numa troca de correspondência com o centro, chegou a fazer uma entrevista por Skype. Até que por fim, depois de assinar um termo de responsabilidade de que não estava a consumir antidepressivos e de enviar um historial médico a garantir que não sofria nem tinha tido nenhum episódio de esquizofrenia (“que pode ser extremamente perigoso e até levar à morte”), recebeu a confirmação de que estavam prontos para a receber. Nos 12 dias antes de embarcar seguiu a dieta indicada para iniciar a limpeza que lhe era recomendada, a fim de preparar o corpo para receber a ayahuasca. “Não podia ingerir sal, açúcar, álcool nem gorduras. Carne de porco é absolutamente proibida. Também não pode haver sexo. A ativação da energia sexual entra em conflito com a substância DMT. O compromisso é sério. Eles só garantem uma viagem segura para quem cumprir as regras, e a dieta tem a ver com a troca energética que se vai dar entre nós e os curandeiros. Se queremos ter uma experiência de introspeção emocional e espiritual, temos de começar por uma limpeza física, é assim que funciona esta medicina ancestral. Ou se confia ou não se confia. Quem a faz tem de ter um propósito, não se pode ir de ânimo leve”, sublinha.

Durante os 12 dias que esteve na selva, num lugar remoto onde só se chega de barco, a viver numa cabana de madeira, sem luz elétrica, inspirada nos acampamentos nativos, Manuela passou por uma experiência que ainda hoje tem dificuldade em contar. As sessões, ao todo sete, tinham lugar à noite, na maloca circular, a tradicional casa comunal das comunidades indígenas, recuperada para as cerimónias. “A ayahuasca só atua em pleno depois de feita uma purga”, dizem todos os que a experimentaram. Manuela ficou sentada, com um balde para vomitar à sua frente, num círculo com mais 23 pessoas que viajaram de lugares tão distantes como Canadá, Nova Zelândia ou Suíça. Foi sendo transportada, degrau a degrau, pela sombra e pela luz, juntamente com os seus companheiros, cada um no seu lugar, mergulhados na sua viagem interior mas unidos “pelo mesmo círculo energético”, num ritual catártico. Entregou-se à “planta visionária” — assim é descrita pelos seus seguidores —, que a conduziu ao lado mais profundo e sombrio da sua natureza, fazendo-a revisitar memórias escondidas, bloqueadas e trazidas à superfície através de imagens por vezes oníricas, por vezes assustadoras, por vezes proféticas, que a levaram a revelações sobre um “eu” que até então nunca conseguira vislumbrar.

Cada cerimónia era precedida por uma sessão de ioga e conduzida por cinco curandeiros, homens e mulheres, todos indígenas, especialistas nas técnicas de cura da medicina amazónica que, tal como o resto dos participantes, também tomavam uma dose de ayahuasca (embora mais pequena). As sessões eram vigiadas por um grupo de “facilitadores”, que tinham passado pela experiência, para garantir que nada corria mal. Nesses 12 dias de retiro na selva, onde as manhãs começavam com um banho preparado pelos curandeiros — uma espécie de ritual de limpeza do corpo para preparar a mente para a sessão noturna — e se faziam passeios organizados à floresta e workshops sobre a fauna e a flora local, Manuela viveu uma experiência radical e transformadora que, garante, lhe indicou o caminho da cura e o seu processo de regeneração. “A planta só nos dá aquilo que conseguimos enfrentar, como uma professora que traz ao nível do consciente, por imagens e sensações, coisas que de outro modo não conseguimos ver”, diz, hesitando nos termos para não parecer demasiado esotérica.

A molécula psicadélica e espiritual

Sensações de pré-morte, episódios e traumas que se revelam como se tivessem sido submetidos a uma psicanálise de choque, imagens da natureza saturada de cores e de fractais geométricos, símbolos e arquétipos de animais, um medo paralisante e primordial, sentimentos de amor e comunhão com a natureza e uma nova consciência reparadora... Relatos como este de Manuela são partilhados em sites, livros e documentários que nos dão o testemunho de quem consumiu ou consome a ayahuasca. Também o escritor William S. Burroughs, durante o seu período beatnik, realizou no início da década de 50 uma viagem pelo Peru e a Colômbia, à procura da experiência da droga usada pelos índios da nascente do Amazonas, que depois relatou ao amigo e amante Allen Ginsberg no seu diário de viagem ficcionado “Cartas do Yage”.

O segredo da ayahuasca está na combinação de duas plantas: o cipó da videira Caapi, de onde são extraídas as raízes, e a Chacrona, uma planta arbórea da família da Rubiaceae, cujas folhas contêm a substância DMT, abreviatura de dimetiltriptamina — substância química do grupo dos agentes psicodislépticos, vulgo psicadélicos, modificadores do sistema nervoso central. Um dos efeitos da DMT, de acordo com vários estudos, é aumentar a concentração de serotonina, norodrenalina e dopamina no cérebro, proporcionando a expansão das memórias mais profundas do nosso “eu”, que parecem acender-se no fundo da consciência, revelando uma profunda lucidez sobre as memórias traumáticas revisitadas. Também pode provocar êxtase e sensações de alucinação.

Segundo um dos maiores estudos sobre a DMT, desenvolvido por Rick Strassman, um médico norte-americano especializado em psicofarmacologia, que estudou a fundo os efeitos dos alucinogénicos, a DMT é produzida por plantas, por animais e pelo organismo humano. Strassman também verificou que existe no nosso organismo uma enzima estomacal inibidora da substância, que não lhe permite chegar ao cérebro. É precisamente sobre esta enzima que atua a ayahuasca, neutralizando-a, deixando então que a DMT que existe nas folhas de Chacrona inunde a zona frontal do cérebro, sem constrangimentos. Foi a partir destas conclusões que Strassman escreveu o livro “DMT: A Molécula do Espírito”, que mais tarde originou um documentário com o mesmo nome e que colocava uma interrogação: como é que, entre os milhares de espécies da selva amazónica, os nativos foram descobrir a combinação destas plantas para daí extraírem um chá preparado durante horas no fogo, com potencialidades de uma visão interna, que funciona como um scanner sobre a consciência e a memória?

Imagem de uma cerimónia de toma de ayahuasca

Imagem de uma cerimónia de toma de ayahuasca

getty

Para as tribos amazónicas, esta questão não se põe. É a própria planta, com o seu poder de comunicação com os espíritos das outras plantas e dos curandeiros mortos, que dá as respostas necessárias para as curas medicinais. Independentemente das explicações mais cruas sobre os processos e as ligações neurais que acontecem no nosso cérebro quando a DMT começa a atuar, a viagem através da ayahuasca sempre foi usada como uma busca de um sentido espiritual para a vida, uma cura graças ao conhecimento ancestral da medicina amazónica. Depois dos antropólogos experimentalistas da década de 50 vieram as experiências psicadélicas do movimento hippie e a seguir, no virar do milénio, o crescimento exponencial das culturas alternativas e do movimento New Age. Surgem-nos também notícias dos cintilantes círculos cosmopolitas das estrelas de cinema e dos cantores pop, que vêm contar a sua experiência de cura e de revelação dos horizontes que se abriram para um novo circuito de renascimento espiritual. Nesta corrente, o ator brasileiro Reynaldo Gianecchini contou numa entrevista à revista “Sábado” a sua conexão com o “divino” depois de ter participado numa cerimónia ayahuasca. Também os músicos Paul Simon, Tori Amos, Devendra Banhart ou Sting integraram o coro sobre as virtudes desta potente bebida, sem medo das represálias de vigilância dos mais puritanos.

Apesar de as suas fontes botânicas comuns serem legais em quase todo o lado, o que tem permitido, por exemplo, comprar plantas que contêm DMT via internet, a DMT foi considerada uma droga ilícita e, desde 1971, integra a lista de substâncias ilegais controlada pela ONU. No entanto, o uso em cerimónias religiosas foi permitido e regulamentado no Brasil, para celebrar o culto de santo-daime (outro nome para a ayahuasca), e no Peru, desde 2008, devido ao uso tradicional praticado pelas comunidades amazónicas, foi reconhecido como património cultural.

rio Amazonas . Na região de Iquitos, concentram-se o maior número de retiros

rio Amazonas . Na região de Iquitos, concentram-se o maior número de retiros

getty

A proibição da DMT e de outras substâncias psicadélicas impôs restrições rigorosas de importação e exportação, acabando por limitar o uso de drogas para fins científicos e médicos. Todas as experiências iniciadas no início dos anos 70 sobre os potenciais terapêuticos foram praticamente canceladas por falta de financiamento e banidas da Academia. Mas nos últimos anos o seu mistério e potencial terapêutico tem motivado trabalhos considerados marginais, realizados por neurocientistas e farmacologistas. Entre eles encontra-se o catalão Jordi Ribas. Indicado pela revista “Rolling Stone” como uma das 25 personalidade que irão marcar a ciência no futuro, Jordi tem trabalhado no estudo da farmacologia no sistema nervoso central e chegou à conclusão de que a ayahuasca não deve ser vista como uma droga lúdica. “Pessoas que tiveram sérios problemas de dependência com a cocaína e a heroína conseguiram deixar esse tipo de consumo após um período em que tomaram a ayahuasca”, explicava ao jornal “La Vanguardia” em dezembro passado.

Marina e a medicina vegetal

Marina (nome fictício), que já trabalhou em teatro e produção de televisão, iniciou o seu trânsito atlântico entre Lisboa e o Peru há já alguns anos, depois de ter passado por um processo traumático devido à morte da mãe. Talvez porque sempre tenha dado atenção a estas práticas de “autoconhecimento”, como classifica, feito meditação ativa com a técnica de Osho e experimentado as terapias bioenergéticas, à base de exercícios físicos e do controlo da respiração para diminuir bloqueios emocionais, rapidamente chegou à ayahuasca. Foi em 2010. Na altura, a informação das “curas visionárias” praticadas no Brasil e no Peru começava a circular em pequenos grupos que organizavam sessões informais nos arredores de Lisboa, no Alentejo e no Algarve, orientadas por curandeiros peruanos que começavam a chegar à Europa com as suas efusões do preparado amazónico e as técnicas milenares da manipulação das plantas medicinais. Foi neste contexto que Marina sentiu o “chamamento da planta maestra”, como é denominada pelas vegetalistas das tribos, e foi no seu encalço que começou a viajar ao centro deste complexo mundo vegetal. “Esta medicina”, é assim que sempre se lhe refere, “é uma ferramenta muito poderosa. Podemos viajar para onde quisermos se a manejarmos bem”, explica, enquanto nos conta o que é o trabalho de um ayahusquero, o termo correto usado localmente para denominar o xamã.

Durante uma tarde, pouco antes de partir para o Peru, onde está a montar com o marido peruano um centro de trabalho, Marina explicou-nos como foi sendo introduzida neste universo assombrado de histórias de curandeiros e de plantas, difícil de captar para as mentes mais céticas. “Para os povos que vivem na selva amazónica, o conhecimento das plantas começa por ser uma forma de defesa contra os animais que habitam a selva. Para os afastar, o cheiro humano é camuflado pelo de uma planta, e para que isto aconteça uma pessoa tem de comer uma determinada planta. Esta prática chama-se ‘dietar’ as plantas para lhe conhecer o segredo medicinal”, relata. ‘Dietar’, nas práticas locais, significa comer a raiz da planta e beber o chá das suas folhas durante um período longo, até se conseguir extrair o espírito e o conhecimento, que é revelado através de uma melodia, um ícaro, que só os ayahusqueros conhecem e que é usada e cantada nas cerimónias de toma da ayahuasca.

Também os ícaros dos curandeiros saltaram da floresta para a internet, onde podem ser escutados. É esta ligação ao território vegetal e sagrado da terra amazónica que tem atraído milhares de consumidores e curiosos do mundo inteiro à Amazónia peruana, até Pucalppa ou Tarapoto, para viverem in loco a experiência das crenças da selva. Na zona de Iquitos, onde Manuela fez o seu retiro, encontra-se a comunidade Shipibo, cujos membros são considerados grandes “maestros vegetalistas”. É aqui que se concentra o maior número de retiros holísticos e espirituais baseados na dieta amazónica. Um artigo publicado em “The Guardian” falava neste fenómeno, indicando que nos últimos anos surgiram mais de 50 retiros, sem contar com os alojamentos informais na selva ou em casas de moradores locais. Marina confirma que de cada vez que regressa ao Peru tem a noção do turismo montado em redor da cultura da ayahuasca, com os nativos que se abeiram dos turista nas ruas de Iquitos a oferecer serviços: “Xamã? Xamã?”, perguntam mal avistam um turista incauto e movido pela curiosidade da trip amazónica. “Este fenómeno é perigoso e pode levar a situações muito complicadas se não for feito segundo regras estritas e usado com muito respeito”, alerta Marina. Aos seus ouvidos chegaram histórias de situações vulneráveis e perigosas em que se encontraram já diversos turistas por serem levados a consumir a ayahuasca sem as regras de segurança indicadas. “Isto é uma medicina séria mas que, se não for administrada por quem sabe o que está a fazer, pode tornar-se um verdadeiro pesadelo.”