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O anjo da morte

foto JIM WATSON/AFP/Getty ImagES

Steve Bannon ajudou a arquitetar o perfil político de Donald Trump e tornou-se o “mestre manipulador”. Com ligações à extrema-direita, o anterior estratego-chefe da Casa Branca acumulou epítetos até ser afastado. Dois deles, “louco” e “desleixado”, surgiram da boca do próprio Presidente dos EUA, enciumado com o protagonismo do velho aliado e enfurecido por ele ter ofendido a família nas páginas de um best-seller publicado há duas semanas

Na Casa Branca, poucos trabalhavam como ele. Chegava por volta das seis da manhã, hora a que o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acorda, e instalava-se no “salão de guerra”, o escritório situado paredes meias com a Sala Oval.

Obcecado pela cobertura jornalística, ficava de mau humor sempre que as newsletters matinais o ignoravam, nomeadamente a do site ‘Politico’, tida como a mais relevante.

Passado o mau humor, Stephen (Steve) Bannon, o estratego-chefe da nova Administração, pormenorizava as tarefas dos assistentes num grande quadro branco, o mesmo que usou para contar “escalpes” nos tempos da ‘Breitbart’, a publicação mais popular no Facebook, a rede social que se transformou na principal fonte noticiosa para 75% dos americanos.

“Escalpes” era um dos termos populares do seu jargão guerreiro, uma referência aos republicanos do núcleo duro do partido, que ele tinha ajudado a derrotar nas primárias das eleições para o Congresso, em 2014. Sempre que um deles perdia para um dos candidatos do Tea Party (movimento ultraconservador), ele apontava o nome como se fosse um troféu de caça. “Quando entrei na ‘Breitbart’, em 2013, encontrei uma plataforma conservadora. Porém, nos dois anos seguintes, ela tornou-se um agente político ativo, moldando os factos. O Steve não pensava em informar, mas apenas em usar as suas armas contra os núcleos partidários”, revela, ao Expresso, Kurt Bardella, antigo porta-voz da publicação.

O sentimento de desprezo contra os políticos de carreira unia Bannon e Trump, que nos primeiros meses de Administração produziram despachos executivos inspirados numa ideologia assumidamente nacionalista. O longo turno só terminava às dez da noite, após ficarem alinhavados os planos do dia seguinte. Como vive a menos de três quilómetros de distância, demorava meia dúzia de minutos a chegar a casa, um edifício de 14 assoalhadas decoradas com cortinados de seda, cristais e um imponente retrato à entrada da filha Maureen, uma antiga marine destacada para a guerra no Iraque, sentada no cadeirão presidencial do antigo ditador Saddam Hussein.

Também ele um ex-militar, descontraía nas horas seguintes refastelado num velhinho sofá de cabedal castanho, saboreando uma Powerade com sabor a cereja, a sua bebida preferida desde que desistiu do álcool e abraçou o catolicismo em 1998, lê-se na biografia “Bannon: Always the Rebel”, publicada há dois meses.

A partir do janelão da sala de estar, em frente a um quadro com uma imagem dele mascarado de Napoleão (uma oferta de Nigel Farage, o britânico que liderou a campanha do ‘Brexit’), demorava-se a observar a Avenida Pensilvânia, a principal artéria da capital, e a fachada do Supremo Tribunal, sede que fará a avaliação final de algumas decisões polémicas de Trump, caso do bloqueio à entrada de pessoas oriundas de um conjunto de países de maioria muçulmana.

Washington não sabia como processar a omnipresença de Steve, que seduzira Trump com a retórica da ‘Breitbart’, classificada pelo próprio de “plataforma para o Alt-Right (AR)”, um movimento xenófobo, racista e antissemita. Tal associação levou o líder da AR, Jared Taylor, a confessar ao Expresso, há cerca de um ano, que se sentia “otimista em relação ao futuro do país”.

Na sombra

Tamanho ascendente, levou a que, pouco a pouco, a imprensa americana o apelidasse de eminência parda da Administração. Os humoristas iam mais longe nas comparações. O programa televisivo “Saturday Night Live” parodiou a relação entre Bannon e Trump, apresentando em palco um presidente faz-de-conta a aceitar de forma servil as indicações do braço-direito, disfarçado de anjo da morte que, a dada altura, exigia que lhe fosse devolvido o lugar na secretária principal da Sala Oval. “O seu grau de influência na Casa Branca chegou a ser esmagador. Ideias como a construção do muro na fronteira com o México e a proibição da entrada de muçulmanos, exóticas no mínimo, levam a acreditar que o Partido Republicano valeu menos do que o Steve e o Alt-Right, que pareciam ter acesso irrestrito ao ouvido do Presidente”, afirma, ao Expresso, Matt McWilliams, professor de Ciência Política na Universidade de Massachusetts e ex-dirigente do Comité Nacional do Partido Democrata.

Apercebendo-se desse momento de viragem, Bob Corker e Jeff Flake, dois senadores veteranos da direita americana, anunciaram que não voltariam a recandidatar-se, dando início a um êxodo de 23 congressistas até hoje. Porém, a ascensão meteórica terminaria tão abruptamente como tinha começado. Declarações a Michael Wolff, autor do livro “Fire and Fury, Inside The Trump White House”, publicado há duas semanas, esgotaram a paciência de Donald Trump, que não gostou de ouvir o ajudante chamar aos filhos Donald Trump Jr. e Ivanka, respetivamente, “traidor” (a propósito da reunião com elementos russos para discutir factos comprometedores sobre Hillary Clinton) e “burra como um tijolo”.

Passado. Na Sala Oval da Casa Branca nos tempos em que era apelidado pela imprensa de eminência parda da Administração Trump

Passado. Na Sala Oval da Casa Branca nos tempos em que era apelidado pela imprensa de eminência parda da Administração Trump

foto Drew Angerer/Getty Images

Numa entrevista ao programa “Today”, da NBC, Wolff afirmou que Bannon mediu bem as palavras e que as usou para se afastar do Presidente. “No início, o Steve pensava que as coisas podiam funcionar, visto que Trump é um personagem único e interessante, mas com o tempo concluiu que ele simplesmente é incapaz de exercer o cargo por ser mentalmente instável. Um dia, ele garantiu-me: ‘Trump perdeu o juízo’”.

A relação de ambos floresceu durante a campanha, principalmente depois de agosto de 2016, quando vários republicanos se tornaram suspeitos num alegado esquema montado com o Kremlin, cujo objetivo consistiria na manipulação dos resultados eleitorais. Por esta razão, Paul Manafort, o responsável máximo da candidatura seria afastado e, mais tarde, formalmente acusado pela Justiça americana de evasão fiscal (em causa, rendimentos não declarados, fruto das ligações ao Leste europeu) e de não se ter registado como agente de lóbi ao serviço do Governo ucraniano pró-russo comandando por Viktor Yanukovych.

Bannon assumiu o comando da equipa e foi dos poucos a defender Trump depois de descoberta uma gravação áudio, datada de 2005, onde ele confessava que quando via mulheres atraentes agarrava-as pelos genitais. A expressão “grab them by the pussy” tornou-se viral e parecia ser a estocada final na corrida presidencial do multimilionário. Apesar da controvérsia, ao contrário do que pensava Manafort, Bannon insistia que o caminho para a vitória passava por deixar Trump à solta e sem filtro.

O candidato presidencial pediu desculpa, jurando que tudo não tinha passado de “conversa de balneário” e, quando se julgou que Hillary tinha a vitória na mão, Bannon rearrumou a casa e ergueu os alicerces para um dos triunfos políticos mais surpreendentes da história. No primeiro debate televisivo, por exemplo, com o intuito de atenuar os efeitos daquelas declarações, o magnata achou boa ideia vir acompanhado das quatro mulheres que, ainda hoje, acusam Bill Clinton, ex-Presidente e marido da rival, de violação e assédio. Na altura em que o candidato republicano as apresentou aos jornalistas antes do frente a frente, Bannon refugiou-se num canto da sala, com um sorriso de orelha a orelha.

Robby Mook, antigo conselheiro de Hillary, ainda se recorda desse episódio e reconhece que foi dos que subestimaram o adversário. “Olhámos para a contratação do Bannon como um ato desesperado, próprio de alguém que sabia que ia perder. Mas, meus Deus… Estávamos tão enganados”.

A partir de uma série de entrevistas a várias fontes que conviveram com Stephen Bannon na Casa Branca e na ‘Breitbart’, o Expresso obteve pormenores do seu percurso conturbado ao lado de Donald Trump — um ano marcado por inveja, traição e escárnio. Se, por um lado, todos concordam que a ascensão e queda eram previsíveis, dada a irascibilidade do indivíduo em causa, por outro ninguém duvida de que ele ressurgirá para tentar destruir o que ajudou a criar. “Ele é dos poucos com capacidade de virar a base do trumpismo contra o Presidente”, disse Wolff à CBS, há cerca de duas semanas.

O autor de “Fire and Fury” acredita que as declarações de Bannon no seu livro o ajudarão a regressar após as eleições intercalares deste ano, onde se preveem dificuldades para o Partido no poder, e organizar uma revolta anti-Trump. Ken Duberstein, chefe de gabinete de Ronald Reagan entre 1988 e 1989, explica-nos porque é que Bannon, um velho conhecido, aceitou conversar com Michael Wolf. “O ego é um fator de peso: todos gostam de se sentir poderosos e de passar a ideia de que são os guardiões do templo. Mas a autodefesa também ajuda a perceber o que se passou, afinal a Administração Trump não é a primeira a sofrer com a erosão provocada pelo mau ambiente interno, o que leva a que as pessoas não queiram ficar em silêncio quando sabem que os rivais alimentam a imprensa com informação comprometedora. A melhor defesa é o ataque e o Steve valoriza essa máxima como ninguém”.

Os ciúmes de Trump

Bannon começou a cair em desgraça logo após a tomada de posse, há precisamente um ano, devido ao caos registado nos aeroportos americanos, onde até indivíduos com cartões de residente (“green card”) e vistos legais (trabalho, estudante, etc.) foram retidos à margem da lei por oficiais de imigração que desconheciam a extensão do despacho executivo que suspendia a entrada de cidadãos de um grupo de países de maioria muçulmana.“O que é que podemos fazer?”, perguntou-lhe Trump num “tom impaciente”, revela, ao Expresso, um antigo dirigente da campanha do multimilionário nova-iorquino e destacado membro do Partido Republicano no estado do Iowa. Ainda segundo a mesma fonte, o Presidente americano, “visivelmente desapontado”, exigiu “atualizações ao minuto” sobre futuras iniciativas.

O multimilionário começava a desconfiar, contaminado pelo ciúme. “O Donald ficou melindrado com a capa da revista ‘Time’ dedicada ao ‘senhor Breitbart’ e titulada ‘O grande manipulador’, diz-nos Bakari Sellers, ex-congressista democrata. “Se há coisa que ele detesta é sentir-se na sombra de um subordinado”. O alegado ressentimento de Trump, que sentiu a necessidade de escrever no Twitter “eu é que dou as ordens por aqui”, criou condições para que começassem “as manobras de bastidores contra Bannon”, indica o professor Matt McWilliams.

O primeiro ataque surge do então chefe de gabinete, Reince Priebus, que avançou com uma lista de dez pontos sobre o novo protocolo de comunicações. Um deles estipulava que todas as iniciativas tinham de ser aprovadas por ele, o que esvaziava o poder de Bannon, que ainda foi obrigado a reunir-se regularmente com alguém que classificara de “inimigo” durante a campanha presidencial, o speaker do Congresso e terceira figura de Estado, Paul Ryan. Mesmo desgastado, Bannon rejeitava qualquer aliança, desprezando as duas fações mais poderosas, uma liderada por Priebus e com ligações diretas ao Partido Republicano, a outra composta por membros da família do Presidente, com destaque para Ivanka e o marido Jared Kushner.

Ratos no “submarino”

É difícil disfarçar qualquer mal-estar na West Wing, a ala da Casa Branca onde o Presidente e a sua equipa trabalham, um espaço composto por pequenos escritórios, alguns sem janelas, ligados por corredores sinuosos. As paredes fustigadas pela humidade e a profusão de ratoeiras denunciam a necessidade de obras profundas, dado que as últimas ocorreram durante a Grande Depressão, na década de 30. A praga de roedores é uma dor de cabeça constante, como se lê num comunicado interno obtido em dezembro pela televisão NBC, que aponta também para a presença indesejada de baratas e formigas. O problema arrasta-se há muito tempo e já em 1977 Jimmy Carter ordenara uma desinfestação em larga escala. Dado o ambiente claustrofóbico, “o espaço é conhecido como o submarino”, conta-nos Ken Duberstein. “Vivemos uns em cima dos outros, olhando sempre para as mesmas caras, exacerbados com tanto trabalho e no limite das nossas forças”.

No passado mês de março, as câmaras de televisão no exterior captaram um desses momentos de tensão, uma aparente discussão entre Trump e Bannon na sala oval. Igualmente presentes, Ivanka e o marido assistiam calados, talvez por desconfiarem do antigo homem forte da ‘Breitbart’, publicação acusada de antissemitismo e crítica de Jared, um judeu ortodoxo.

Futuro. Apesar de aparentemente ter caído em desgraça, Bannon vai continuar a apostar na sua agenda antiglobalista e intolerante

Futuro. Apesar de aparentemente ter caído em desgraça, Bannon vai continuar a apostar na sua agenda antiglobalista e intolerante

foto Olivier Douliery/Bloomberg/Getty Images

A lista de inimigos internos do estratego completou-se com os militares da Administração, um grupo formado pelos generais John Kelly, que substituiu Reince Priebus em julho, James Mattis, secretário de Defesa, e H. R. McMaster, conselheiro de Segurança Nacional. Este último chegou a ser alvo de vários artigos em sites conotados com a extrema-direita, que o descreviam como um “perigoso moderado” que iria “restringir a agenda do Presidente”. A ‘Breitbart’ apresentou alguns desses trabalhos, especulando-se que Bannon serviu de fonte de informação.

Kurt Bardella trabalhou com Bannon entre 2013 e 2015 e reconhece que é “frequente” o desdém do antigo chefe pelos colegas. “Ele é um homem brilhante, mas nunca foi conhecido por ser um jogador de equipa. Ele sabia que o seu estado de graça seria curto. Por isso, fez de tudo por forçar as suas ideias mal chegou à Casa Branca, daí termos assistido à torrente de despachos executivos logo após Trump se sentar na cadeira do poder”, garante. Esse desejo de influência tornou-se evidente para o antigo porta-voz da ‘Breitbart’ há cerca de dois anos e meio, quando uma colega foi agredida por um elemento da campanha de Trump, no final de um comício. Incomodado com o silêncio da direção, que nada fez para defender a trabalhadora, concluiu que “eles, principalmente o Steve, estavam mais preocupados em defender a agenda do político do que uma jornalista da casa”. Pouco depois, Bardella despediu-se.

Charlottesville

Com a passagem do tempo, “Bannon tornou-se cada vez mais isolado, entrincheirado no “salão de guerra”, descreve-nos um antigo membro da equipa de comunicação da Casa Branca, reconhecendo que “ele manteve uma certa influência até ao fim do seu reinado”. O bloqueio à entrada de muçulmanos, a insistência na construção do muro na fronteira com o México e a guerra comercial com a China eram três eixos fundamentais da sua estratégia de “guerra cultural”, considera Bardella. “O problema é que ele ficou cego e não se apercebeu dos protestos nas ruas. Imagino que Trump não tenha gostado, uma vez que valoriza a imagem pública, embora Bannon continuasse a convencê-lo do mérito dessas políticas, argumentando que satisfaziam a base de apoio que o tinha eleito”.

Unidos ideologicamente, o estratego-chefe foi mais uma vez o principal defensor do Presidente após os confrontos em Charlottesville, no início de julho, entre manifestantes neonazis e ativistas antirracismo. Numa conferência de imprensa atabalhoada, Trump afirmou que ambos os lados deviam ser responsabilizados pelos episódios de violência, que terminaram com três mortos e 38 feridos. A equivalência gerou indignação generalizada, visto que enquanto uns entoavam frases antissemitas e xenófobas, os outros tentavam travar a onda de ódio.

Bannon acusou os republicanos de “traição”, o que motivou uma reação pública dos congressistas adversários. “Se o Presidente é sincero na rejeição dos racistas de Charlottesville, então terá de afastar Bannon e outros elementos do Alt-Right que continuam a trabalhar na Casa Branca”, denunciou a líder democrata na Câmara dos Representantes, Nanci Pelosi, num comunicado fornecido aos jornalistas após os confrontos. Via Facebook, Roger Stone, um velho aliado de Trump, ditava a sentença final: “Ele (Bannon) foi incapaz de perceber que sem relações pessoais não há política e agora termina sozinho e sem aliados. Desaparecerá por culpa própria”.

Uma semana depois dos eventos de Charlottsvillle, Bannon sai de cena, oficialmente empurrado pelo general John Kelly. “Desenganem-se. Foi Trump quem deu a ordem”, garante Barry Bennet, conselheiro durante a campanha para as presidenciais de 2016. “Ele não gostou da forma como foi gerida a crise pós-Charlottsville e, acima de tudo, que Bannon tivesse ficado com os louros da vitória nas eleições. Livros como “The Devil’s Bargain”, um extenso perfil político de Bannon escrito por Joshua Green, ajudaram a cimentar essa ideia, injusta para o Presidente”.

Não obstante a animosidade, Bannon continuou a defender o Trump fora da Casa Branca, declarando que “o exílio será um passeio no parque”, uma “promoção”, numa entrevista à “The Weekly Standard”, em meados de setembro. “Sinto-me cheio de força. Sinto-me livre. Tenho as minhas armas de volta”, referindo-se ao regresso à ‘Breitbart’ e às campanhas políticas como conselheiro de candidatos de extrema-direita que, em eleições primárias no Partido Republicano, perseguiriam representantes do núcleo duro do movimento conservador (establishment).

Após algumas derrotas em eleições locais, a aposta no candidato a senador pelo estado do Alabama, Roy Moore, um juiz que alegadamente terá seduzido menores no passado, provou-se ruinosa. Numa primeira fase, o magistrado derrotou o candidato do establishment apoiado por Trump, mas há cerca de um mês perdeu a eleição para o democrata Doug Jones. Pela primeira vez nos últimos 30 anos, aquele bastião conservador elegia um político de esquerda. Trump ficou “furioso”, revela-nos Bennet, pois tinha avisado que Moore era um “candidato inviável”, precisamente o mesmo que tinham dito dele na campanha para as presidenciais de 2016.

Dinheiro precisa-se

Lê-se nas páginas de “Fire and Fury” que “o momento em que Steve assumiu o comando da agenda política da Casa Branca, foi também o momento em que ele começou a ditar o seu próprio fim”. O ego sobredimensionado de que Ken Duberstein nos tinha falado tornou-se evidente para o autor, Michael Wolff, que descreve como, há cerca de um ano, logo após a vitória de Trump nas presidenciais, Bannon gabava-se dos seus méritos em jantares com a elite nova-iorquina.

Esse facto não passou despercebido a amigos íntimos do novo chefe de Estado, caso de Roger Aisles, entretanto falecido, e que naquele período geria como podia a saída em desgraça da direção do canal de televisão Fox News, após múltiplas acusações de assédio sexual. Wolff presenciou algumas dessas conversas, que geraram um efeito de bola de neve, crescendo à medida que as más notícias se acumulavam, do afastamento da Casa Branca à derrota no Alabama, passando pelo arrufo com Donald Trump.

A sucessão destruidora de eventos terminou com estrondo, após o anúncio da família Mercer, acionista da ‘Breitbart’ e patrona de Trump, de que deixou de confiar em Bannon, renunciando ao financiamento dos seus trabalhos de consultoria política. Com as eleições intercalares marcadas para novembro, onde fundamentalmente se disputam lugares na Câmara dos Representantes e no Senado (Câmara Baixa e Alta do Congresso, respetivamente), a falta de dinheiro complica a estratégia de luta contra o establishment republicano.

O Expresso contactou diversas vezes Alexandra Preate, assistente de Steve Bannon, para obter pormenores sobre os planos do antigo homem forte da Casa Branca, mas nunca teve resposta. Apurou, no entanto, junto de Andy Abboud, assessor de Sheldon Adelson, o “senhor Las Vegas”, dono de um vasto império de casinos que se estende dos Estados Unidos até Macau, que Bannon procurou, sem sucesso, persuadi-lo a financiar um novo projeto. “Sem o apoio da Casa Branca e sem o dinheiro dos Mercer, torna-se complicado calcular a sua utilidade”, vaticina Al Cardenas, antigo líder do Partido Republicano no estado da Florida.

Apesar do revés, Kurt Bardella está convencido de que Bannon continuará a seguir a pista do dinheiro. “O Steve poderá ter perdido valor de mercado, em grande parte graças à sua arrogância e falta de disciplina, mas ele não vai desaparecer. Ele já começou a preparar uma organização sem fins lucrativos, financiada por dinheiro que não se sabe bem de onde vem e que servirá a mesma agenda de sempre, antiglobalista e intolerante. O Steve não irá parar e, dada a personalidade obsessiva, voltará a sorrir quando recomeçar a contar os escalpes”.