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Maduro apressa reeleição para rasteirar adversários

Já a pensar nas polémicas eleições deste ano, o palácio de Miraflores (residência oficial) divulgou imagens de Maduro a tirar uma selfie com a mulher, Cilia Flores

reuters

Presidente contestado quer ir a votos até maio, com oposição dividida e impreparada

Daniel Lozano, correspondente em Caracas

“Peço ao poder eleitoral que marque a data mais próxima para sairmos disto, ganhar as eleições e começar a fazer a grande revolução necessária em 2018. Vamos sair disto de uma vez por todas.” Nicolás Maduro não pode ocultar por mais tempo a vontade de ser reeleito Presidente de forma imediata, antes de a gigantesca crise social, económica e política que devora a Venezuela (e que já provocou a fuga de quatro milhões de pessoas) destrua também o roteiro delineado pelos seus assessores.

O chavismo, que soma 19 anos à frente do país sul-americano, antecipou as eleições presidenciais para antes de maio, embora o chefe de Estado não conte com o apoio de mais de 25% da população. A convocatória à pressa é anticonstitucional e a sua data definitiva, entre março e abril, será decidida nos próximos dias, consoante a conveniência de Maduro.

A estratégia dirige-se não só contra a oposição, mas também contra os seus inimigos dentro do regime, sobretudo o outrora aliado Rafael Ramírez, ex-vice-presidente para assuntos económicos, que anunciou a disponibilidade para defrontar o herdeiro de Hugo Chávez nas primárias revolucionárias. Antigo presidente da petrolífera estatal PDVSA, é hoje acusado de corrupção e nada leva a crer que o chavismo lhe permita, sequer, regressar à Venezuela. O regime entrincheira-se em redor do Presidente, o que deve impedir que qualquer dos seus dirigentes apresente uma candidatura concorrente.

A Assembleia Nacional Constituinte, órgão revolucionário que funciona como um soviete caribenho, usa as sanções decretadas pela União Europeia contra sete colaboradores próximos de Maduro como pretexto para justificar a antecipação das eleições, que o Presidente já alvitrara o ano passado, de pois de o bloco revolucionário ter “vencido” à força três atos eleitorais (regionais, municipais e constituintes).

O decreto do regime não surpreendeu a Mesa da Unidade Democrática (MUD, conjunto de forças da oposição), mas apanhou-a em permanente fora de jogo. Esta semana sucederam-se, a um ritmo vertiginoso, contactos e declarações públicas. Por um lado, procuram-se concertar posições para dar uma resposta comum, o que é quase utópico. Por outro, os primeiros pré-candidatos lançaram-se na esfera pública, enquanto os partidos mais fortes tentavam convencer independentes com prestígio social.

“Dada a transcendência das decisões a tomar, a MUD desenvolverá um ciclo de consultas com todos os sectores do país democrático para ter uma posição unitária e unificadora que nos permita enfrentar juntos a ditadura”, destacou a aliança, num comunicado. A primeira decisão a tomar é a participação ou não numas eleições que os mais radicais na oposição contestam sem hesitar. “Espero que ninguém na Venezuela se preste a fazer o jogo de uma tirania que pretende perpetuar-se no poder por via fraudulenta”, defendeu o dirigente exilado Antonio Ledezma.

A posição firme do Grupo de Lima, formado por 14 países do continente, e dos Estados Unidos, Canadá e Alemanha dificulta ainda mais uma decisão que a maioria dos dirigentes da MUD acredita ter de tomar, apesar das péssimas condições em que parte. “Esta eleição não vai ser uma eleição. Talvez haja gente a votar, mas vimos como funciona o sistema eleitoral venezuelano”, denunciou Luis Almagro, secretário-geral da Organização de Estados Americanos.
À procura de um “galo”

A oposição vai, assim, desfolhando a contracorrente um malmequer de aromas revolucionários: participação ou não, primárias ou consenso, manter-se ou não na mesa de negociação de Santo Domingo... “É muito difícil escolher entre ir ou não a eleições. O regime vai realizá-las e a oposição tende a ir dividida e, assim, perde-as. Parece que a única opção da oposição é insistir para que sejam em dezembro”, afirma José Antonio Gil Yepes, diretor do instituto Datanálisis.

Quem já sabe muito bem que terá de ir de mão dada são os partidos Justiça Primeiro e Vontade Popular, respetivamente, do ex-governador Henrique Capriles e do preso político Leopoldo López, inabilitados para as presidenciais. Ambos apoiarão, este fim de semana, a validação de uma candidatura comum da MUD. Mas a aliança vai mais além: procuram também um candidato próprio, de consenso — um “galo” como se diz na Venezuela —, para liderar a candidatura opositora. O perfil seria um independente, de fora dos partidos e com amplo prestígio social, vindo do mundo da Igreja, da Universidade ou dos negócios.

A “esperança branca” é o empresário Lorenzo Mendoza, presidente do Grupo Polar, que fornece a farinha para as famosas arepas venezuelanas e cerveja para as gargantas secas. Até agora não teve um único gesto que justifique as expectativas, mas seria a figura com maiores possibilidades de derrotar o favorito Maduro, segundo as sondagens.