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Internacional

Uma pessoa acorda de manhã e decide criar um partido. Foi isto? “Bom, sim, sendo que foi a 24 de junho”

Créditos: conta do Facebook do novo partido britânica RENEW

Querem um segundo referendo à saída do Reino Unido da União Europeia, defendem uma “necessariamente agressiva” política de construção imobiliária e têm um plano para acabar com a pobreza mais extrema - que envolve muita tecnologia tal como a tecnologia envolve as camadas mais jovens onde se querem afirmar. James Torrance, economista e um dos fundadores do novo partido britânico, o RENEW, explica ao “Expresso” os objetivos do movimento, os pequenos sucessos que já alcançou e defende a possibilidade do florescimento de um partido de centro - ainda que seja dos poucos a fazê-lo nos dias que correm. Concorreu como independente pela freguesia de Kensington nas últimas eleições e viu os dois mundos que o Reino Unido contém: a elegante Notting Hill fica em Kensington mas também o bairro onde cresceu o infame “Jihadi John” - e a torre de Grenfell, que espantou o mundo quando ardeu, é igualmente lá

Ana França

Ana França

Jornalista

Uma pessoa acorda de manhã e decide criar um partido. Foi isto?
Bom, sim, sendo que essa manhã foi a manhã de 24 de junho, a manhã do Brexit (risos). O que aconteceu foi que uma data de pessoas que concorreram como independentes nas eleições gerais em maio do ano passado encontraram-se em campanha e acabámos por entender que havia muitas coisas que nos ligavam. Não estávamos sozinhos e pensámos ‘se nós decidimos, por nós mesmos, concorrer como independentes sem nos conhecermos e partilhamos tantas ideias, então é possível que exista mais gente por aí à procura de respostas’.

O que é que vos uniu?
Uniu-nos a frustração, tanto com os trabalhistas como com os conservadores. E também consideramos que os Liberais Democratas estão descredibilizados e as pessoas já não lhes querem confiar as suas esperanças centristas ou mesmo as de centro-esquerda, porque eles perderam muita influência parlamentar.

O que é que vos leva a dizer que os trabalhistas parecem apostados em destruir a economia? O facto de quererem subir bastante os impostos, nacionalizar alguns sectores, fortalecer os sindicatos? Há muitos britânicos a favor da nacionalização dos transportes ferroviários, por exemplo.
É uma coligação entre a subida de impostos, as nacionalizações e o facto de que as suas propostas na área da despesa pública são incomportáveis. Uma parte das suas medidas até poderia ser boa no fim mas custaria muito dinheiro ao contribuinte e achamos que temos de fazer as coisas de outra forma e eleger com muito estudo prévio as áreas que de facto precisam de ajuda estatal. Se tudo o que os trabalhistas propõem se concretizasse, a economia do país poderia sofrer muito e aí não íamos conseguir ajudar ninguém.

Como é o Brexit vos afetou? Foi maioritariamente por isso que decidiram criar o partido?
Foi muito estranho. Acordei no dia 24 de junho e o país onde eu vivia era muito diferente do país onde eu pensava que estava a viver. Naquela altura, estava tudo relativamente bem. Depois de dez anos de crise, bem duros, as coisas estavam a mudar, a nossa economia cresceu rápido. Quando acordei, pensei ‘raios, vão ser mais dez, mais 20 anos de contenção e austeridade, de dificuldades para aqueles que menos podem lidar com elas’. E tínhamos razão.

Qual foi o maior impacto até agora do Brexit?
Na minha opinião, a inflação, e isso está ligado à desvalorização da libra. Os preços subiram e os ordenados não, então as famílias de classe média e baixa viram o seu nível de vida descer. O impacto no consumo, que irá abrandar mesmo que, de início, pouco, em breve vai notar-se na economia. Os preços da comida e da eletricidade subiram e isso são bens essenciais e representam os maiores gastos das pessoas com menos posses.

Os problemas vão piorar de que forma quando o Brexit se confirmar?
Podem piorar, sim, e nem saímos do mercado único, ainda. A única forma é mesmo parar o Brexit e estamos a trabalhar muito para isso. Se não conseguirmos, pelo menos esperamos conseguir que a opinião pública mude o suficiente para que essa conclusão seja adiada, adiada, adiada até haver tempo para uma negociação proveitosa ou uma nova eleição. Ninguém sabe qual será o acordo final. Podemos conseguir alguma coisa muito parecida com o acordo comercial que temos agora, mas não faremos parte das decisões, como a Noruega, ou então não seremos membros de nada e então podemos tornar-nos uma economia-lesma, voltaremos a ser ‘o homem doente’ da Europa.

Então, resumindo, quais são as vossas propostas em relação ao Brexit?
Queremos reverter a decisão através de um voto, claro. Precisamos de um novo referendo ou de uma nova eleição para podermos avançar com isso. O mínimo dos mínimos é um voto sobre o acordo final que saia das negociações com Bruxelas. Quando soubermos o que lá está dentro, então podemos de facto ter uma discussão sobre se isto é mesmo a coisa melhor a fazer. É que durante a campanha ninguém explicou - porque era impossível prever completamente o que Bruxelas iria ou não permitir - o real impacto económico do Brexit. Já sabemos que vamos perder empregos, a inflação a subir como falei e menos confiança dos investidores, mas há outro lado que é preciso analisar: os supostos benefícios, como o retorno de todos os milhões que damos a Bruxelas e a recuperação das milhas de pesca, por exemplo, não vão acontecer.

Vocês fazem campanha apesar de não estarmos oficialmente em período de campanha?
Sim, estamos no terreno em Londres, pelo menos. Somos um partido jovem e só em fevereiro é que vamos começar uma ‘tour’ pelo país todo. Alugámos uma carrinha grande e vamos a todo lado, queremos chegar principalmente aos locais que votaram para sair da União Europeia. Chamamos-lhe “o périplo dos bons ouvintes”, porque o primeiro objetivo não é entregar panfletos nem pedir votos, é mesmo entender o que as pessoas querem, quais são mesmo os problemas reais - porque esses problemas que levaram as pessoas a votar pelo Brexit existem e não podemos simplesmente fingir que não existem.

Problemas como a imigração, as questões de identidade, o isolamento, a falta de empregos bem pagos?
Sim, a questão dos empregos, por exemplo. Os salários têm subido muito pouco no Reino Unido nos últimos sete, dez anos. Muitas pessoas interpretaram esse facto como uma consequência da subida dos números da imigração intraUE e, em certa medida, têm razão mas a culpa não é dos imigrantes, até porque toda a gente sabe que não é possível manter, por exemplo, o sector da horticultura à tona de água sem imigração. Queremos encontrar as indústrias onde as pessoas mais sofrem esta depreciação salarial e que soluções podemos encontrar. O problema não é a imigração, a imigração é uma desculpa para se pagarem menores salários e isso não é aceitável.

Como foi concorrer como independente em Kensington, um distrito bastante sui generis de Londres? Alguns dos rendimentos mais altos de toda a Europa concentram-se ali mas o número de apartamentos de habitação social é dos maiores de todo o centro de Londres.
É verdade, é mesmo isso e foi muito esclarecedor mas muito estranho ao mesmo tempo. Kensington é uma amostra do que é Londres num todo e depois daquilo que são as principais cidades do país. É muito dividido: algumas das pessoas com mais dificuldades de todo o país vivem ali e as zonas mais ricas são mesmo muito ricas. No dia a dia de campanha vais de zona em zona e é muito desorientador e pensas ‘como é possível?’ a cada passo. Conseguimos derrotar o conservador pró-Brexit, os nossos votos contribuíram para isso.

Pode dar-nos exemplos de problemas que as pessoas identificaram na campanha e para os quais vocês tenham ideias?
Há dois assuntos que assim de repente me lembro que muita gente mencionou: a poluição atmosférica, que é muito preocupante, principalmente nas grandes cidades e que cada vez mais gente nota e sente o impacto. As pessoas em Kesington diziam-me ‘as nossas ruas estão muito poluídas e isso está a prejudicar as nossas crianças, as nossas vidas’. Uma outra área importantíssima é a habitação ou a falta dela, melhor dizendo. Há uma enorme falta de habitação no sul de Inglaterra - então em Londres é gritante. Tem de haver muita construção e não pode ser destinada a casas de luxo.

As pessoas parecem cada vez menos interessadas em políticas amplas, abrangentes e a sociedade tornou-se demasiado diversa para um partido de centro, que quer agradar a toda a gente, possa dar voz a essas pessoas. Na Alemanha é isso que está a acontecer e daí as dificuldades em encontrar uma solução governativa. Como é que “vende” um partido de centro?
Sim, é possível se nos concentrarmos em propor soluções que tenham impacto nas vidas das pessoas e não em grandes discussões ideológicas. É por causa desse discurso muito disperso sem grande foco que as pessoas se distanciam. Por exemplo: quando um novo prédio é construído em Londres, as casas são compradas por pessoas que não têm qualquer intenção de lá viver. É um investimento como outro qualquer, como um fundo financeiro. É preciso desencorajar isso e é fácil é só ter coragem para dizer ‘não, desculpem lá, se comprou um apartamento ele tem de ser para viver’. Ninguém diz ‘eu vou votar pelo partido centrista’ mas podes dizer ‘eu vou votar pelo partido que vai fazer alguma coisa em relação à habitação’.

A última pergunta é sobre o impacto que vocês esperam ter na redução da pobreza extrema dentro e fora do Reino Unido. Pode explicar como funcionaria essa ideia das doações diretas que está escrita no vosso site?
Estamos a gastar milhões de libras em agências de promoção do desenvolvimento e há alguns estudos que dizem que nem sempre esses fundos são bem utilizados. Porque não identificar as pessoas, as instituições, os projetos, as escolas, os empreendedores que mais impacto podem ter num determinado país e doar diretamente a essas pessoas? Com a tecnologia tão avançada como está, por exemplo na área das transações financeiras por telemóvel, torna-se hoje mais fácil do que algum dia foi fazer chegar o dinheiro às pessoas certas.