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Internacional

NATO contra NATO? Aumentam receios de conflito turco-americano na Síria

Ancara anunciou que vai avançar para de Afrin para Manbij, uma zona controlada pelas forças curdas que são apoiadas pelos EUA e que a Turquia quer combater

OMAR HAJ KADOUR

Com Ancara prestes a enviar tropas para Manbij, coligação internacional anti-Daesh diz que os seus soldados, nomeadamente os combatentes das forças curdas, “têm o direito a defender-se” e que “fá-lo-ão se se provar necessário”, ou seja, caso venham a enfrentar os turcos no terreno

Uma milícia curda apoiada pelos Estados Unidos da América destacou esta semana combatentes para a frente de combate em Manbij, na Síria, depois de o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, ter garantido que vai lançar uma ofensiva no local depois da Operação Ramo de Oliveira atualmente em curso em Afrin.

Manbij dista cerca de 100 quilómetros de Afrin para leste e, neste momento, alberga uma batalhão de soldados da coligação liderada pelos EUA para destronar o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), o que quer dizer que as tropas dos dois aliados da NATO podem vir a defrontar-se no terreno.

Na quarta-feira, o porta-voz da coligação internacional anti-Daesh sublinhou que os seus soldados, nomeadamente as forças curdas sírias que integram essa coligação, têm direito a defender-se de qualquer ataque.

"Estamos claramente sob alerta perante o que pode vir a acontecer, especificamente na área de Manbij, porque é aí que estão as forças da coligação", declarou à Reuters o coronel Ryan Dillon, do Comando Central dos EUA. "As forças da coligação naquela área têm o direito inerente a defender-se e fá-lo-ão se se provar necessário."

Citado pela Al-Jazeera, Sharfan Darwish, do Conselho Militar de Manbij — uma unidade das forças curdas sírias (YPG) que está a combater os turcos em Afrin — disse que as suas tropas já estão a preparar-se para um eventual confronto com os soldados da Turquia. "Estamos totalmente preparados para responder a qualquer ataque. A nossa coordenação com a coligaçao internacional continua em vigor no que toca à proteção de Manbij."

A escalada das tensões no norte da Síria e a possibilidade de os dois aliados da NATO virem a defrontar-se no terreno levou a que Donald Trump e Erdogan falassem ao telefone esta semana, uma conversa na qual o Presidente norte-americano terá expressado "preocupações" face ao que classifica como a "retórica falsa e destrutiva" de Ancara sobre a situação na Síria.

No telefonema, Trump terá pedido a Erdogan para ter cuidado. Segundo um comunicado da Casa Branca, o Presidente "pediu à Turquia que limite as suas ações militares e que evite baixas civis e o aumento do número de pessoas deslocadas e de refugiados". Também "pediu à Turquia que tenha cautela e que evite quaisquer ações que arrisquem um conflito entre as forças turcas e americanas".

A conversa — cuja versão norte-americana já foi disputada por um oficial do governo turco — teve lugar depois de Erdogan ter anunciado que pretende expandir a sua ofensiva em Afrin até Manbij para "limpar totalmente a região deste problema" — o problema sendo os curdos treinados, financiados e armados pelos EUA.

Para a Turquia, as YPG são uma extensão do ilegalizado Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), com o qual Ancara está em guerra há várias décadas no território turco. Erdogan teme que o avanço das YPG na fronteira turco-síria venha a galvanizar a luta do PKK dentro do país.

Ao anunciar a Operação Ramo de Oliveira, o Presidente turco alegou que esta tem como objetivo criar uma zona de trânsito segura para que os mais de três milhões de sírios refugaidos na Turquia possam regressar a casa. "Primeiro vamos exterminar os terroristas, depois criar uma área habitável. Para quem? Para os 3,5 milhões de sírios que acolhemos na nossa terra."

Perante as críticas aos seus argumentos e à própria operação militar que ordenou, o governo de Erdogan tem estado a pedir aos cidadãos que estejam atentos à "propaganda" disseminada contra essa ofensiva, com o porta-voz da presidência, Ibrahim Kalin, a pedir aos jornalistas e aos cidadãos que estejam atentos às "notícias falsas, provocadoras e que distorcem" os factos. (Sobre a retórica anti-media e a expressão 'notícias falsas' popularizada por Trump, vale a pena ler este artigo que o "New York Times" publicou em dezembro.)