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Muro no México vs. Imigração. Moedas de troca ou armadilha para Trump?

Oito 'sonhadores' foram detidos durante um protesto no Capitólio este mês

Chip Somodevilla

Meses depois de ter prometido proteger os 700 mil jovens imigrantes sem documentos abrangidos pela lei DACA, Trump reverteu essa promessa no rescaldo do encerramento temporário do governo. Na quarta-feira, voltou a baralhar as cartas, dizendo-se disposto a oferecer cidadania aos 'sonhadores' em troca de 25 mil milhões de dólares para construir o seu almejado muro na fronteira com o México — isto depois de os democratas terem avisado que “sem DACA não há muro”

O Presidente norte-americano anunciou na quarta-feira à noite que vai apresentar, na próxima semana, um projeto-lei que prevê a atribuição de cidadania a imigrantes sem documentos levados para os Estados Unidos enquanto crianças — os chamados 'sonhadores' — em troca de 25 mil milhões de dólares (cerca de 20 mil milhões de euros) para avançar com a construção do muro que prometeu erguer na fronteira com o México.

Aos jornalistas, Donald Trump disse-se optimista quanto às possibilidades de esse acordo vir a ser firmado pelos legisladores republicanos e democratas no Congresso, que têm até dia 8 de fevereiro para aprovar um novo pacote de financiamento do governo federal que impeça uma nova suspensão dos serviços públicos como a que teve lugar este fim-de-semana, até à aprovação de um projeto-lei temporário para manter o governo federal aberto até essa data.

"Digam-lhes para não estarem preocupados, ok?", declarou Trump sobre o desejo da maioria dos democratas em impedir a deportação dos cerca de 700 mil 'sonhadores' abrangidos pelo projeto-lei DACA, que foi aprovado pela administração de Barack Obama para proteger imigrantes clandestinos sem cadastro que chegaram aos EUA em crianças. "Digam-lhes que não se preocupem. Vamos resolver este problema. Vai tudo depender dos democratas, mas eles [imigrantes] não devem estar preocupados."

Reviravolta(s)

As declarações marcam mais um revés na postura do atual Presidente face a este grupo de imigrantes. Durante a campanha eleitoral em 2016, Trump prometeu aprovar novas regras anti-imigração se fosse eleito, tendo anunciado em setembro do ano passado que ia pôr fim ao DACA em março deste ano se o Congresso não apresentasse um novo projeto-lei para substituir esse programa — que, atualmente, protege cerca de 700 mil imigrantes, na sua maioria jovens hispânicos, garantindo-lhes vistos de residência e trabalho nos EUA.

Depois desse anúncio, o Presidente republicano irritou vários legisladores do seu próprio partido ao anunciar um "acordo de princípio" com os democratas para impedir a deportação dos 'sonhadores' em troca de um pacote para financiar o muro no México.

No início deste mês, um juiz federal da Califórnia suspendeu temporariamente a ordem de Trump para acabar com o DACA, que na semana seguinte se tornaria no busílis das negociações no Congresso para manter o governo federal em funcionamento.

Quando, esta segunda-feira, os dois partidos chegaram a um acordo para garantir o financiamento dos serviços públicos até ao início de fevereiro, os republicanos comprometeram-se a aprovar medidas para proteger os 'sonhadores', altura em que a Casa Branca deu a entender que podia começar a deportá-los já no dia 5 de fevereiro.

Face a isto, o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, retirou a sua proposta de financiamento ao muro no México — "Sem DACA não há muro no México" — no que a "Mother Jones" e uma série de analistas viram como uma "armadilha" a Trump. "Schumer tem sido muito gozado por causa disto, já que os democratas, na verdade, estão dispostos a financiar o muro", escreveu a revista.

"Afinal de contas, [o muro] já fazia parte das propostas [do partido da oposição], portanto qual é o objetivo? É fácil", responde a revista. "Schumer percebeu que, se houver outro encerramento do governo, os republicanos têm de ser vistos como os culpados. Por causa disso, vai negociar um acordo que dê aos republicanos quase tudo o que eles querem em troca do DACA, excepto o muro. Se eles recusarem aprovar uma nova resolução de financiamento — ou se Trump ameaçar vetá-la — por não prever fundos para o muro, será culpa deles. Os democratas terão sido a doce voz da razão, contra um Trump tão obcecado com o seu muro estúpido que está diposto a encerrar o governo por causa dele."

Promessas e reações

Isto explicará porque é ontem o Presidente voltou a reverter a sua posição, convocando uma conferência de imprensa inesperada na Casa Branca para garantir aos jornalistas que os 'sonhadores' não devem estar preocupados com as negociações que aí vêm. Reagindo ao volte-face, o senador republicano Lindsey Graham, um dos legisladores à frente das negociações sobre imigração, disse ontem que Trump acabou de abrir caminho a um acordo bipartidário.

"O apoio do Presidente Trump à atribuição de cidadania vai ajudar-nos a obter medidas de segurança fronteiriça fortes à medida que trabalhamos para modernizar um sistema de imigração falhado", disse em comunicado. "Com estas fortes declarações do Presidente Trump, nunca me senti melhor quanto às nossas hipóteses de encontrar uma solução para a imigração."

Claire McCaskill, senadora democrata que também integra a comissão bipartidária com outros 30 legisladores, também expressou um optimismo cauteloso face ao anúncio, lembrando que as negociações "podem virar para qualquer lado"

Está previsto que, na próxima segunda-feira, a Casa Branca apresente o seu plano formal para a aprovação de leis de imigração, um dia antes de Trump proferir o seu primeiro discurso sobre o Estado da Nação no Capitólio na terça à noite. Para que o potencial projeto-lei seja promulgado, a Câmara dos Representantes terá de aprovar um pacote de medidas idêntico ao que for aprovado no Senado.

Trump diz que a sua proposta vai incluir um pedido de 25 mil milhões de dólares para construir um muro que ele próprio tinha garantido que seria pago pelos mexicanos. O Presidente quer ainda 5 mil milhões de dólares (4 mil milhões de euros) para financiar outros programas de segurança na fronteira, medidas para limitar o espectro que permite a imigrantes legais levarem os seus familiares diretos para os EUA e uma reforma ou o fim do sistema de lotaria de vistos.

Em troca, diz estar disposto a impedir a deportação dos 'sonhadores' e a aprovar um "incentivo" à atribuição de cidadania a esses jovens imigrantes, "talvez dentro de 10 ou 12 anos". Na conferência de imprensa, disse ainda que será "difícil" garantir a regularização do estatuto dos progenitores dos 'sonhadores'.