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Adeus guerra contra o carvão, olá guerra contra as energias renováveis (e contra a China)

Lucas Schifres / Getty Images

Donald Trump acabou de aprovar a imposição de pesadas taxas sobre a importação de painéis solares e máquinas de lavar para “pôr a América em primeiro lugar”. Medida atinge sobretudo os mercados da Coreia do Sul e da China, que já prometeram apresentar uma queixa formal na Organização Mundial do Comércio

A administração norte-americana anunciou, na segunda-feira à noite, a imposição de novas taxas sobre a importação de máquinas de lavar e painéis solares, um passo que vem cimentar a política comercial protecionista prometida por Donald Trump ao longo da corrida presidencial em 2016 para, nas suas palavras, “pôr a América em primeiro lugar”. Em comunicado, um porta-voz da administração disse que as medidas se integram no compromisso de Donald Trump em “defender sempre os trabalhadores, agricultores, fazendeiros e empresários americanos”.

No seu discurso de tomada de posse, a 20 de janeiro de 2017, Trump já tinha prometido não só proteger as fronteiras dos EUA, nomeadamente aquela que separa o país do México, como combater os países que “fazem os nossos produtos, roubam as nossas empresas e destroem os nossos postos de trabalho” — neste caso, a China e a Coreia do Sul, os principais alvos destes novos impostos aduaneiros.

As medidas anunciadas na madrugada desta terça-feira estão a ser classificadas como o maior passo protecionista do Presidente norte-americano desde que anunciou a retirada dos EUA da Parceria Transpacífico (TPP) e que prometeu renegociar o Tratado de Livre Comércio do Atlântico Norte (NAFTA).

As taxas sobre as importações destes produtos foram aprovadas após a Comissão Internacional de Trocas dos EUA ter apurado que os produtores locais estavam a ser prejudicados pela compra no estrangeiro do mesmo tipo de produtos a preços inferiores.

As tarifas impostas sobre os painéis solares, apontam especialistas, são inferiores àquilo que os produtores norte-americanos desejavam. Já as taxas sobre máquinas de lavar e peças para essas máquinas são superiores ao que se antecipava — nalguns casos ultrapassam 50% do preço do produto, revelam documentos internos do governo.

Em reação ao anúncio, a China — maior fabricante mundial de painéis solares — e a Coreia do Sul — cujas multinacionais Samsung e LG competem diretamente no mercado das máquinas de lavar com empresas americanas como a Whirlpool — prometeram apresentar uma queixa formal contra os EUA na Organização Mundial do Comércio (algo que o Canadá fez recentemente), sob o argumento de que as taxas são “excessivas” e “lamentáveis”.

Ativistas pelo ambiente também já vieram avisar que a subida dos preços dos painéis solares vai bloquear o avanço e a implementação das energias renováveis no país, pondo em risco o combate às alterações climáticas e ao aquecimento global.

Como vai funcionar? E quem concorda?

Sob os planos do governo, será aplicada uma taxa de 20% sobre as importações das primeiras 1200 milhões de máquinas de lavar residenciais num ano, com um imposto aduaneiro de 50% sobre as restantes importações no mesmo ano. Ao terceiro ano, o primeiro imposto cairá para 16% e o segundo para 40%. Já o aumento da tarifa sobre painéis e módulos solares importados da China será de 30% no primeiro ano, prevendo-se que baixe para 15% no quarto.

“Este anúncio vem pôr fim a quase uma década de litígio e vai resultar em novos postos de trabalho no Ohio, Kentucky, Carolina do Sul e Tennessee”, congratulou-se em comunicado Jeff Fettig, presidente executivo da Whirlpool, que estava há anos a tentar obter proteções federais em luta contra a competição da Coreia do Sul e do México.

Marcadamente menos positivas estão a ser, sem surpresas, as reações de ambientalistas, do sector das energias renováveis e do próprio Partido Republicano que ajudou a eleger Donald Trump.

“Isto vai criar uma crise numa parte da nossa economia que tem estado a florescer, o que em última instância vai custar dezenas de milhares de postos de trabalho aos operários norte-americanos que trabalham no duro”, sublinhou Abigail Ross Hopper, diretora-executiva da Solar Energy Industries Assn.

A ela juntaram-se ambientalistas que dizem que, a par do fim da guerra contra o carvão aberta por Barack Obama e que Trump continua a tentar suspender, as tarifas sobre painéis solares vão prejudicar os esforços de combate ao aquecimento global — algo que, para o Presidente, não é um facto científico mas um “embuste” criado pela China e para a China ultrapassar os EUA nos mercados globais.

A par das consequências ambientais que estão a ser antecipadas, há a sublinhar, como aponta Hopper, o impacto previsto na indústria das energias renováveis. A Califórnia, onde o sector tem registado um acelerado crescimento nos últimos anos, será um dos estados norte-americanos mais afetados. Um grupo que representa os interesses da indústria diz que estas taxas aduaneiras vão custar 23 mil postos de trabalho em todo o país a cada ano e que milhares de milhões de dólares de potenciais investimentos vão evaporar-se por causa delas.

Entre os republicanos também se antecipa a oposição de vários legisladores, que têm acusado o Presidente de violar a postura de longa data do partido a favor do comércio livre global. China e Coreia do Sul, por sua vez, já avisaram que vão abrir a sua própria frente de guerra contra os EUA dentro da Organização Mundial do Comércio (OMC).

“Juntamente com outros membros da OMC, a China vai defender resolutamente os seus legítimos interesses” face a um plano que “não só vem gerar preocupações entre muitos parceiros de trocas como é também condenado fortemente por vários governos locais e empresas da cadeia de distribuição nos EUA”, sublinhou Wang Hejun, porta-voz do governo chinês.

A isto, o ministro sul-coreano do Comércio, Kim Hyun-chong, acrescentou que as taxas representam “uma violação das disposições da OMC”. A Samsung, por sua vez, classificou os novos impostos aduaneiros sobre os seus produtos como “um imposto sobre cada consumidor que quer comprar uma máquina de lavar”.