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Internacional

“A maioria republicana tem agora 17 dias para impedir que os ‘sonhadores’ sejam deportados”

Trump e o líder da minoria democrata têm trocado acusações sobre quem é responsável pelo encerramento do governo

Alex Wong / Getty Images

Com o governo federal dos EUA reaberto temporariamente, democratas estão a ser acusados de ceder ao partido no poder sem defender a imigração. Casa Branca de Trump já sugeriu que deportações podem começar no dia 5 de fevereiro, três dias antes de acabar o prazo para evitar nova suspensão dos serviços públicos

O governo federal norte-americano reabriu temporariamente, na madrugada desta terça-feira, ao final de três dias encerrado, depois de a maioria republicana e a minoria democrata terem chegado a um acordo para garantir o financiamento dos serviços públicos até dia 8 de fevereiro.

Depois de quase quatro dias de braço-de-ferro no Senado, a maioria dos democratas da câmara alta aceitou apoiar um projeto-lei orçamental para que o governo federal pudesse reabrir, após a liderança republicana ter prometido debater as questões de imigração que estiveram na base desse braço de ferro.

A proposta passou com 81 votos a favor e 18 contra no Senado, depois de ter sido aprovada por 266 membros da Câmara dos Representantes. A chamada “resolução de continuidade” vem garantir o financiamento do governo federal até ao próximo dia 8, dentro de seis semanas; até lá, o Congresso terá de aprovar uma nova lei orçamental se quiser evitar que o governo volte a encerrar.

Esta é a quarta medida temporária aprovada pelos dois partidos desde outubro, numa altura em que os democratas e os republicanos, que controlam as duas câmaras do Congresso e a Casa Branca, continuam sem conseguir chegar a um acordo sobre um orçamento de longo prazo para o ano fiscal de 2018.

Ao anunciar o projeto-lei temporário, o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, lembrou a promessa feita pelo partido no poder, sublinhando: “A maioria republicana tem agora 17 dias para impedir que os ‘sonhadores’ sejam deportados.”

O que está em causa?

Os chamados ‘sonhadores’ são centenas de milhares de imigrantes sem documentos que chegaram aos Estados Unidos em crianças e que, até agora, estavam protegidos pelo DACA, uma lei aprovada por Barack Obama para garantir emprego, vistos de residência e a integração destes jovens sem cadastro. O DACA esteve no centro da disputa que, de sexta para sábado, levou à suspensão parcial dos serviços públicos por falta de financiamento.

Ao promulgar a medida aprovada pela maioria dos legisladores na segunda-feira à noite, Donald Trump contragulou-se pelo facto de os democratas "terem cedido" e voltou a culpá-los pelo encerramento do governo federal nos últimos três dias — isto apesar de o seu partido deter a maioria dos assentos nas duas câmaras do Congresso.

A Casa Branca, por sua vez, deu a entender que os ditos ‘sonhadores’, mais de 700 mil pessoas, muitas sem nunca terem conhecido outra realidade ou país, poderão começar a ser deportados já no dia 5 de fevereiro, três dias antes do novo debate parlamentar, caso os democratas não acatem as exigências do Presidente Trump.

A par disso, a porta-voz do líder da maioria republicana no Senado veio garantir, esta madrugada, que quaisquer notícias a dar conta de que Mitch McConnell se comprometeu em participar numa votação sobre o DACA estão “erradas” e que a única coisa que ele aceitou foi levar a cabo um “processo de emendas justas” à lei, “não um voto num projeto-lei específico” para garantir a contínua proteção destes imigrantes.

“Estou satisfeito que os democratas do Congresso tenham ganhado bom senso”, declarou Trump em comunicado após os dois partidos terem chegado a acordo. “Vamos fechar um acordo de longo prazo sobre imigração se, e apenas se, for bom para o nosso país”, sublinhou o Presidente.

Vencedores e vencidos

Entre os democratas houve vários liberais que votaram contra o acordo e que, logo a seguir, se disseram céticos quanto à alegada promessa de McConnell sobre um debate para proteger os ‘sonhadores’. Entre eles contam-se os potenciais candidatos às presidenciais de 2020 Elizabeth Warren, Kirsten Gillibrand, Cory Booker, Bernie Sanders e Kamala Harris.

Outra senadora democrata, Dianne Feinstein, disse estar “muito desapontada” com o acordo fechado com os republicanos para reabrir o governo federal temporariamente, sublinhando que não há quaisquer garantias de que o partido venha a fazer o que quer que seja para ajudar os jovens imigrantes abrangidos pelo DACA — 22 mil dos quais perderam as proteções sob o DACA até setembro de 2017, antes de Trump ter ordenado oficialmente que o programa federal seja encerrado ou, no mínimo, renegociado.

Contra os que dizem que os republicanos e, em particular, McConnell foram os grandes vencedores da noite, a quem será atribuída esta vitória temporária quando se olhar para trás, outros há a defender que foram os democratas que saíram a ganhar no longo prazo com esta medição de forças.

“Se os republicanos mantiverem a promessa de trabalhar com os democratas para resolver o problema dos residentes indocumentados trazidos para a América em crianças, os democratas terão conquistado uma grande vitória para esta população vulnerável e junto da sua base progressista”, apontava ontem o “Observer” (jornal de tendência conservadora, em tempos detido e gerido pelo genro de Trump, Jared Kushner). “Se não cumprirem essa promessa, a base democrática ficará ainda mais furiosa com o partido no poder o que, em última instância, vai ajudar o Partido Democrata nas eleições intercalares [de novembro] deste ano.”

Não é, contudo, certo que isso venha a confirmar-se, dadas as reações furiosas de grupos de ativistas e direitos civis ao que veem como uma “cedência” dos democratas. “Não podemos depender de promessas ocas vindas de quem já provou que brinca com as vidas dos ‘sonhadores’”, referiu ontem Lorella Preali, diretora de políticas e campanhas de imigração da União Americana de Liberdades Civis (ACLU).

“Hoje, os republicanos — e demasiados democratas — no Congresso traíram os nossos valores americanos e permitiram que a intolerância e o medo prevalecessem. Mas há demasiadas vidas em risco e vamos fazer questão de garantir que, em novembro, os eleitores sabem quem foram os representantes que defenderam os ‘sonhadores’ e quais deles defenderam as suas deportações.”