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Vem aí mais um livro que promete enfurecer Donald Trump

Kurtz (ao centro) trabalhou para o "Washington Post" durante 29 anos. Em 2013, abandonou a CNN para integrar a redação da Fox News

David S. Holloway

Depois de “Fire and Fury”, da autoria de Michael Wolff, é a vez do jornalista veterano Howard Kurtz publicar “Media Madness: Donald Trump, The Press And The War Over The Truth”. Chegada às bancas está prevista para a próxima segunda-feira, 29 de janeiro

Depois de Michael Wolff ter lançado “Fire and Fury”, um livro sobre o primeiro ano da caótica administração de Donald Trump, será um jornalista do canal favorito do Presidente norte-americano, a Fox News, a lançar uma segunda obra sobre a “loucura” na Casa Branca de Trump.

Em “Media Madness: Donald Trump, The Press And The War Over The Truth”, Howard Kurtz analisa a guerra do Presidente contra os “media falsos”, assim classificados pelo próprio líder dos EUA, e como essa guerra está a marcar e a ser marcada por uma administração em desalinho.

Segundo excertos do livro consultados pelo “Washington Post” (o jornal onde Kurtz trabalhou durante 29 anos, até 2010), um dos exemplos deste caos remonta ao final de julho, quando a Casa Branca tinha acabado de completar uma revisão oficial sobre a medida que Barack Obama criou para permitir que pessoas transgénero pudessem alistar-se no Exército.

Na altura, Trump e Reince Priebus, à data seu chefe de gabinete, chegaram a um acordo para se encontrarem na Sala Oval e discutirem quatro opções para decidir o futuro dessa medida. Foi aí que o Presidente lançou o caos no seu gabinete com um tweet sem pré-aviso a anunciar a sua própria decisão — a de que o Governo não ia continuar a autorizar que as Forças Armadas integrem pessoas transgénero nos seus diferentes ramos e fileiras.

“Oh meu deus, ele acabou de tweetar isto”, terá dito Priebus, de acordo com o livro que Kurtz, atualmente a apresentar o programa Media Buzz da Fox News, se prepara para lançar a 29 de janeiro.

Tal como “Fire and Fury” e os livros que se anteveem nos próximos meses sobre o percurso do 45.º Presidente dos Estados Unidos, “Media Madness” apresenta um retrato de uma Casa Branca mergulhada no caos, com assessores e outros oficiais às aranhas sobre como reagir a impulsos do Presidente Trump como aquele que o levou a tweetar sobre pessoas transgénero no Exército sem pré-consultas.

Kurtz, que trabalhou para o “Washington Post” entre 1981 e 2010 antes de se mudar para a CNN e daí para a Fox News em 2013, avança no seu livro que a equipa de Trump cunhou um novo termo secreto para se referir ao comportamento do líder — “transtorno do desafio”. A expressão faz referência à compulsão do Presidente para fazer exatamente o oposto daquilo que os seus conselheiros dizem ser o melhor, deixando esses mesmo conselheiros a tentar apanhar as peças no rescaldo de cada decisão.

O jornalista descreve como os conselheiros da Casa Branca foram apanhados “desprevenidos” num sábado de manhã em março, quando Trump lançou um ataque a Obama no Twitter, acusando-o — sem quaisquer provas — de ter ordenado escutas à sua sede de campanha durante a campanha para as presidenciais de 2016. “Ninguém na Casa Branca sabia o que fazer”, escreve Kurtz.

Priebus, que deixaria de ser chefe do gabinete de Trump em julho, viu o seu telefone ser inundado de chamadas e mensagens de texto às quais não sabia como reagir. “Priebus sabia que a equipa ia ter de se organizar para provar que o tweet era correto”, o oposto daquilo que costuma ser o processo de decisões nestes cenários.

Se até agora o Presidente e os seus conselheiros se reuniam para chegar a um acordo sobre qualquer tipo de anúncio, a situação reverteu-se com Donald Trump instalado na Casa Branca. “Assim que o Presidente se compromete com 140 caracteres, não volta atrás”, refere o autor de “Media Madness”.

Bannon volta a protagonizar várias cenas no novo livro sobre o caos da administração Trump

Bannon volta a protagonizar várias cenas no novo livro sobre o caos da administração Trump

Scott Olson

No seu livro, aponta o “Washington Post”, Kurtz também parece contar com declarações de Steve Bannon, ex-conselheiro do Presidente a quem Wolff atribui alguns dos comentários mais explosivos contidos no seu “Fire and Fury”. A filha e o genro de Trump, Ivanka e Jared Kushner, também protagonizam algumas das cenas do novo livro sobre a administração, entre elas uma em que Bannon culpa Ivanka por uma fuga de informação para a imprensa e Trump se alinha com ele e não com a filha: “'Querida, penso que o Steve tem razão nisto', disse-lhe Trump”.

Questionada sobre este episódio em particular, uma fonte da Casa Branca contactada por Kurtz desmentiu que assim tenha sido e garantiu que, “nas três semanas” que se seguiram, “ficou muito claro quem eram as fontes das fugas de informação”.

“Apesar de Kurtz parecer, por vezes, oferecer um retrato mais abonatório dos funcionários da Casa Branca do que outros relatos nos media, também capta a forma como a Casa Branca tem estado a contorcer-se para executar as tarefas mais básicas e como os conselheiros [de Trump] têm reagido aos caprichos de um Presidente difícil de controlar”, aponta o “Washington Post” com base nos excertos do livro.

Nele, Bannon volta a figurar como personagem central desta trama da vida real, com Kurtz a avançar que o fundador do site de extrema-direita Breitbart News informou Trump que ia abandonar a Casa Branca em agosto para avançar com o plano de “destruir” o líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell. “Trump disse que por ele tudo bem, que Bannon devia avançar”, escreve Kurtz.

O jornalista relata ainda a forma pouco ortodoxa como Trump decidiu substituir Priebus pelo general John Kelly. “Ao seu jeito típico, Trump anunciou a decisão sem falar com Priebus e sem ainda ter feito um convite formal a Kelly.”

Nos excertos da obra, outra das personagens que ganha destaque é a conselheira Kellyanne Conway, responsável por cunhar o termo “factos alternativos” para defender as mentiras do Presidente Trump e apresentada no livro como uma das pessoas com mais capacidades para o acalmar.

A par disso, Kurtz diz que a fonte de algumas das fugas de informação para a imprensa que têm ajudado a retratar este caos na administração é o próprio Trump. “O próprio Presidente também avançou informações aos repórteres, acreditam os seus conselheiros, por vezes inadvertidamente: Trump fala com tantos amigos e conhecidos que as informações-chave acabam por chegar rapidamente às mãos dos jornalistas.”